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Problemas com a linguagem, corpo e sexualidade foram citados anteriormente, mas sem classificar essas questões como parte de uma estrutura psicótica. De que outro ponto podemos vê-las então?

Vamos complicar as coisas?

Que tal deixar chato para alguns e mais específico para outros, vamos no caminho do meio. Com algumas palavras do jargão psicanalítico, porém simplificadas.

As pulsões das quais falamos são tensões no organismo que precisam ser descarregadas. Freud tratava da força sexual, o que não significa o sexo propriamente dito.

Colocando no formato Renan de ver as coisas, pensemos no ato sexual. Basicamente você tem uma vontade de alguém. Um fogo. O que ele faz com você? Te move a levantar a bunda da cadeira e ir atrás da pessoa que deseja. Você quer satisfazer o fogo que começou dentro de ti, mas é praticamente impossível alcançar o prazer sem movimento, sem sair do lugar e ir até quem você quer.

O fogo em ti pode ter sido disparado por vários motivos: palavras, visões, cheiros, tato, pensamentos. O gatilho pode ser interno ou externo, mas a fonte da tensão é interna. Basicamente, “Culpe quem quiser, mas o gerador 220v está em você”.

A meta é sempre satisfazer a pulsão.

Para isso, usamos o chamado objeto (homem, mulher, melancia, playboy de 1998, Catálogo da avon, enfim). E, por favor, objeto é só um termo. Não estou dizendo que homens e mulheres são objetos, apesar de sermos. O jogo da vida é sempre variar entre objeto e sujeito.

Temos a fonte, a intensidade da tensão, o objeto pelo qual nos satisfazemos e a meta, a própria satisfação. Aqui vale ressaltar que a satisfação nunca é completa, sempre parcial, pois a pulsão é constante e não como uma bala disparada. Conseguimos, então, por meio do objeto, uma satisfação parcial, diminuição da pressão.

Ta, Renan, e para que tudo isso? Você diz que impulso sexual não é sexo em si, mas usou sexo como exemplo, e o que isso tem a ver com o problema do desrespeito adolescente até por eles mesmos?

Primeiro, a pulsão não é um instinto tipo fome ou sede, apesar de às vezes se relacionar com eles. Instinto tem uma mínima função fisiológica. Pulsão é a matéria prima do que nossa psique simboliza como desejo para que possamos entender. Ou seja, você pega sua ansiedade e compra um celular, toma um sorvete ou vai atrás da garota bonita, e apesar de algumas pessoas colocarem dessa forma, essas não são coisas essenciais para sua sobrevivência. São descargas dessa energia sexual simbolizadas de diversas maneiras. Mas sempre com fonte, intensidade, objeto e meta. Ou seja, o exemplo do sexo também pode ser substituído por escrever um poema ou comprar um carro novo. O impulso te põe em movimento para alcançar uma satisfação.

Daí, sobre os adolescentes fica mais fácil. Eles têm muita tensão em seus aparelhos.

Vale lembrar também que a pulsão pode chegar a 4 destinos mais comuns. 1. O retorno sobre si mesmo (você adora a beleza alheia, mas também passa horas se deleitando consigo mesmo; sádicos que também são masoquistas, enfim. Você se faz objeto de sua pulsão). 2. A transformação no oposto (essa é comum, você quer tanto algo e por algum motivo não alcança da forma esperada, daí quer o oposto. Passa a odiar alguém por quem estava apaixonado. Queria muito sair para dançar e acaba em casa de pijamas. Queria correr e caba comendo um sundae). 3. O recalque (muito falado e nem sempre compreendido. Tensão acumulada por repressão, castração, etc. E que sempre retorna, mas isso é outra coisa). 4. E a sublimação, nosso ponto de interesse.

A sublimação seria transformar essa energia sexual que nos move em algo diferente, alcançar a satisfação por meio de um objeto outro que não o inicial. Normalmente relacionamos com arte, mas eu penso em trabalho em geral que causa prazer (não a ideia de se enfiar num escritório 10h por dia, apesar disso exigir muita sublimação).

