É, meu pequeno gigante, a vida é estranha. É maravilhosa por ter me permitido estar ao seu lado por praticamente 30 anos, escutar suas histórias, aprender com seus conselhos, rir de suas piadas e ter um exemplo.

Sei que você também ficava meio puto com o como as coisas eram, eu fico demais também. A vida não é como a gente quer, às vezes isso é bom, às vezes não. Muitas vezes alegra, mas também dói demais, pai.

A saudade aperta para caramba, não teria como ser diferente, pai! Lembro de muita coisa, muita mesmo, vai ver essa é minha benção e minha maldição: memória.

Lembro de estar deitado ao seu lado, quase em cima do teu peito no sofá um dia, e eu era novo, bem novo. Até porque, se fosse mais velho, você não teria aguentado meu peso sobre você, né? Era uma noite tranquila, rolava algo na tv, o sofá tinha um estofado horrível de flores, mas parecia ok na época. Era um sofá de dois lugares, mas você cabia e gostava de deitar ali, num momento bem antes desses sofás de hj em que só deitamos e ninguém senta.

Éramos subversivos, em sofás nos quais apenas se sentavam, nós deitávamos.

Estava tudo bem naquela noite. Mas de repente me deu medo, fiquei com medo de você morrer e comecei a chorar querendo ter alguma certeza de que teria você e a mamãe para sempre.

Você achou graça, aquilo foi quase como um elogio para você, mas foi honesto comigo, me disse que ficaria muito tempo ainda e não mentiu dizendo que seria eterno. Você não costumava mentir, era espontâneo e sincero, por vezes até demais.

Mas esse era mais um motivo para te amarmos.

Lembro dos momentos alegres quando eu estava de férias na praia e você tinha de trabalhar. Passávamos a semana longe, mas que alegria simples e boa e imensa era te ver chegando na sexta, fazendo surpresa, saindo mais cedo do trabalho e dirigindo para ver eu, o Alan e a mamãe o quanto antes.

Você era único, chegava de sapato, camisa e calça jeans na praia, não importava o calor. Eram verões incríveis…

Sabe, a gente fica saudável e depois nem tanto, pai. A idade dá uma baqueada no corpo, no vigor. E você já estava magrinho e pequeno, frágil até, mas que força tinha… Em palavras, olhares e gestos, enchia o ambiente como se mil pessoas ali estivessem. Com seu carisma e magnetismo, poderia xingar que qualquer pessoa ainda queria te ouvir. Às vezes era intimidador quando queria saber algo, como um detetive de filme, mas o que sempre marcou foi seu coração enorme, bondoso e querendo o bem de todos. Obrigado por me ensinar a pensar primeiro nas pessoas, não importando a situação.

Você me ensinou a beber, comer, cozinhar, conversar e fazer humor. Ria pouco do que eu dizia, mesmo quando achava graça. Sei que segurava o riso, talvez para que eu não ficasse convencido, não sei. Mas era bom ver aquele seu sorriso de lado, era melhor que uma gargalhada, pois eu sabia que estava vendo algo de ti em mim.

Você era artista, apesar de nunca ter trabalhado isso efetivamente. Contava histórias como poucos (e quantas ouvimos várias vezes, incansavelmente, ao redor da mesa ou sentados na porta de casa, porque a história não importava, mas sim seu jeito de falar, as brincadeiras, os ensinamentos no meio da narrativa, a sagacidade que sempre teve, podia não ter estudado muito, como dizia, mas conheci pouquíssimas pessoas tão inteligentes e sábias como você).

Você falava bem, fazia piadas, tinha sacadas, desenhava, escrevia. Foi um talento único, e mesmo que não tenha tido fama ou grana, foda-se tudo isso, porque tinha plateia cativa e um fã clube gigantesco. Não dava pra te conhecer e não lembrar de ti para sempre.

Entende agora porque eu ainda sou grato à vida e a Deus? Eu carrego você em mim, pude te ver todos os dias da minha vida, praticamente, e pude aproveitar muito.

A gente sempre pensa que poderia ter feito mais coisas, aproveitado mais, curtido mais juntos. Mas não tenho arrependimento, pai. Eu escrevi isso na primeira página do meu primeiro livro, lá em 2003, e é verdade “todo adeus é incompleto”, mas isso só valoriza os momentos.

Era muito bom estar no quintal de casa com você fazendo lanches numa chapa velha, tomando uma cerveja e falando alto, cantando. Que sabor tinham aqueles sanduíches feitos com amor. A gente interrompia o papo só para trocar os discos que estavam rodando na vitrola e para pegar mais frios na geladeira.

Você foi muito para mim, pro Alan e pra mamãe, e só de tentar descrever já dói. Dói pela saudade, mas machuca porque não existem palavras ou expressões para descrever o amor e carinho, o orgulho e o brilho intensos.

Para um escritor como eu machuca não saber dizer a palavra certa ou como te homenagear direito.

Não sei ao certo como te honrar e sempre me sinto criança na vida, mas é um lado que você também tinha e ele fazia eu gostar mais de você. Porque você não perdeu esse jeito e as conversas sobre mistérios do mundo, alienígenas, física, universo, filosofia e psicologia faziam você se empolgar como ainda me fazem. Só que agora sentindo falta de você na mesa batendo papo até tarde da noite antes de tomar sua sopa e ir deitar.

Esse é o primeiro dia dos pais que não estou contigo. Você se foi há quase 6 meses e confesso que tenho lidado bem com isso desde quando eu soube que tinha partido, mas é foda não te abraçar hoje. É foda não ouvir o seu xingo quando resolvíamos te dar presentes, mesmo você dizendo que nunca queria.

Eu sei, pai, você gostava da gente em volta de ti, mesmo sem nenhum assunto ou evento especial, pois quando juntos, tudo sempre foi especial: conversas, almoços ou até brigas.

É, meu pequeno gigante, a vida é estranha. Tenho medo de não conseguir ser metade do você foi, mas obrigado por me deixar tentar e me ensinar como suportar as coisas com brincadeiras, sorriso e um pouco de irritação, essencial para dar cor e vida e mostrar que o sangue ferve porque tem amor correndo nas veias.

Feliz dia dos pais, “pá”, esteja onde estiver, e obrigado!

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