Série Legião: rodem a música, leiam o texto. Porque toda dor nos faz sentir vivos. às vezes só as angústias têm sentido

teatro-dos-vampiros O término

Ele estava cabisbaixo, falava quase num sussurro, quase balbuciando as sílabas, as dores. Pensava em si, no carinho que acreditou faltar-lhe.

– Sempre precisei de um pouco de atenção, acho que não sei quem sou, só sei do que não gosto.

Estavam os dois lavados em lágrimas, confusos. Depois de dez anos de um relacionamento intenso, separavam-se. Por uma dessas coisas tolas da vida que crescem e se tornam insuportáveis. Com uma essência pequena, mas que viram gigantes escondidas ao longo dos anos, dos meses, dos dias. E destes dias tão estranhos, fica a poeira se escondendo pelos cantos. Invadindo cada fresta de paz. Agora, os companheiros eternos destes dez anos separavam-se. Esse é o nosso mundo, o que é demais nunca é o bastante.

Ela respondeu sem saber se questionava ou se explicava-se:

– A primeira vez é sempre a última chance? Não é possível que não exista mais oportunidades para nós, mais amor. Ninguém vê onde chegamos, tudo o que passamos juntos, algo assim não termina de repente. Os assassinos estão livres, nós não estamos! Todos aqueles que matam e esmagam os sentimentos, pisoteando-os como se não existissem pessoas por trás deles, parecem sair ilesos. Quem ama, quem se importa, está preso, magoado.

– Eu acho que não temos mais chances juntos.

– Não fale assim, meu amor. Vamos sair!

– Mas não temos mais dinheiro.

– Tudo bem, isso nunca foi problema, os meus amigos todos estão procurando emprego.

– Olha só pra gente! Voltamos a viver como a dez anos atrás, como adolescentes tolos que não podiam arcar com suas despesas, suas diversões.

– Então que esse retorno seja um frescor no peito, um ar de juventude que nos faça respirar um amor leve, um recomeço.

– Vivemos como antes, mas não somos mais os mesmos, e a cada hora que passa envelhecemos dez semanas.

– Vamos lá, tudo bem! Eu só quero me divertir. Esquecer desta noite, ter um lugar legal pra ir. Aposto como ainda podemos fazer dar certo, vivermos juntos.

– Já não dá mais, minha gatinha, esse é o fim. Chega de brigas, de guerras. Já entregamos o alvo e a artilharia, comparamos nossas vidas. E vimos que só resta pena entre nós.

– Não! Não se deve ter pena quando se ama, sofrer por amor é um presente e não motivo de dó. Por enquanto, acato sua vontade e lamento não ter sido tudo o que podia para ti. Só quero que não tenhamos pena. Esperamos que um dia nossas vidas possam se encontrar…

Separaram-se, deixando ali algumas lágrimas que marcaram o asfalto frio daquela noite escura. Com a decepção sussurrando aos ouvidos e a esperança dando um motivo para o coração continuar a bater, mesmo que tolo, mesmo que gelado.

O reencontro

Ele a fitava com um brilho intenso nos olhos. Não sabia se pedia ou se explicava, se falava de seu amor ou de sua burrice. Encontraram-se depois de algum tempo, e algumas brasas mostraram não estar apagadas de todo.

– Foi só quando me vi, tendo de viver, comigo, apenas, e com o mundo que compreendi: você me veio como um sonho bom e me assustei. Não sabia ser possível tanto amor e desejo por uma única mulher. Não sou perfeito, eu não esqueço a riqueza que nós temos. Eu nunca esqueci. Só estava confuso.

– Você me deixou e eu me senti sozinha e magoada. Não sabia no que acreditar. Não sei mais se é verdade toda essa riqueza.

– É claro que é, só que ninguém consegue perceber… e é isso que me dói, que me mata. Eu te amo! E de pensar nisso tudo, eu, homem feito, tive medo e não consegui dormir.

– O amor te assusta?

– Me move, deixa-me inquieto! A gente ainda tem uma linda história pela qual lutar. Vamos sair!

– Mas não temos mais dinheiro…

– E quando isso foi problema para nós?

– As coisas estão difíceis, os meus amigos todos estão procurando emprego, eu estou.

– Dane-se tudo isso, voltamos a viver como a dez anos atrás, cheios de vida, de intensidade, de paixão.

– Mas a cada hora que passa, envelhecemos dez semanas… Você mesmo disse.

– Vamos lá, tudo bem! Eu só quero me divertir. Esquecer desta noite, ter um lugar legal pra ir. Como antes, como no início. Sem guerras. Já entregamos o alvo e a artilharia.

– Não sei se é mais possível, não quando comparamos nossas vidas – e ela baixou o rosto numa resignação angustiada pelas coisas que não saem como esperamos na vida.

Ele tocou-a de leve no queixo, erguendo-o. Olhou-a profundamente e disse.

– É possível, pois mesmo assim, não tenho pena de ninguém… Não mais – ela ergueu o olhar. Dessa vez iluminado.

– Você se lembra?

– Sim. E estou disposto a sofrer o quanto tiver de ser, desde que a seu lado.

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