Você queria pegar a Camila Pitanga (homenagem velada a um mestre) e acaba preparando uma aula incrível.

Está louco para comer/beber leite condensado o dia todo e vai limpar a casa.

Está com muito tesão e passa anos pintando a capela Sistina.

Quer viajar para o Caribe e faz uma série de posts sobre um sintoma da cultura no seu blog…

A coisa é, como usamos uma energia X para fazer um Y muito mais legal e produtivo e depois nos deliciamos com aquilo.

A satisfação nunca é completa, mas ela varia entre intensidade e qualidade. Quando uma sobe, a outra tende a descer. Por exemplo, é muito mais fácil você sentir prazer comendo 10 brigadeiros do que lendo poesia. Os brigadeiros são intensos, mas quando acabam fica só a saudade. A poesia é menos intensa, mas quando se chega à satisfação, ela é mais duradoura (diferença de tântrico e ejaculação precoce. Todo mundo curte uma “rapidinha”, mas viver disso decepciona um pouco, né? – e eu provavelmente destruí a possibilidade de uma carreira acadêmica com esse último comentário)

A força que sinto falta nos adolescentes é a de curiosidade. O que para mim se liga com respeito. Se sou curioso por um assunto, consigo pesquisar a respeito, me calar para ouvir quem sabe a respeito e galgar degraus para aprender, criando admiração por aqueles que me ensinam e ajudam.

Sem curiosidade, dane-se. É o famoso “pra quê preciso disso?”, me deixa sair dessa sala logo.

Renan viajando de novo? Talvez. Mas vejam pelo meu ponto. A pulsão existe, quer ser satisfeita e temos 4 destinos clássicos. A sublimação é o motivo pelo qual hoje temos carros, bicicletas, internet, quadros, livros, roupas, moda, etc. Basicamente, muito do que nos gabamos por sermos humanos e diferentes de outros animais vem disso.

A maneira como sublimamos e criamos ou nos deliciamos com as coisas está ligada à pesquisa. Ou seja, nossa curiosidade em saber, descobrir, refletir é uma maneira de direcionar as nossas pulsões também.

E como se estrutura nossa curiosidade?

Desde crianças testamos e aprendemos com as coisas. Mas a curiosidade tem seu ápice sempre que encontramos perguntas não respondidas e não desistimos delas. Já escutei milhares de explicações e teorias, mas ainda quero saber da alma, Deus, buraco negro, viagem no tempo, magia, telecinesia, etc.

Acredito que a dificuldade inicial e as divagações que fazemos em determinado ponto da vida estruturam essa curiosidade mais longeva. Sim, estou dizendo que talvez encontrar repostas rápidas demais diminui nossa reflexão e curiosidade. A obviedade (ou a crença de que tudo seja óbvio) faz mal se muito praticada.

E em geral, qual é a primeira pergunta que quando fazemos a galera ao nosso redor dá uma derrapada para responder na nossa infância? Sobre sexo.

De onde eu vim, como fui parar na barriga da mamãe e o que os meus pais fazem de noite com a porta fechada? São questões naturais.

Criança é muito esperta.

Quando questiona e sente que a resposta demorou, foi floreada demais ou incompleta, ela sabe que ali tem algo a mais. Antes de ter idade suficiente ou estar em um momento de compreender melhor essa coisa do sexo, é natural que ela divague, reflita, pense, imagine, crie suas hipóteses e teorias a respeito. Isso é fundante para a curiosidade.

Se tornamos o sexo algo banal, trivial, óbvio e difundido como a venda de bananas, isso reflete no comportamento, curiosidade e consequente inteligência da molecada, que cresce com displicência para muitas coisas.

Percebam que não coloco o sexo como tabu, proibido, mas defendo a não banalização.

Não estou criticando o estilo musical, mas as letras de funk atualmente, por exemplo, dão obviedade e expõem atos sexuais. Talvez o acesso facilitado a conteúdos desse tipo em outras mídias contribuam também, mas existe algum elemento na criação e educação dada em casa (ou não dada) que coloca o elemento sexual no campo exposto da libertinagem.

