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A gente sabe que não faz parte da camada mais privilegiada da sociedade quando lembra de algumas coisas.

O clássico é mofo nas paredes. Quem nunca teve um reboco caindo, uma pintura estufada ou um cômodo na casa que desse rinite apenas de passar perto, não conhece as maravilhas da umidade em excesso.

Capa de sofá. Não sei quem foi o primeiro que inventou, mas era pobre, como todos nós que já nos beneficiamos dessa maravilha. Nunca sabemos o lado correto de colocar, a cor raramente bate com a do móvel e, quando a primeira pessoa senta, ela escapa de maneira irreversível.

Correr de havaianas. Não, não me refiro à uma disparada na tentativa de fugir de mulheres do Havaí. Saias de palha (sapê? O que é aquilo afinal?) e colares de flor não são assustadores. São as sandálias, os chinelos. Somente o pobre de berço tem a capacidade de correr de havaianas sem estourar o chinelo. Ele joga bola na rua, corre, vai ao mercado, foge da chuva sem tirar o chinelo e sem que eles escapem do pé. Eles já são parte do corpo. Existe uma técnica milenar em cruzar o dedão do pé com o segundo dedo para que o chinelo fique melhor fixado que um coturno ao pé. E ele é usado até o fim, mesmo quando a sola já está como um papel de seda, permitindo olhar através dele. Ah, seus ricos que não sabem de nada, nem tentem repetir tais proezas, seus chinelos vão estourar no primeiro degrau da escada que descerem com o pé suado.

Copos diversos. Apenas a pobreza em seu estado puro proporciona um armário com mais de vinte copos no qual nenhum deles combina. Você tem o copo do extrato de tomate, a edição especial do de requeijão, aquele de cogumelo, que é menor e só usa para o cafezinho e um sobrevivente copo americano, indicando que já existiu um “conjunto” de 6 recipientes daquele tipo.

Camisetas. Roupas de políticos em geral. Nada que ostente muito. A pobreza gosta da regionalidade, você vai encontrar camisetas de vereadores e no máximo de um deputado estadual.

Latas diversas. Você sabe que o pobre vai ser sempre grato a você por um presente relacionado à comida. Aquela lata de edição especial das bolachas Bauducco que foi recebida em 1986 estará firme e forte como uma herança de família, passando de geração em geração.

Sabonete de quatro cores… Só os fortes entenderão.

Dormir vinte e três pessoas, mais um bebê, numa quitinete na praia grande. Com apenas um ventilador.

Capa de botijão de gás. Capa de filtro, capa de controle remoto (que pode ser feita em casa), capa para o porta-capas.

Uma maleta de fazer inveja em hospital com mais de 600 medicamentos. Alguns com eficácia tão comprovada que se ignora a data de vencimento atingida na copa de 1994.

Trinco aparafusado na porta do banheiro. O banheiro é um local de descobertas e misteriosamente é onde a maçaneta e a fechadura sempre deixam de funcionar primeiro. Trincos de metal colocados na parte superior da maçaneta ou uma madeira pregada com folga suficiente para girar e ser usada de fecho, são itens comuns.

Porta sanfonada de plástico sempre desencaixada do trilho.

Cortinas de casas de senhoras benzedeiras que separam cômodos.

Aliás, se existe algo que a pobreza nos proporciona de maneiras inimagináveis é uma quantidade épica de benzimentos e simpatias para curar tudo.

Montar um acampamento na cozinha. A cozinha pode ser o menor cômodo da casa, mas é ali que o pobre, seus amigos, conhecidos e desconhecidos (pois existem muitos desconhecidos que visitam a casa) vão se agrupar por todo o tempo de uma conversa. Mesmo que seja necessário organizar um rodízio de inspirar e expirar, para que ninguém sufoque.

Ar condicionado faz mal à saúde e é por isso que sempre vai haver um ventilador na casa do pobre que afasta o calor mais pelo barulho do que pelo vento que produz.

Por último, uma alegria em viver e saber rir das desgraças e seguir em frente. Um pobre não precisa de antidepressivos, psicólogo ou spa. Precisamos dum barulho no quintal, uma conversa animada e um cachorrinho vira-lata que coma restos de arroz e frango e que jogue bola na rua com a molecada de havaianas enquanto o pagode corre solto na casa, sempre aberta!

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