mulher contra luz Não quero falar da "força" da mulher. Sei que o termo nem sempre é empregado da maneira denotativa que pode ter em relação a um corpo cheio de músculos, mas o som disso aos ouvidos pode ferir a delicadeza deste ser. Já que falamos em termos, não me refiro à delicadeza como fragilidade, mas antes, sim, como esmero, cuidado, como a amabilidade que as mulheres carregam em si. Refiro-me a esta suavidade que essas garotas-senhoras – não importando a idade – trazem em seu coração.

Esqueçam as palavras potência, poder e vigor quando falamos de vocês meninas. Todos esses são engodos de um mundo masculino que parece querer sufocar a beleza que carregam em si. Futilidades de meninos que nunca crescem e disputam por toda a vida para ver quem corre mais, chuta mais forte ou atira a pedra mais longe. Não caiam nessa!

Não deixem que essa masculinidade sufoque a beleza do feminino, que se imponha sobre vocês como uma armadura cheia de músculos falsos. Essa virilidade de metal apenas encobrirá o Sol que as alimenta e fará murchar a flor que há em seu coração.

Esqueçam as máscaras e armaduras. Quantos fardos carregamos inutilmente ao longo da vida tentando nos definir por algo que não somos? Quanto de nossa essência parece escoar por nossos dedos quando nos agarramos a imposições que não vêm de nosso próprio coração? Não cometam esse erro. Assim como tento não cometer o erro de falar em força quando falo em mulher.

Não que este não seja um atributo do feminino, mas não me parece ser o que as define, o que as destaca quando olho verdadeiramente para cada uma. Pois há uma diferença entre olhar apenas ou tentar captar por meio do brilho dos olhos o que é que faz uma pessoa seguir adiante. A resposta que vejo é amor!

Eu seria simplista o suficiente para dizer que os homens são menos complexos nesse sentido constitutivo. Amam a mãe, a quem não podem ter, e são obrigados a buscar outro objeto de amor fora da família. Fim da história, acabou o complexo de Édipo.

As mulheres são mais complexas, são quase envolvidas em uma aventura antes mesmo de olharem o mundo pela janela de casa. Amam a mãe, a quem descobrem ser proibida para elas, e pior, um ser incompleto, mas então olham ao pai e têm ali novo objeto de amor, mas são novamente barradas. Ele pertence à mãe. A confusão está armada.

A primeira pessoa a quem amam, basicamente, além de se mostrar indisponível, também "rouba" o segundo objeto de amor. Na constituição do sujeito, temos um ser muito mais complexo e que deve lidar não apenas com sua incompletude estrutural, mas com uma "competição" acirrada logo de cara.

A grande pergunta é: como confiar depois de tudo isso? Como conseguir amar novamente? Como dedicar-se a outra pessoa e não se fechar num mundo egoísta? Como querer o melhor para os filhos e doar-se por inteiro?

A resposta eu não sei, mas a prática e conhecimento empírico demonstrado pelo mundo é que existem, sim: mulheres.

Podemos até dizer que a dedicação ao parceiro seja uma tentativa de se mostrar "boa o suficiente" para a pessoa, como se a marca inicial deixada na infância voltasse sobre si como culpa do sujeito. Uma culpa que tentaria ser redimida ao longo da vida. Poderíamos dizer também que a dedicação aos filhos é uma forma de realização narcísica indireta na qual "parte de mim" pode realizar e dar continuidade aos sonhos que eu não consegui.

Todas essas seriam palavras grandes e difíceis para serem usadas para tentar definir vocês, mulheres, mas eu ainda estaria longe disso. Não porque são complicadas, mas porque não são movidas por uma lógica racionalista e sim por sentimento. Vocês são aquilo que sentem e o que parecem sentir mais forte é amor.

Doar-se aos filhos explica querer se realizar indiretamente, mas a força necessária para abandoná-los e deixá-los ir quando preciso ultrapassa a razão da suportabilidade. Querer o melhor ao parceiro e agradá-lo, por exemplo, explicaria uma tentativa de se redimir, mas dificilmente daria motivos para confiar e admirar ou mesmo alegrar-se com as vitórias de um outro. Esse companheirismo quebra barreiras.

Vocês são amigas, amantes, filhas, mães, tias, sobrinhas, primas, professoras, conselheiras, ombros para descanso e dedos apontados como bronca quando necessário, tudo junto e de uma forma encantadora.

Há força nisso tudo? Sem dúvida. Mas não é o principal.

O principal é a delicadeza e a suavidade com que se movem por esse mundo. A meiguice pela qual suspiram por um céu estrelado, derretem-se por um beijo de amor e, ainda assim, levantam-se firmes para um outro dia, não importa se fácil ou difícil.

Tentam hoje defini-las pelas suas profissões, pelo espaço que têm no mercado de trabalho, mas isso me parece tolice. Não porque não mereçam, mas simplesmente porque nunca duvidei da capacidade de vocês para tais cargos, logo, isso não impressiona e não define tal maravilha que são.

O hoje pode ser apenas mais uma data no calendário e parece bobo esperar um dia para falar de alguém. Eu penso de outra forma. Independente dos ideais capitalistas ou de controle que possa haver por trás de tal comemoração, aproveito este tempo para refletir sobre as mulheres de minha vida e o como contribuíram e contribuem para que eu me tornasse o homem que sou hoje. Uma pausa que poderia ter sido feita em qualquer dia, mas que pegou carona num pensamento que me rodeava. Esse é o meu muito obrigado a todas vocês que conheço e convivo ou já convivi, e a todas aquelas que ainda conhecerei.

Um feliz dia das Mulheres a todas as professoras, bibliotecárias, jornalistas, escritoras, atrizes, administradoras, empresárias, executivas, psicanalistas, enfermeiras, engenheiras e meteorologistas, sim, pois reconheço suas profissões. Entretanto, dirijo-me a todas vocês que são filhas, mães, irmãs, amigas, conselheiras, companheiras, namoradas, noivas, esposas e etc., pois o que me importa são as pessoas por trás dos trabalhos, assim como o que importa não é a força dos braços e pernas e músculos, mas sim o amor que move tudo isso.

Sei que o conselho final é desnecessário. Eu diria para não pararem de sonhar e de impulsionar sonhos, como tão bem fazem, mas vocês já sabem, vocês meninas-garotas-mulheres abraçam o mundo todos os dias e nos mostram como fazer o mesmo.

A pergunta de Freud: "Afinal, o que querem as mulheres?" Estava equivocada. Eu me pergunto, enfim. Afinal, o que "não" querem as mulheres?

 

 

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