conspiraçãoA crise conspiratória a qual me referi se instaura quando penso em como somos incentivados, midiaticamente e socialmente a sermos mais infantis que adultos. Ao contrário da criação de um povo alegre e que sabe levar a vida tranquilamente, vejo por outro prisma.

Tornamo-nos um bando de crianças crescidas e mimadas que não suportam ser contrariadas, o que coloca ainda mais intensamente em evidência os quadros de depressão e fuga para álcool e drogas.

O “seja o que você quiser” que o Mercado em geral promulga, atinge exatamente a nossa criança interior, ainda cheia de possibilidades e aberta ao mundo e não os homens e mulheres que já deveriam ter parte de seu caráter formado e pensar: não consigo ser qualquer coisa que eu quiser, uma vez que minha história de vida, idade, princípios e responsabilidades não permitiriam que eu fosse um bandido, um astronauta ou uma dançarina de funk (sem nenhuma relação entre essas citadas “profissões”).

Nós desejamos determinados estilos de vida porque combinam conosco, é parte integrante de nosso desejo subjetivo ou estamos sendo levados pelo entorno de maneira leviana?

O tornar-se qualquer coisa, fazer o que quiser, etc., é muito mais do mundo infantil que do adulto. O que me leva a acreditar que a “teoria conspiratória” cultural quer nos infantilizar, pois é mais fácil de nos tocar para onde quer que seja.

Já vimos que os adolescentes tardios trabalham e, na maior parte do tempo, gastam muito dinheiro em manterem aparências, estilos de vida que não competiriam a eles.

Conheço pessoas que já gastaram mais em celulares, em três anos, do que pagariam em uma moto zero km. E não precisavam disso, mas queriam… (novamente, sem fazer juízo de valor entre veículos e aparelhos, mas em desperdício de qualquer origem e forma).

Daí a diferenciação que acredito ter alcançado com essa minha amiga, numa conversa. As crianças desejam e querem coisas que nem sempre precisam, elas têm sonhos que vão se desmanchar em fumaça dentro de pouco tempo e outros que se tornam projetos de vida que carregarão para mais adiante. Diferenciar o que importa do que é passageiro é parte do aprendizado e não ser mimado para “querer tudo ao mesmo tempo”.

Se uma criança quer comprar o xampu de seu super-herói favorito, que é mais caro, todas as vezes em que for às compras com os pais, talvez, quando quiser uma bicicleta de presente, não exista dinheiro disponível para tanto. Mas nesse nível, quem controla são os pais.

Numa criança crescida que quer todos os celulares bonitinhos, todas as capas fofinhas e todas as blusinhas do personagem X, quando quiser uma casa para morar, vai faltar grana. E quem faz esse controle? Ou seja, estamos sendo incentivados a nos tornarmos mimados, consumir qualquer coisa que passe pela nossa mente e depois nos decepcionar com os grandes projetos de vida, levando-nos a um endividamento quase eterno.

Diante desse prisma, manter sua criança interior sempre à flor da pele não parece uma ideia tão atrativa. É tentando realizar tudo que não se dá o devido valor e não se realiza aquilo que realmente importa. Diferenciar sonhos de desejos efêmeros também é parte da responsabilidade de crescer. Isso me parece faltar. A mim mesmo, inclusive.

Por isso é que me perguntei em que ponto da vida fomos enganados. Porque até determinado momento, eu sabia que minha criação tinha sido voltada para responsabilidade, construção de sonhos e elaboração de projetos de realização.

E de repente me vejo como uma criança mimada, choramingando por cada minúscula coisa que não dá certo no cotidiano, como se eu devesse ter tudo a todo momento da maneira como quero. Isso não é conquista, é tolice.

Em que ponto a gente se desvia, eu não sei. Mas é importante retomar e relembrar alguns passos.

Crescer não é tão ruim, pelo contrário, é a maneira pela qual conseguimos transformar o mundo ao nosso redor. Uma criança querendo ser presidente é bonito, mas uma criança na presidência é estúpido e afunda o país. Não é glorificar o crescimento apenas, mas tentar não demonizá-lo.

Ser adulto não é deixar de sonhar e abandonar projetos, mas procurar os meios certos de realizá-los, em vez de ficar reclamando e esperando que a solução caia do céu.

Parece dura demais essa realidade, parece árdua e agressiva, mas não é tanto assim. Acredito que nos mantermos crianças em ações e fuga de responsabilidades é o que tem nos levado a uma situação política e econômica difícil no país e até socialmente, pois cada vez é mais complicado em se lidar com os egos supremos nas ruas (basta uma volta no trânsito para vermos que ninguém aceita ser contrariado).

Falo por mim, falo pelos outros, falo o que sinto e o que vejo (e de que outra forma seria?). Assim como essa minha amiga vaticinou: chega uma hora em que é preciso crescer, ficar com medo disso, e não encarar, é pior do que a ação em si. E, depois de cumpridas as responsabilidades, aí sim estão liberados o videogame, a piscina, o passeio com os amigos e o futebol na rua.

Envelhecer fica um pouquinho mais bonito assim.

 

 

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