Peças culturais talvez estejam apenas refletindo o sintoma de nosso tempo, mas é claro que também alimentam o sintoma. É um ciclo!

Não é o que o funk X reflete apenas, não é apenas uma criação que expôs um assunto cedo demais para dar espaço para a construção de um aprendizado com sentimento de curiosidade; não é o que o axé já fazia antes, que a poesia sempre insinuou e que os sites oferecem quase sem restrição. A questão é “tudo me é permitido, mas nem tudo me convém”. A frase é bíblica mas a ideia vale para qualquer crença ou descrença porque é uma questão humana e a respeito de humanos melhores.

Eu até alteraria a frase. “Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém, dependendo do meu tempo e desenvolvimento”. Se entramos em contato com algo depois de uma base mínima formada, o resultado é X, se for durante a formação, é Y.

Pense num bolo. Jogar chocolate nele, dependendo do estágio, pode se tornar uma cobertura facilmente removível ou penetrar no meio da massa e não sair sem danos ao todo.

Exposição ao universo sexual cedo demais altera a noção de realidade e chance de reflexão e desenvolvimento de curiosidade futura. Deteriorando o destino da sublimação como prazer de qualidade e jogando o indivíduo numa busca por prazeres intensos, rápidos e que deixam uma sensação de vazio (acabou o pacote de bolacha, e agora?). A noção de arte, trabalho produtivo, conhecimento e respeito pelo saber (e consequente respeito aos mais velhos ou qualquer outro ser humano que não você mesmo) se perdem.

“Não quero aula. Odeio esse inspetor que me pede para não agredir aos outros. Odeio policiais que me impedem de quebrar a janela que eu queria. Não vou carregar esse livro pesado que ganhei para casa.”

Todas afirmações que escutei e que profissionais me confirmam serem frequentes. Não sublimamos, os adolescentes não estão vendo o ganho num esforço um pouco além.

Pode parecer besteira de criança quando eles mandam um prof à merda porque queriam estar fazendo outra coisa. Mas fica sério quando poucos anos depois uma garota é estuprada porque um marginal, doente ou como quer que chamem, não se conteve e colocou seu desejo acima de qualquer respeito alheio, pela liberdade ou pela vida.

Vemos em muitas escolas, por exemplo, uma degradação da linguagem, uma comunicação falha e incompleta. A comunicação é sempre falha e incompleta, mas é mais difícil entender quando alguém lhe conta os Lusíadas com grunhidos do que com métrica. A capacidade de expressão diminui e a frustração aumenta. “Como dizer meu sentimentos?”, ninguém se entende, é cada um por si.

A sexualidade se deturpa. É triste ver crianças falando de sexo como se tivessem criado orgias e não com a curiosidade natural que a idade despertaria. Dane-se a química, fisiologia e sentimento envolvido, o que vale é a loucura de quem goza antes, com promiscuidade.

A relação com o corpo se destrói. Não tive tempo de entender fronteiras básicas como dor e prazer, então tanto faz machucar a mim ou aos outros, porque é tudo para fazer igual eu vi, ouvi ou todos estão fazendo. Não é grupo, é um coletivo de indivíduos que não simbolizam seus impulsos em desejos.

Falta tempo para que as crianças lidem com o universo sexual pouco a pouco e sejam curiosas, estimulem a criatividade. As pessoas mais inteligentes e inspiradoras que conheço tiveram tempo, chance, criaram suas ideias e depois as confirmaram ou contestaram a respeito de sexo e não apresentam problemas quanto a isso hoje. Mas sublimam bastante, com uma energia criativa e criadora que mostra o lado incrível do ser humano. Aprender sobre a sexualidade no tempo certo pode nos levar à lua ou uma nova fronteira de conhecimento. Ou no tempo errado, nos destruir como civilização que se importa uns com os outros.

Lembrando sempre que aqui apresento ideias e interpretações e não respostas prontas. Até porque, quando se trata da psique 1+1 nem sempre é 2.

E aí? A tempestade está a caminho pela forma como lidamos com nossas crianças. Dá tempo de virar o clima ou construir algum abrigo consistente?

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