ser adultoEu estava conversando com uma amiga sobre a questão “ser adulto” e sonhos. Não sei exatamente em que ponto da vida fomos “enganados” ou se estamos apenas seguindo um fluxo cultural de nosso tempo, o fato é que é difícil ser adulto. Ou melhor, admitir-se adulto.

Não vou comparar com outras épocas, por mais que pesquisas e conversas possam tentar me revelar esse progredir em outros tempos, é apenas vivendo que consigo senti-lo. Portanto, assim como em outras ocasiões, este é um texto subjetivo.

Fala-se muito dos adolescentes tardios (eu ainda me sinto dessa forma e talvez não devesse), as “crianças crescidas” que demoram a sair de casa ou assumir responsabilidades, etc. Eu concordo que isso tem um caráter econômico e de preparo profissional também, mas não se apressem.

Desde pequeno me ensinaram a assumir responsabilidades e não sei o quão bem isso eu posso ter aprendido, sempre podemos fazer melhor, mas não vejo isso como problema. O que sinto, no entanto, foi um aumento da glorificação do ser criança que invadiu nossa sociedade.

“Devemos manter a criança interior viva”, “temos de olhar o mundo com o olhar infantil”, “não podemos parar de sonhar”… Frases como essas são mais comuns do que se pensa, atualmente. E, ao que me parece, são reflexo de um pensamento mais profundo: o de que ser adulto é ruim. Não digo que seja um plano, mas esse funcionamento cultural lembra bastante uma teoria conspiratória.

Quando criança, eu confesso que nunca tive aquela pressa em crescer, mas também nunca me escorei no fato de ser mais novo. Quando eu fazia cagadas, tinha de assumir, ou inventar um jeito inteligente de consertar. Não existia a possibilidade de dizer “calma aí, eu sou criança e não tenho de fazer tudo certo…”. Pelo contrário.

Antigamente (e esse início de frase me faz sentir mais velho do que talvez eu possa ser), lembro que o que eu mais ouvia eram perguntas de adultos me ensinando sobre a vida. E, quando deparado com situações de decisão em que eu poderia querer me ausentar, escutava “você é um homem ou um rato?”.

Ok, podia ser machista, podia ser dura demais com uma criança, podia ser qualquer coisa, mas estava dizendo, implicitamente, que eu deveria abraçar a situação da maneira como se me apresentava e enfrentar e resolver. Ser criança, numa situação dessas, não iria adiantar: chorar e esperar que outro resolvesse só traria prejuízos.

E hoje escuto várias crianças que querem crescer para fazer coisas como dirigir ou ir a festas, mas preferem ser crianças e, mais, se escoram nessa situação como fuga de responsabilidades que, mesmo numa tenra idade, já deveriam ter.

Mas o que isso tem a ver com a conversa com minha amiga? Sonhos.

Concordo que devamos continuar sonhando e isso é o que nossa infância faz de melhor, mas são os adultos que realizam os sonhos em projetos palpáveis. Quando afirmei que ser adulto era difícil, referia-me ao fato de que atualmente cria-se uma pressão psicológica na qual é complicado se afirmar e firmar como adulto, como se isso fosse errado.

Pelo contrário, parece que o que precisamos é realmente de adultos.

Daí falam que a nossa sociedade é muito dura, que a pressão do trabalho é gigante e que no mundo adulto não existem espaços para diversão e sentimentos mais puros. Penso o oposto. É assumindo responsabilidades, investindo tempo e energias em projetos que se pode realizar os sonhos que tínhamos quando mais jovens, ou mesmo ajudar os mais jovens a realizarem seus sonhos com nossa ajuda.

Uma criança brincando de adulto é divertido só até ela se deparar com algo duro demais para encarar e revelar sua verdadeira face infantil. Um adulto brincando de ser criança é bonito quando sonha e se diverte, mas que, quando chega um momento difícil, enfrenta com firmeza.

Fraquejar não é ser criança nem deixar de ser adulto, mas a maneira de se encarar é o que vale para ser “crescidinho”. Todos se desesperam de cara, mas firmar o pé no chão e buscar soluções é o que diferencia uns e outros.

Exemplo tolo. Quando eu era criança, achei que tinha perdido o meu livro de matemática, bem perto das férias. O resultado foi que eu passei um dos piores meses da minha vida, fingindo que nada tinha acontecido, pois não queria contar para ninguém (naquele tempo isso era algo terrível – estudava em escola pública e ficar sem meu livro era quase como perder o ano ou comprar uma briga de meses com meus pais). Um dos piores meses da minha vida e estava de férias… Tudo porque não quis enfrentar e nem dividir o problema, fingi que não fui eu quem “quebrou o vaso”, por assim dizer.

Poucos dias antes da volta às aulas, sem saber o que fazer, compartilhei com uma pessoa meu sofrimento e ela disse:

– Vá até o Achados e Perdidos da escola e veja se não está lá.

Ali estava. Se eu tivesse pensado em como solucionar a coisa e pedido ajuda em vez de me esconder e virar a cara para o problema, não teria dormido tantas noites mal e teria aproveitado minhas férias, me divertido, etc.

O que trago como exemplo é que, se você quiser manter a criança viva dentro de você em todo momento de sua vida, não conseguirá desfrutar os momentos de diversão, protelando problemas até momentos insuportáveis.

 

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