Só temos o agora

ma%cc%83os-entrelac%cc%a7adasPerto da hora de buscá-la, ele mandou uma mensagem perguntando se estava tudo bem e confessou que estava um pouco nervoso. Ela disse que estava tudo ótimo e disse que estava tranquila, ele estremeceu ainda mais.

Ela estava linda quando ele chegou em frente ao prédio onde a buscaria. Ela entrou no carro:

– Boa noite, tudo bem, Bia?

– Na verdade, eu estou um pouco nervosa – replicou ela e ele entendeu que o “tranquila” de antes talvez tivesse sido só uma provocação.

– Eu gostaria de fazer uma coisa antes de sairmos.

– O quê, Nando? – questionou receosa.

– Quebrar o gelo!

E no mesmo momento ele se inclinou para ela, colocou sua mão em sua nuca, deslizando seus dedos pelos cabelos de Bia e aproximando suas faces. Ela travou a respiração por um segundo, mas não recuou. Ele colou seus lábios ao dela e a beijou com intensidade e prazer. Sua outra mão agarrou sua cintura e puxou os corpos para mais perto. Não foi o beijo mais longo do mundo, mas fez com que perdessem a noção do tempo por vários segundos.

Ao se descolarem, Nando ainda absorvendo o sabor daqueles lábios deliciosos que estiveram junto aos seus, passando a língua levemente em seus próprios para não perder nada do momento. Bia abriu os olhos, levantou as sobrancelhas e piscou respirando mais profundamente e só disse “uau”!

– Onde vamos, afinal? Este é o seu bairro, me guie – disse ele, emendando uma transição de momento.

– Podemos ir a um motel que conheço, mas poderíamos tomar algo antes.

– Vamos rumo a uma cerveja, então! – e ela sugeriu um local ao qual logo chegaram, não sem antes darem mais um ou dois beijos enquanto estavam nos semáforos.

Nando se mostrava muito à vontade, empolgado, mas não nervoso e isso impressionou Bianca. Eles conversaram sobre vários assuntos no bar, riram demais e ela se descontraiu mais do que esperava que conseguiria numa situação como aquela. Bianca estava envolvida naquele momento apenas, vivia o presente como poucas vezes havia conseguido, como se os segundos vividos agora, a cada instante, fossem os únicos que realmente possuímos. Em sua mente, Nando ficou assim definido: o homem que vive o agora.

– Como você consegue estar aqui? – perguntou ela.

– Como assim? – se espantou ele.

– Você está aqui! Você conversa, reflete, sorri, me toca… você está inteiramente aqui, achei que sua cabeça estaria em outro lugar, querendo partir para o próximo passo apenas, não sei… – as reflexões dela não estavam muito claras nem mesmo para si.

– Onde mais eu estaria? Eu só tenho o agora. Não quero viver uma vida inconsequente como se fosse morrer no próximo segundo, mas eu só tenho esse momento para mudar o rumo dos próximos. Lembre-se disso…

– Vocês aceitam mais uma rodada? – perguntou um garçom que passava por eles

– Ela é quem manda, daqui a pouco vamos sair – devolveu Fernando simpático.

– Mais uma apenas – e, virando-se para ele, completou – ainda dá tempo de desistir?

Ele riu e a beijou intensamente, deslizando a mão pela lateral do seu corpo até chegar às suas coxas, puxando-a para si. Aquela cerveja refrescante num início de noite abafada era mais deliciosa do que parecia.

– Você quer desistir? – questionou sorrindo.

Ela o olhou de maneira tão intensa que nem respondeu. Ele pagou a conta e foram embora, apertando os corpos entre si enquanto caminhavam, como que antecipando a ação, querendo fundir as carnes.

Bianca entrou no carro e ele, ainda de pé daquele lado da porta, se abaixou para beijá-la mais uma vez. Foi naquele instante que todas as dúvidas dela sumiram: ela o queria! E não pensou mais em seu noivo durante toda a noite.

Já no quarto, despiram-se e ele olhava com prazer e admiração aquele corpo cheiroso, de pele macia, os olhos brilhantes, ela um pouco tímida, com a lingerie toda preta e ele riu da cena.

Ela achou curioso o riso e questionou a respeito. Ele respondeu:

– Você sabe o que dizem, “se a calcinha de uma mulher está combinando com o sutiã, você não a conquistou, você foi escolhido!”.

