DSC_0161Desde que percebi que conseguia ler e escrever – e foi difícil, pois cheguei a acreditar que aqueles símbolos nunca fariam sentido para mim – (e há pessoas que, pela minha letra manuscrita, até hoje acreditam que eu nunca aprendi a escrever realmente), gosto do ato e o pratico.

Nada técnico. Na verdade, é mais instintivo. Claro que, pela minha formação escolar e acadêmica, tive de aprender o nome de algumas regras, por assim dizer. Entretanto, sei que erro bastante, mas pelo simples fato de que faço bastante. Lei da vida.

Por que faço? Bem, é simples, porque foi assim que comecei, deu vontade e a inspiração bateu!

Sou jornalista, mas meus amigos mais antigos me consideram uma espécie de mini-historiador. Sou uma das "memórias" dos grupos dos quais participo. Vi e ouvi muito e guardei muita coisa. Apesar de parecer prepotência dizer isso, não é. Até mesmo porque não consigo ser prepotente, minha autoestima destruída não deixa, e olha que várias pessoas já me disseram que eu até poderia ou deveria ser “metido”… Não posso, não quero, é contra quem sou!

Pois bem, até que sou bom em ser esse “arquivo” e faço a reconstrução dessa micro-história, às vezes, em meus textos. É claro que trato de coisas sob meu ponto de vista, mas percebo, cada vez mais, que falo de outras pessoas, pois sou delas constituído e, se alguém tiver de contar a meu respeito, não serei eu!

Cumprindo meu papel de "historiador de bairro", deixo aqui um obrigado a uma professora minha. É claro que existem muitas pessoas que quero homenagear em minha vida, mas inspiração para essas coisas não tem hora marcada e fui assaltado pela lembrança dessa pessoa maravilhosa e senti o ímpeto de falar dela.

A professora de Português

Eu a conheci na oitava série, lá no Jacomo Stavale (escola cuja grafia do nome aparece de tantas distintas formas que excluí os acentos propositadamente), colégio estadual da Freguesia do Ó.

Ela, a professora, não a escola, era diferente, jovem, dinâmica, rígida, porém sem chatice. Era bonita, e dizem que isso facilita o aprendizado por atrair a atenção. Deve ser verdade.

Nesse tempo, eu já gostava muito de escrever e até conseguia surpreender a mim mesmo em alguns textos escolares. Fora desse ambiente, arriscava apenas versos de rimas pobres. Mas sempre fui um bom leitor.

Leila, apesar de ser seu primeiro ano conosco, havia sido também designada como coordenadora de nossa sala e isso dava mais força para que ela tivesse pulso firme, disfarçando o medo de falhar pela confiança no olhar. Em pouco tempo, tornou-se nosso "general", mas não seguido por medo e sim por admiração.

Ela, embarcando no espírito adolescente que nos movia, também contestava ordens superiores quando as percebia sem sentido e até nos incentivava a fazer o mesmo, até quando era contra ela mesma. Mas era boa argumentadora, difícil de derrubar algo que dizia. Inspirei-me. Algumas pessoas dizem que têm preguiça de discutir comigo porque é meio longo o processo rs.

Acabei admirando cada vez mais aquela professora e sei que também a conquistei. Nossa sala toda, na verdade. Éramos legais na maior parte do tempo e a Leila fazia questão de ressaltar que tudo ali era uma troca e não uma pedagogia de “mão única”. Era preciso respeito e responsabilidade, mas estávamos ensinando uns aos outros o tempo todo. Passou a afobação dos primeiros dias e tudo ficou incrível.

Dois fatos, no entanto, ficaram marcados em mim e tenho certeza de que foram determinantes para que a Leila me visse como um amigo (justiça seja feita que ela sempre teve respeito pela individualidade de todos).

Como as aulas de Português tinham maioria na grade, certo dia ela pediu para que pesquisássemos textos sobre determinado assunto e trouxéssemos no dia seguinte. Era início de 2001 e a internet não era rápida e nem tãaaaao difundida como é hoje. Logo, tínhamos de nos utilizar de outros recursos, tais como livros em casa, biblioteca e etc.

