image

Escutei diversas pessoas refletirem sobre nossa sociedade e várias delas falaram da queda da castração. Basicamente, desse ponto de vista, faltariam interdições para que esses “novos humanos” em formação soubessem seus limites e acatassem regras.

A ideia não é ruim e explica, em parte, o  desrespeito pelas figuras de autoridade. Um desprezo por tudo que tenta barrá-los. O problema é outro.

Como já soubemos por Freud, Lacan e muitos outros médicos da saúde psicológica. Se houver uma falha tão intensa na castração, a grande probabilidade é a de que a maioria desses jovens sejam psicóticos, por não terem sido interditados em relação à função materna, ocasionando um não-descolamento dessa figura. O que levaria a pessoas com problemas com a linguagem, o próprio corpo, sexualidade e quase que totalmente loucas.

Apesar de diversos desses sintomas estarem presentes na situação que relatamos, não podemos simplesmente dizer que todos são loucos e não sabem o que estão fazendo. Eles sabem, mas decidem continuar numa postura que é claramente prejudicial a eles e, em consequência, à sociedade como um todo.

Quando nos preocupamos em satisfazer exclusivamente os desejos do Id, nossa vozinha da fonte infinita de pulsões, a coisa desmorona sem uma mediação. Até porque satisfazer completamente qualquer impulso que apareça é como a morte. Te leva a um estado ou de euforia sem controle ou de inércia desesperadora, pois uma hora não haverá mais como transformar tais pulsões em desejos e simbolizá-las em projetos para torná-las realidade. Quem alcança tudo o que quer, morre. É o gozo final.

Não podemos, então, dizer que a castração falhou de todo, já que não são todos loucos (apesar de atitudes infundadas e degenerativas serem loucura em suma). Mas acredito que uma parte importante do processo não foi completada.

Talvez nos esqueçamos que a castração não só interdita e impõe limites como também nos faz amar quem nos castra da maneira correta. Parece louco e contraditório, mas a complexidade da mente vai além da soma de 1+1.

Ao sermos impedidos e barrados de amar com o amor de eros aos nossos próprios membros da família, deslocamos para um amor de philia e isso, apesar da confusão inicial que causa, permite que busquemos o objeto amado fora daquele círculo, e sejamos gratos a quem nos barrou, pois assim fazemos nosso próprio caminho.

Ora, se a castração tem início, mas falha em algum ponto, podemos dizer que ela inicia o ciclo de ódio pelo castrador, mas não completa com amor, levando a uma situação que vemos em que as figuras de autoridade (professores, diretores, policiais, inspetores, etc) são vistos como responsáveis pelos males do sujeito. “Não gozo porque outro me rouba o gozo”.

Isso pode se aproximar, apesar de não instaurar completamente, uma formação perversa, onde não importa o que o outro quer, não importa quem eu prejudique. Quero apenas me satisfazer.

O mais curioso de tudo é que o psiquismo odeia tanto a autoridade porque é carente dela. Não foi raro, nas perguntas e casos, encontrar adolescentes que passaram a idolatrar ou defender ferrenhamente professores, policiais e, em especial, inspetores que os confrontaram e mostraram como seguir regras tinha seu lado positivo.

O desprezo é pela carência também, tentando recriar tardiamente um amor não desenvolvido na época adequada.

Podemos atribuir isso a diversas questões, desde mudanças na estrutura familiar até um ritmo acelerado demais de nosso tempo. O que talvez leve crianças a se confrontarem com temas que deveriam esperar, levando a adolescentes menos comunicativos, menos criativos, mas ainda com reações combativas, só que sem saber quem combater. Ou melhor, se sabem quem, não têm ideia do porquê.

No próximo post veremos isso sob a ótica da sublimação.

Imagem

Anúncios