Bianca riu da observação, mas viu a verdade da brincadeira, ela o queria mais e mais.

Beijaram-se por todos os locais, agarraram-se, apertaram um corpo contra o outro, admiraram os suspiros, os gemidos, os toques, dedos, línguas, pele, coxas, bocas, pescoços. Deram prazer, tiveram prazer, tinham cada vez mais prazer no prazer do outro. Amaram-se deitados, em pé, em todas as posições que encontraram e repetiram todas novamente.

Os tremores dos corpos pulsavam como uma mensagem que dizia quererem mais e mais.

O rádio ligado tocava diversas baladas, mas as batidas fortes dos corações e as respirações ofegantes sobrepunham-se a qualquer canção. Encaravam-se às vezes e quase não conseguiam sustentar os olhares por muito tempo, um fogo parecia queimar cada um deles quando sob o olhar do outro, quase como se o gozo fosse intenso demais para ser suportado. Uma pequena morte e renascimento a cada momento.

Caíram na cama exaustos e ela ainda admirava os tremores que percorriam o seu próprio corpo, pensando também nos do dele.

– Você sempre é tão intenso assim?

Ele sorriu e perguntou se ela desejava água. Ela disse que sim, mas não conseguiram encontrar a pequena geladeira que supostamente estaria no quarto. As paredes na cor vinho davam um tom de abafado ao quarto, o que combinava com o que sentiam.

Ele lembrou que havia água no carro e buscou para ela. Não havia muita, mas foi o suficiente. Pouco a pouco a canseira de um dia de trabalho, do esforço físico e da ansiedade baixou sobre ela. Após aquele momento intenso de amor, ela adormeceu.

Ele, depois de cobrir seu corpo nu com um lençol, deitou-se a seu lado e a acariciou levemente os cabelos e o rosto. Pouco tempo depois, quando ela despertou, ele ainda estava olhando-a e sorrindo. Ela fechou os olhos por mais alguns segundos, um pouco tímida de se perceber observada, mas com o coração reconfortado por um carinho tão acalentador e aquecido.

Fizeram amor mais duas vezes naquela mesma madrugada e, pouco antes de partirem e voltarem para a realidade, ele acompanhou uma música que rolava no rádio e cantou para ela.

Ela não desgrudou os olhos dele nem um segundo sequer. Havia na cena uma magia única. Ele, obviamente, não era um cantor, mas a voz carregava carinho, encanto e vontade de agradar com uma poesia que parecia vir dele. A música já não estava mais no rádio, mas soava direto dele para ela, uma comunicação direta: conectados por aquele momento como talvez nunca estiveram antes e talvez nunca mais estariam, entre si ou com outras pessoas…

Ao deixá-la em seu apartamento, quase no amanhecer, Fernando deu um forte abraço naquela mulher que se tornava uma menina em seus braços. Ela absorveu todo aquele calor, disse ter sido incrível e entrou.

Quando se viu sozinha, não foi o arrependimento pelo noivo que lhe passou pela cabeça, mas apenas uma pergunta louca: quem era Fernando e, mais ainda, quem ela, Bianca, era? Não se reconheceu na intensidade de seu prazer, sensações e vontades. Não sabia que poderia ser tão destemida, sentir tantas coisas maravilhosas e se permitir conhecer outra pessoa tão rapidamente dessa forma.

Com a lembrança do olhar de Nando ainda na memória, Bia só saiu daquela espécie de transe quando ouviu seu pai sair do quarto para tomar o café.

Ao deitar-se em sua cama, poucas horas antes de ter de se levantar, seus lábios esboçaram um sorriso, como que encontrando um sentido não revelado, não posto em palavras naquilo tudo. Nando talvez tivesse completado nela algo que ela sempre buscou em si… “Não”, pensou, “eu sempre soube e senti tudo isso, mas ele foi um gatilho para que eu soubesse onde isso estava em mim, como um espelho que nos ajuda mostrando um reflexo de nós que já existe. Eu sou dona da minha própria vida e história e, por mais assustador e difícil que possa parecer pela responsabilidade, é delicioso”. Adormeceu agradecida por aquela quarta-feira qualquer que existiu em sua vida.

Voltando para seu apartamento vazio onde morava sozinho, Fernando sorria pela noite maravilhosa e se encantava pelo jeito de Bianca e em poder ter visto o quanto ela era incrível quando permitia a si ser ela mesma…

 

Imagem daqui

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