Lembrei-me de alguma vez ter passado o olho em uma poesia de Machado de Assis a respeito do tema proposto e procurei o velho livro nas caixas lá de casa (até hoje ele está lá, acabadinho e cansado, em minha estante) e a copiei para levar no dia seguinte.

Não apenas eu, grande parte sala fez uma bela pesquisa e trouxe ótimos textos. Naquele dia, impressionamos a Leila. E tive certeza disso quando, tempos depois, durante uma bronca (nós merecemos), nossa coordenadora de sala disse “uma sala que consegue fazer tantas coisas maravilhosas, como vocês fazem, não pode se deixar levar por essa infantilidade. Poxa, vocês pesquisaram Machado de Assis de um dia para o outro e entendiam o texto, não se rebaixem!”.

A bronca foi válida em dois sentidos: botamos a mão na consciência e eu fiquei feliz com a citação indireta que recebi, sabendo, naquele momento, que “vacilar” era não apenas estragar o dali pra frente, mas um pouco do “dali para trás” também.

O segundo momento – livro de um dia

O segundo momento em que ela me olhou de maneira especial, e gostei, foi quando ofereceu a nós uma lista (reduzida, porque a biblioteca de nossa escola era bem pequena) de livros que poderíamos ler para uma suposta prova dali a algumas semanas.

No mesmo dia acabei selecionando um título e “aluguei”. Era o Sangue Fresco, de João Carlos Marinho. Com o perdão da expressão, na época achei o livro bem “merda”. O Marinho que me desculpe, não me lembro de outras obras dele e nem reli a citada, mas a história, apesar de ter seu sentido de paródia, era bem ruim. Basicamente é sobre uma turma jovem (jovens demais para as aventuras em que foram colocados) que é sequestrada e depois passa por umas aventuras na floresta.

Cheguei no dia seguinte para a Leila e disse: “prof, posso pegar outro livro? Selecionei este aqui da lista e achei muito ruim, não posso pegar um que tenho lá em casa?”.

Ela me olhou desconfiada e pediu para dar uma olhada no livro. Abriu, leu algumas linhas e me disse: “por que você não lê e depois vê? Talvez ele não seja tão ruim assim!”.

– Mas eu já li!

– Como assim? Eu passei a lista ontem, você já tinha lido?

– Não, peguei na biblioteca e li ontem à tarde.

Apesar de não ser um livro longo, ela se impressionou. E mais ainda quando falei do livro que eu queria ler: Noite, de Erico Verissimo. Entre me pedir para contar um pouco da história e explicar os motivos pelos quais Sangue Fresco era ruim (o que incluiu exemplificação com trechos e passagens que eu lembrava ter odiado), ela permitiu que eu fizesse a troca.

Eu ainda não conhecia Verissimo nem pelo nome – nem o pai e nem o filho –, mas aquele livro me impressionou demais! Tanto que até hoje, mesmo não sendo um dos mais cotados do Erico, é um dos meus favoritos.

O que fez com que claramente conquistasse a confiança da Leila foi o fato de eu, normalmente, não efetuar críticas sem tentar conhecer um pouco a mais sobre o objeto em análise. É claro que brinco muito e falo muitas coisas sem pensar, mas ela se identificou com esse meu lado analítico.

Isso porque ela também é emocional/lógica. O que quero dizer com isso é que o coração dela a impulsiona em um sentido, mas ela não critica, culpa ou julga antes de ter conhecido mais a fundo e, se o faz, deixa claro que aquela visão é “de acordo com o que sei até o momento”.

Leila tinha aquele ar adolescente de contestação, como eu disse, e isso também nos cativou. Foi uma das professoras que mais brigou pelos alunos lá na escola, fazendo das tripas coração para nos levar a eventos artísticos como cinema e peças de teatro variadas. Valeu muito a pena!

Hoje, repensando, tenho saudade e a vontade de ter visto mais coisas, mas as horas de bate-papo com ela e outros amigos e amigas – que ficavam depois das aulas pelo simples fato do prazer em conversar e refletir (e fazíamos com que ela se atrasasse um pouco para seus outros compromissos rsrs) – foi um dos elementos que até hoje me fazem amar as pessoas e querer escutá-las, por mais que eu comece um diálogo discordando delas totalmente.

