Quando o sentido de existência de uma época falha, a cultura e seus símbolos vêm nos socorrer. Isso, em partes, explica a explosão de super-heróis de tempos em tempos, como agora, com filmes, séries, desenhos e etc.
Ainda bem.

Resgatamos um sentido de valor na vida por meio deles e seus conflitos, resgatamos o propósito maior e a disposição dos sacrifícios pelos grandes feitos, mesmo que o beneficiário direto da ação não seja o próprio herói.

Já é de conhecimento geral que o aranha é o meu favorito e muita gente me pergunta o porquê. Tento explicar aqui o que é apenas sentimento e provavelmente vou falhar, mas falar do amigão da vizinhança é sempre um prazer.

(Este texto é baseado numa conversa com uma pessoa incrível numa noite insone e fervilhante de ideias)

Não sei se estão familiarizados com a história do homem-aranha, mas, em resumo, ele perdeu os pais e foi criado pelos tios. Era nerd, boa gente, mas retraído. Daí ganhou os poderes e arriscou uns shows, não deteve um ladrão quando pôde e depois o mesmo cara assassinou o tio dele. Ficou só ele e a tia May e daí ele passou a ser o cara legal. (Lembrem-se, isso é resumo!).

O lance é que ele é pobre, tipo, ferrado, sério, tanto que podia morar no Brasil! Mas ele é criativo e engraçado pra caramba. Conversa e tira sarro enquanto briga, salva pessoas porque tem um senso de responsabilidade absurdo (o que o leva a várias crises de relacionamento, românticos e com amigos), e tudo aponta pra ele largar mão e ser um desgraçado.

Basicamente, ele ferra a vida pessoal dele pela de herói, pra ajudar a galera, mas não perde o bom humor quando está de máscara, quando pode se soltar deliberadamente. Além disso, sempre que o pressionam em relacionamentos como Peter Parker, ele não se dá bem.

Entretanto, se as pessoas não cobram muito dele, ele se torna o cara mais incrível que há! (Isso é uma dica para a humanidade, sério!)

Ou seja, ele é um amigo fiel e sincero, sempre se ferra, mas segue em frente porque a vida é dura e ele tem sempre mais pessoas por quem lutar.

Perdeu os pais, o tio, a primeira namorada (que também morre numa treta com um vilão – sim, é a Gwen Stacy), mas ainda faz piadas de várias coisas e chega exausto no fim do dia sem receber um puto a não ser críticas por atrasos e etc. Mas olha que lance legal, mesmo ele sabendo que “falhou” com as pessoas em determinados programas em que dá o bolo, a consciência dele está tranquila porque ele estava fazendo algo mais importante, dando o melhor de si.

É tipo uma traição, só que ao contrário, como mentir para preparar uma festa surpresa pra alguém, só que, nesse caso, ele não pode gritar “surpresa, eu sou o aranha!”

Ele é o melhor que consegue o tempo todo e vive coisas intensamente, como o lobo do texto do ano novo. Pode não dar certo sempre, mas ele está literalmente dando o sangue para que as coisas corram o melhor possível.

Esse é só um exemplo de sacrifício quando ele modifica a realidade, mesmo que nem sempre seja ele o beneficiado.

Como eu disse logo de início (meu lado jornalístico começando pelo final), acho que é disso que precisamos em tempos que parecem impossíveis de se seguir em frente: Quando o sentido de existência de uma época falha, a cultura e seus símbolos vêm nos socorrer.

O Aranha sempre me salva!

Imagem de: In-Hyuk Lee

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