Voltando para 13rw

 13RW_109_01140RE daí voltamos à Hannah Baker e suas fitas, uma tecnologia que já serviu para acelerar, mas que hoje é vista como obsoleta, lenta, vagarosa… Estranhamente, talvez esse tempo de reflexão pudesse tê-la salvado. Clay é o único que capta isso. Os outros só estão preocupados em se proteger para seguir na corrente insana em que pularam e, por não notarem, nem tentam sair…

Clay, ao saber das histórias que levaram Hannah ao suicídio, tenta dar uma de justiceiro, mas o importante não é o que ele faz, mas a repercussão. Ele muda o quadro, bota gente pra pensar, pra refletir, pra analisar o que fizeram com Hannah e com eles mesmos, para ver o que fazem diariamente.

Hannah ter morrido foi uma perda imensa, mas talvez a força de seu ato tenha servido para algo, e aí a morte ganha um significado.

Para além disso, a forma que ela encontra para passar a mensagem permite pensar um pouco mais lentamente e acho que é o que precisamos.

Por favor, utilizem as ferramentas que temos atualmente para ganhar tempo e não para jogá-lo fora… é um pedido para todos, incluindo a mim mesmo!

E aí, afinal?

Então, acho que o lance da série em mostrar tudo aquilo não foi nem ver qual fato foi o mais forte para a garota decidir por sua morte ou se aquilo justificaria ou não o suicídio de Hannah. Às vezes impactos muito fortes nos fortalecem em vez de enfraquecer.

Acredito que tenha sido a junção daquilo tudo o gatilho de algo mais profundo.

Claro que a proposta é discutir um pouco do bullying adolescente e outras questões pesadas. O lance de ficar num grupo do qual se é rejeitado e ficar feliz quando se é minimamente aceito mexe demais com a cabeça, é quase como uma síndrome de Estocolmo, na qual gostamos de nossos carrascos quando “batem menos” ou nos tratam “bem” após terem tido atos imperdoáveis.

Clay e Hannah eram meio que apaixonados, mas bagunçados, e esse lance com ele pode ter sido um dos principais motivos para o suicídio dela, o que o deixa mais triste.

Algo como: “o cara que eu amo (e que a amava também) foi afastado porque eu estou com a cabeça tão ferrada que não consigo gostar de ninguém da maneira certa (como se houvesse). Além disso, ela pensa, para ele, que merecia meu amor, eu travei e o repeli, e para o Bryce, estuprador que eu já tinha visto em ação, fiquei sem reação e “deixei” agir”.

Isso acaba com a cabeça de Hannah. O estupro é algo muito foda (e não é trocadilho aqui, ok? Eu não faria isso com algo tão sério), uma violação tão forte que você chega a imaginar que a culpa pode ter sido sua por mil motivos. É tão invasivo e fora do real que buscamos compreensão em coisas aleatórias e culpamos a nós mesmos.

Quando aliamos isso ao fato de Hannah ver que tinha feito mal ao “bonzinho” para acabar nas mãos do FDP, a coisa desanda.

Eu adoro o universo adolescente porque, apesar da base de uma personalidade ser construída na infância, é nessa fase que ela mais se consolida ou se altera, contestando valores, buscando novos e tentando formar novas verdades, apoiadas ou não nas que já lhe foram passadas.

Essa maneira intensa de sentir como um adolescente é única. Deveríamos aproveitar o ensejo e discutir controle emocional e mais um monte de recursos para prover o jovem com bases para segurar a onda pesada da vida. No entanto, a força com a qual sentimos determinadas coisas não precisa de motivos ou lógica, só estão pulsando dentro de nós e às vezes parece que vão explodir. Temos de ver as mais diversas manifestações como legítimas, torcendo pela vida, é claro!

Afinal, a série é um drama adolescente, mas que mostra as pessoas numa fase em que tudo fervilha e sentimos as coisas verdadeiramente. E me trouxe lembranças deliciosas, bem como pequenas reflexões sobre erros e acertos. E esse é outro ponto.

Quando a Hannah passa por esse turbilhão de coisas de uma só vez, ela se martiriza bastante, mas consegue seguir em frente. No entanto, a partir do momento em que entra numa “inércia sentimental”, ela quer acabar com a própria vida.

Não é que não suportemos a dor, não suportamos a anestesia que a dor constante traz porque, na verdade, não temos medo do que dói apenas, mas de parar de sentir totalmente.

O grupo de experiências de Hannah não a matou, mas o fato de que contribuíram para que ela perdesse a cor dos sentimentos em muitas coisas. Ela se anestesiou e isso foi pior que a pior das dores.

Não é o que justifica o suicídio. Para alguns, nada justifica, mas talvez explique.

De minha parte, quero evitar que aconteça com qualquer um, obviamente, mas é a cabeça da pessoa num momento em que não vê saída e algo dói ou adormece de todo que toma essa decisão e, por isso, eu nunca poderia condenar e apontar dedo, apenas me compadecer.

Meu último pedido para você, leitor e guerreiro/a que chegou até aqui, é um só: eu acredito que a morte possa, sim, ter significado, mas lute por um significado na sua vida, mesmo que seja só seu, pois isso atribui cor e beleza à sua existência e à sua morte, não importando como ou quando ela ocorrer.

Anúncios