Leila era assim, apesar de seu coração a mover em uma direção, havia empatia o suficiente para olhar às pessoas a partir do local em que elas estavam e não sob um prisma imaginário que temos das outras pessoas. Isso muda tudo. Mudou para mim e para diversos de meus amigos e colegas que ainda a amam como amiga e educadora.

Certa vez, nos idos do falecido Orkut, escrevi espontaneamente um “depoimento” sobre essa minha querida professora. Por algum motivo tecnológico ou de mau uso da ferramenta, o texto foi apagado.

Ela uma vez me disse que sentia falta de ler aquele material, mas eu não o tinha mais comigo. Não vou conseguir reconstituir aquele texto nunca. Na verdade, não lembro os pormenores do que escrevi, mas, como sigo o padrão de falar o que meu coração manda e minhas lembranças corroboram, ele deve estar em linha com este longo relato do micro-historiador.

O início

Mais ainda deve ser dito sobre Leila, sobre o ano seguinte, quando eu estava no primeiro ano do Ensino Médio, o famoso colegial.

Um dia, uma garota linda por quem eu tinha uma queda (dessas tranquilas, do décimo andar) me perguntou se eu só escrevia para redações da escola ou também outras histórias. Fiquei com isso na cabeça.

Verdade seja dita que, entre o final da oitava e o início do primeiro colegial, eu tentei iniciar um livro. A história era ao estilo medieval e escrevi pouco, coisa de umas 15 páginas (o que parecia bastante para mim, na época). Eu tinha um computador bem velhinho que havia sido doado por meu tio. Para se ter ideia da capacidade, era um 233 com incríveis 3GB de HD. Não citarei a RAM para não assustar os técnicos.

Essas informações parecem inúteis, mas são algo importante ao saber que perdi todo o trabalho desse livro por conta desse PC. E o pior é que meu disquete com a cópia (sim, senhoras e senhores, sou da época histórica da civilização em que usávamos disquete “sabe todas as histórias e lendas? Elas são reais!”) também se danificou.

Eu fiquei muito puto e bravo por ter perdido o trabalho, mas um amigo que tinha lido o início do texto o achou muito parecido com O Senhor dos Anéis (apesar de eu ainda não ter lido ou assistido nada a respeito até o momento). Foi bom afinal. Tolkien é muito melhor que eu nesse estilo fantástico. Fico com os romances/dramas/comédias/contos/crônicas para me satisfazer.

(PAUSA ALEATÓRIA – eu já me ferrei tanto perdendo materiais que cheguei a imaginar um livro sobre o tema no qual o personagem principal, um escritor, perde tantas vezes o material que vai se irritando e ficando louco. A ideia do texto, que ainda pretendo escrever, é mostrar como a história nunca fica igual e se altera a cada versão feita – para justificar aquela sensação que temos que “estava tãaaaaao bom antes, pena que vocês, agora, só podem ver essa cópia barata do que o texto deveria ser”. Ela, a história do escritor puto, teria uns quatro finais diferentes para brincar com a ideia e fazer aquela referência egoica que eu adoro! rs).

(PAUSA ALEATÓRIA 2 – Por favor, não roubem minha ideia, deixem que eu me dê mal com ela primeiro).

Pois bem, a menina perguntou e eu respondi finalizando um poema gigante que estava fazendo (o qual ela nunca leu ou lerá rs) e depois decidi escrever dois contos relativos a sonhos que eu havia tido. Até hoje essas são duas histórias que eu adoro, mas a primeira é aquela pela qual tenho mais carinho, chamada “Os cinco sorriem”.

Ela é maravilhosa e provavelmente um dia será lançada no meu livro de contos e crônicas (se chamará “Estações” a antologia, bem viado mesmo, porque é assim que eu escrevo, com drama, imagens e frescuras).

Fato é que, quando você é novo e escreve, você não sabe muito bem o que fazer com o texto. Fiz o que estava ao meu alcance: imprimi (porque, para mim, essa era a garantia de que eu não o perderia nos disquetes e HDs bichados) e deixei que algumas pessoas de minha confiança dessem uma lida.

A manicure

E vocês, roendo as unhas, me olham e dizem: caceta, Renan, e o que a Leila tem a ver com tudo isso aí?

