quartoAinda estou procurando o que realmente importa na vida, em minha vida apenas, ainda não sei. Se não consigo definir tais coisas para mim, quem dirá de uma maneira generalizada. Se eu conseguir descobrir algo eu conto, quem sabe funcione o método de investigação da parte pelo todo.

Ontem eu estava numa daquelas horas de limbo na vida. Sabe quando você tem algumas coisas para executar ao longo do dia e as faz, porém, em determinado momento, você chega a um ponto em que deve aguardar por uma pessoa e não há nada que consiga fazer para adiantar? Também não consegue iniciar uma tarefa subsequente, pois ela levará mais tempo do que o tanto que você dispõe. Limbo.

Num desses limbos consegui adentrar meu quarto, minha ideia era organizar alguma coisa mínima ali, mas lembrei de um comentário recente de um amigo a respeito de um disco bom e antigo. Eu não conhecia as canções, mas as quis conhecer, pura curiosidade misturada com vontade de participar mais intensamente das linhas descritas pelo colega em um texto.

O computador me permitiu achar rapidamente as canções e botei para rolar Pink Moon, do Nick Drake (um dos melhores discos, segundo opinião de gente em quem confio para música). Esse meu amigo havia escrito um texto contendo um comentário muito positivo sobre tal álbum e percebi que aquele escrever dele era um ato de carinho, posso dizer de amor, ao compartilhar com outros as suas impressões positivas.

Resolvi apagar a luz e a tela do monitor, o som continuava, um violão embalando meus pensamentos e eu não prestando atenção às letras, e sim tentando me ater mais às melodias. Do corredor da minha casa ainda penetrava no ambiente luminosidade suficiente para que eu distinguisse formas, letras e sombras.

Não durou mais de quarenta minutos todo o momento, mas foi o suficiente para que eu refletisse sobre as coisas importantes da vida. Não achei resposta concreta, mas percebi que os atos de amor e de carinho estão entre as coisas que valem a pena, em especial aqueles atos que perduram.

Digo isso porque eu estava sozinho, mas rodeado de tantas coisas boas que meu coração seguia povoado. Cada detalhe ali continha um ato de afeto. Claro que meus pais, meu irmão e minha namorada eram os que mais tinham objetos ali dentro, pela proximidade, mas tantos outros também se faziam presentes, cada um com uma história, um momento.

Dois grandes livros fotográficos no alto da estante, que foram presentes de um amigo fotógrafo, após uma entrevista de mais de duas horas, anunciavam o início dos objetos; seguiam outros livros, recebidos por um amigo psicanalista, um outro filósofo e economista; dois livros e uma HQ dada a mim por uma colega professora. Logo em cima da mesa do computador, estava um CD de mp3 com uma seleção de canções feita pelo meu primo. Músicas agitadas.

Numa das paredes, um quadro que tenta retratar meu rosto: presente de uma amiga que conheci na Austrália e que era peruana. O edredom da minha cama mesmo, listrado de branco e preto, feito pela mãe de um grande amigo meu. Uma caixa para guardar trecos, personalizada com imagens do homem-aranha, fizeram-me lembrar de minha namorada e sua família, que me presentearam, e uma amiga artesã, que foi quem fez o objeto.

Um álbum com um mini-ensaio fotográfico remetia a outro amigo de infância. O próprio guarda-roupa foi pensado pela minha mãe para o quarto; as diversas HQs, também nas prateleiras, lembravam-me de quando meu pai trazia os gibis para me agradar ou quando ganhei outros, de meus cunhados, já adulto, pois todos sabem que também adoro quadrinhos e trago este vício (que considero bom) desde a infância. Uma espada na parede remeteu-me à lembrança de meu irmão e minha cunhada, que me trouxeram o objeto de uma viagem.

Não abri, mas debaixo de minha cama existe uma caixa onde guardo alguns ingressos de teatro e cinema que ficam de recordação não só das obras assistidas como das pessoas que me acompanharam em cada uma delas (apesar de eu adorar ir ao cinema sozinho). Na gaveta de minha cômoda estão moedas de diversos países, trazidas pelos meus amigos de suas viagens internacionais.

É difícil dizer ao certo, mas dentro de meu quarto consigo encontrar objetos suficientes para me remeter a cerca de 80% das pessoas que conheço em minha vida e, posso falar de maneira bem simples, conheço bastante gente. E meu quarto é pequeno… mas cabe todo mundo.

Os meus dois trabalhos de conclusão de curso, por exemplo, que fazem parte dessa minha micro-biblioteca particular, são memórias dos mestres, amigos e colegas de cada uma dessas etapas de minha vida.

Há também um encadernado de fotos e frases de amigos da faculdade que me deram de aniversário num misto de humor e criatividade. Presente também único. Bem como os livros que recebi de minha antiga companheira (e chefe) jornalista.

Cada coisa um ato de carinho, uma lembrança de amor e amizade que perduram, que rememoram, que encantam.

Desde músicas, livros, fotos, quadros, enfeites, moedas, roupas, espadas, ingressos, tudo lembra alguém, e são esses objetos e a carga que eles têm de maneira intrínseca que constituem uma vida e sua importância.

Daí minha reflexão inicial sobre o que realmente importa na vida. E, depois de ver tudo aquilo e sentir um pouco de cada emoção que tais coisas me provocavam, relembrando pessoas, peguei-me divagando se devemos saber o que realmente importa na vida ou sentir, pois não há lógica para muita coisa, mas os sentimentos falam por si.

A gente, afinal de contas, sente quando algo é importante, quando é carinhoso, quando é feito com amor. Assim como percebi tais sentimentos por meio do texto do meu amigo e de cada objeto que vi ontem.

Assim como eu espero que percebam que este pequeno texto é uma homenagem a todas as pessoas que conheço, uma ode ao carinho que sinto pela minha família, companheira, amigos e amigas. 

 

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