Estou na livraria de novo. Estou com aquela sensação mais uma vez. O ar de que tudo aqui me pertence, de que sei de tudo, mas que também quero saber mais uma vez, ler e absorver tudo de novo.

Obviamente não sei de tudo, obviamente não li nem parte de tudo que aqui há. E olhe que estamos falando apenas de uns poucos exemplares que estão aqui neste momento, sem mencionar aqueles que por aqui já passaram e os que ainda passarão, como aquele sentimento de imensidão que temos ao imaginar todas as pessoas que já pisaram na Terra.

Eu me sinto tão parte daqui que sinto minha alma amalgamada com cada letra. Dos textos clássicos aos eróticos que hora vejo em frente a mim.

Ao mesmo tempo, no entanto, e talvez aqui resida toda a complexidade da minha vida.

Ao mesmo tempo me sinto expulso de meu meio, como Dante exilado de sua cidade amada e distante de seu amor, quiçá platônico, por Beatriz.

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Não sou Dante, não há Beatriz nesse caso. O que há é um profundo desejo de poder fazer parte deste panteão. De me ver exposto às mãos alheias. De me ver despido por olhos que não entenderão talvez a complexidade da minha alma, ou antes, que verão muito além de mim mesmo, tão cego quanto um morcego exposto à luz e sem objetos nos quais seu som emitido possa ecoar.

Sei que de certa forma faço parte desse grupo, que aqui parece tão imenso e nas ruas tão minúsculo, mas não como o desejo que arde em mim pede, faço parte porque escrevo.

Porque de alguma maneira o mundo tende a unir em algum ponto intangível e invisível aqueles que têm nas letras e no acúmulo de suas palavras um breve alento para o cotidiano sufocante que se impõe.

Porque as palavras são como um bálsamo para feridas da existência, do amor, da mente. Elas têm o poder de destilar a ansiedade, filtrar o desespero, acalmar o peito que bate apaixonado e fazer seguir em frente quem já teria desistido há muito se elas não soterrassem, mesmo que por apenas alguns instantes, todo conflito, dúvida e dor.

Uns dizem que as palavras podem ser um prisma através do qual enxergamos o mundo a nosso modo. Para mim, elas são uma cortina que filtra parcamente a imagem e as luzes de uma realidade às vezes insuportável, como um garoto que usa um plástico escuro para olhar o sol momentaneamente. Elas não duram muito, mas o pouco de poeira que levantam em meu coração me permite olhar para a vida rapidamente, um relance de que algo há de bom e belo.

E então a poeira baixa e fico cego, rezando baixo para que o impulso conflitante de “escreva” que embate com o “de que adianta?” venha me salvar e dar um breve sentido para esses pensamentos rápidos e sem forma que vagam a todo o tempo.

Estou na livraria de novo. Com a sensação de que tudo aqui me pertence… E com o sentimento sublime e desesperador de que não sou feito de nada além de palavras!

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