Pois bem, para mim foi um grande passo entregar dois desses textos impressos para ela. Hoje, nós nos vemos como amigos (e já o éramos na época), mas ainda havia aquela questão hierárquica e de conhecimento superior dela. Tipo quando você faz um desenho de boneco palito e vai mostrar para o Salvador Dali.

Arrisquei e falei para ela dar uma olhada e me dizer o que achava. Ela os recebeu com certa curiosidade e pareceu agradecida pela confiança. Eu tentei parecer displicente quando entreguei o material, como se não me importasse muito com meu próprio trabalho, eu me importava (e me importo ainda, então, se quiserem me dar retorno eu fico muuuuito feliz, ok? Obrigado, de nada).

Depois de alguns dias, ela veio me pedir desculpas pela demora em me dar um retorno e eu disse que tudo bem, é óbvio que eu estava ansioso. Bem, eu poderia esperar, não sabia o que fazer com aqueles textos de qualquer forma. Ela disse que havia gostado, que precisavam de revisão, mas que havia gostado. E me perguntou por qual motivo eu os havia escrito… Não lembro o que respondi, mas lembro de ressaltar que tinha sido espontaneamente, sem nenhum pedido específico.

Isso era verdade em partes, eu queria impressionar uma garota (é sempre por uma garota…), mas eu nunca deixei que ela lesse o texto, apesar de nada de mais haver ali em relação a ela. Acho que é aquela equação que fazemos do “se ela não ler, não tem como odiar e, portanto, estou preservado do desgosto dela!”. “É”, alguém replicaria, “mas ela também não terá a oportunidade de conhecer e gostar”.

Faz sentido, e é por isso que passei a mostrar tudo o que escrevo, as pessoas gostando ou não. (Pois eu não fiquei com aquela garota mesmo e prefiro não repetir o erro. Claro que hoje recebo mais críticas, mas, ao longo do tempo, elevei muito minha relação com mulheres – convenhamos que não era difícil subir da base zero daquele início de ano).

O que a manicure tem a ver com isso, afinal?

Fiquei realmente puto e feliz quando minha impressora deu pau! Bravo porque, obviamente, agora meus textos estavam presos dentro do mundo virtual e eu não tinha mais cópias físicas deles. Feliz porque, com medo de nunca mais recuperar meus escritos, semanas depois, fui pedir à Leila que, se pudesse, me devolvesse os materiais.

Qual não foi minha surpresa quando ela me disse que poderia me trazer, mas apenas na outra semana, pois tinha ido à manicure e esquecera os materiais ali. Achei que ela tivesse levado os textos até lá para ler enquanto fazia o tratamento das unhas, mas a verdade me impressionou, ela havia levado até lá para dizer “olhem o que meu aluno de 14 anos escreveu!”.

Eu fiquei tímido, mas isso foi um choque e tanto do tipo: se ela gostou a ponto de levar para outras pessoas lerem, isso quer dizer que não são ruins.

Segui nessa jornada e hoje já são quatro livros de ficção escritos, um de não-ficção quase pronto e mais alguns outros trabalhos. Fora meus contos, crônicas e reflexões que você encontra aqui no Mas…

Bem, contar tudo isso não tem outra razão a não ser ressaltar o imenso respeito e carinho que tenho por essa professora e educadora. Que, além de nos ensinar, ainda é amiga e desde muito breve compartilhou bons momentos conosco. Fosse conversando, questionando ou, depois, comparecendo a nossos encontros em pizzarias e etc.

Obrigado Leila!

E por que escrever isso agora? Porque eu sou um mini-historiador, acredito que essas pequenas lembranças componham uma cena muito maior das pessoas que conheço, do bairro em que vivi e vivo, da cidade à qual pertenço, do contexto do qual participo e divido com todos. Escrevo, acho, para compor um sentido de narrativa da existência, minha e de todos ao meu redor.

Em última análise, escrevo por um único motivo simples: porque, assim como quando comecei, deu vontade e a inspiração bateu!

 

A foto foi tirada há mais de 10 anos pelo Adam Tavares que, depois de ver como era ruim nisso, fez questão de virar um fotógrafo foda só para provar que conseguia! Hoje ele é um fotógrafo de respeito, com ótimo portofólio e que sabe escolher padrinhos como poucos Smiley piscando

Anúncios