As coisas mudamO meio do ano é um período interessante demais para mim. Não sou uma pessoa mística (mentira, sou sim!), mas do final de junho até o final de julho muita coisa acontece, como se o meio do ano marcasse um momento de transição e de balanço para refletir.

Recentemente meus pais comemoraram mais um aniversário. Na verdade, “um” aniversário é errado, eles comemoraram três aniversários, no mínimo. Eles nasceram em anos diferentes, porém no mesmo dia e, não bastasse essa coincidência, aproveitaram e marcaram o casamento para a mesma data.

Meus pais estão na casa dos 60 (desculpa, mãe!), um deles entrando e o outro quase saindo dali. E celebraram 35 anos de casados, sem incluir os dias de namoro. Usei a palavra “dias”, mas queria dizer anos: nove, para ser mais exato. Ou seja, estão juntos por volta de 44 anos.

Eu não sei se vou viver por esse período, mas eles conseguiram, e eu queria dar os parabéns a eles aqui (parabéns, meus velhos amados!). Provavelmente nem lerão este texto, seja porque não são muito afeitos à tecnologia ou porque eu não vou dizer que o escrevi (olha o recalque), mas devo registrar esta data.

Não rolou festa (a crise não deixa rs), mas rolou bolo, abraço e uns “eu te amo” aqui e ali. Eles não estão muito na fase do romantismo ultimamente, mas são persistentes e resilientes (porra, são 44 anos), ou insistentes e me ensinaram muito com isso.

Provaram-me que o amor existe e que a pessoa certa também, mas tiraram todo o idealismo da coisa. Não me decepcionaram, mas avisaram (mesmo sem dizer uma palavra diretamente) que o amor passa por fases, que a paixão, o ardor e o tesão vêm e vão e que (bomba polêmica!) não há nada de errado nisso.

Eles já acordaram muitas vezes desapaixonados, de saco cheio, presos a uma rotina cansativa (quem está livre disso a qualquer momento?), mas não se largaram, batalharam pra ficar juntos. Lutaram e lutam dia a dia para se entenderem, para fazer dar certo, pra criar os filhos, para poderem ter quem xingar todos os dias entre si, com os filhos por perto, para poder xingá-los também (quase a base da dieta familiar rs).

Sim, somos barulhentos, falastrões, comilões, engraçados e apaixonados por pessoas, mesmo as chatas, a quem queremos por perto nem que seja para reclamar delas!

Eles me ensinaram a ser normal (conceito beeeeeeem discutível), portanto, pois sabendo lidar com os diferentes humores do parceiro (ou confrontá-los às vezes), também lidamos com os nossos. Vemos erros alheios e os nossos próprios também, e sabemos que não há perfeição. Só existe perfeição na imperfeição de se saber imperfeito e lidar com isso.

Foi assim que meus pais me ensinaram a ser responsável, um pouco por mim e um pouco pelos outros; ensinaram a amar, a mim mesmo e aos outros, e todo mundo com defeito; me mostraram que não é legal pisar na bola e magoar alguém, mas que pode acontecer e, em geral, ninguém morre por isso, pois o outro dia vem para resolver a questão e, se não vier, tome um belo porre enquanto espera mais um pouco.

Acima de tudo, me ensinaram a acreditar em um monte de coisas, Deus, meus sonhos, amor, romantismo, realismo, jogo do bicho, horóscopo, paixão. E me mostraram que um monte de coisas pode ser bobagem: Deus, meus sonhos, romantismo, horóscopo, paixão, realismo, etc. (mas acreditam no jogo do bicho hehehe).

O que quiseram me botar na cuca é que sou eu quem faz a minha vida, afinal. Que o que acredito, sinto e vejo moldam minha realidade, mas meu atuar e percepções subjetivas refletem sobre tudo também (eles nunca usariam essa frase e me chamariam de metido idiota se eu a dissesse).

Enfim, me ensinaram que pais podem errar, e que também podem levantar depois de cair. Ensinaram-me a ser responsável e relaxar de vez em quando, porque algumas loucuras da vida são deliciosas demais para serem descartadas por um senso de carregar o mundo nas costas. Me ensinaram a assumir cagadas, mesmo sabendo que eu iria apanhar por aquilo (“melhor falar, você vai apanhar de qualquer jeito mesmo!”).

O mais importante é que me mostraram como sorrir, amar as pessoas e como a não me levar muito a sério, mesmo que outras pessoas me levem. Para os meus pais, não importa se eu sou o presidente do mundo ou um mendigo: eu vou sempre saber menos que eles, ter de ficar quieto quando resolverem falar algo e eles não se impressionam com nada, mesmo se seu criar asas e voar. Minha mãe vai olhar e falar “legal, filho! Mas você me traz a toalha molhada quando sair do banho?”. Meu pai vai dizer “mas você nem voa tão rápido, tem um documentário sobre um avião que é bem melhor, fora que fica espalhando essas drogas dessas penas pela casa toda!”.

Eles mostram como a vida tem encanto e desencanto na mesma frase, sem vírgulas ou pontos, pois está tudo conectado! Eles me deram a vida, fizeram e estão fazendo o que dá nesse mundo, porque, no final, ninguém tem o manual dessa briga toda.

Enfim, se eu for ficar no solo ou alçar voo com asas um dia, tenho a certeza de que eles só vão dizer: “mas você vai jantar em casa na volta?”. E quando eu estivesse lá no alto, quase desaparecendo no horizonte, eu escutaria. “Pegou a blusa, filho?”.

 

Imagens do arquivo pessoal!

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