reflexo (7) Estava saindo para trabalhar, apressado, como já fazia nos últimos seis anos, quando escutou chamar:

– Hei, aonde você pensa que vai?

Estava na sala de seu apartamento, dirigia-se à porta. O local era decorado com um sofá-cama, uma TV tela plana e um videogame, uma mesa que fazia às vezes de local para comer e trabalhar, e também um grande espelho na parede. Este último objeto era velho, contrastando com os outros. Um dos poucos elementos da mobília que ele trouxera de sua velha casa.

Morava sozinho e, apesar de arrastar uma garota ou outra de vez em quando para seu apê, era solteiro. Na noite anterior não se lembrava de ter trazido ninguém, por isso estranhou ser chamado.

Olhou a TV e viu que estava desligada. Conferiu o rádio e o interfone: nada! Achou que talvez tivesse sido alguma impressão e dirigiu-se à porta novamente.

– Ainda não me respondeu! Relapso, tudo bem, mas mal-educado eu não acredito – paralisou por um segundo e sorriu antes de colocar a mão no bolso e olhar o celular. Apesar de ligado (meu Deus, ele sempre estava), não havia ligações no aparelho. Numa última tentativa se dirigia ao quarto para tentar verificar se deixara o computador ligado, mas quando passou em frente ao espelho estancou.

– Agora sim consegui sua atenção! Olá! – o espelho é quem falava com ele.

Foi uma sensação esquisita. A voz era similar à sua, porém um pouco mais jovial e empolgada, a imagem gravada na superfície polida era a mesma daquele dia. Uma camisa clara, calças escuras e um cinto de fivela prateada. Os cabelos ainda penteados com gel davam um ar tolo à sua imagem quando vista descolada de seus movimentos. Tinha vida própria.

– Meu Deus, o que está acontecendo?

– Nada, e é por isso que te chamei.

– Quem é você?

– Não é meio óbvio? Você costumava ser mais inteligente.

– Já sei, você é o demônio.

– Não sou o melhor cara do mundo, isso você já sabe, mas não chego a ser tão mau. Eu sou você, seu imbecil!

– Já sei, é porque eu ainda não tomei meu café.

– Outra coisa que ainda vai te matar.

– Isso não pode estar acontecendo, é impossível.

– Deveria ser, mas eu cansei, de verdade.

– Como assim?

– Estou quebrando algumas regras para ver se você acorda, a vida está um saco aqui, por sua causa. E, se continuar assim, logo vai ficar um saco aí do outro lado. Se é que já não ficou…

– O que você quer de mim? – perguntou o rapaz real, curioso, mas não totalmente livre do medo.

– Conversar – respondeu o espelho.

– Conversar? – e franziu a testa.

– Conversar, bater um papo, dialogar, falar, entrar em discussão, abrir hipótese de, conjecturar, confabular amigavelmente contigo a respeito de algum assunto… enfim. Ainda lembra como faz isso ou já se esqueceu?

– Acho que…

– Acha nada! Há quanto tempo não batemos um papo, hein? Sabe me dizer?

– Nós já conversamos antes, meu Deus?

– Meu Deus digo eu! Você está com amnésia? Claro que conversamos, você costumava me encarar nos olhos e falar comigo por horas, mas não mais. E nem sei o que aconteceu.

– Acho que estou sem tempo. O trabalho me sufoca um pouco.

– Isso é desculpa para tudo hoje em dia, não?

– Mas é a verdade.

– E você se agarra a isso como a um bote salva-vidas. Você não fala mais comigo, ou com você mesmo, entenda como quiser, e isso é muito nocivo, faz mal.

– Como assim?

– Pense bem. Qual foi a última vez que me olhou? – o espelho fazia uma careta de impaciência, com as mãos na cintura e o queixo levemente erguido. O rapaz estava cabisbaixo, pensativo.

– Todos os dias, acho. Hoje de manhã mesmo…

– A última vez que me olhou de verdade. Que olhou nos meus olhos e disse algo importante, que sorriu com sinceridade ou se sentiu íntimo de si mesmo?

– Bem…

– Pois eu te digo: faz anos que isso não acontece. Outro dia você passou mais de meia hora espremendo cravos e fazendo uma pseudo-limpeza de pele na minha frente e não trocou uma palavra sequer. Sua mente estava como uma rádio sem estação, pegando apenas estática ou, na pior das hipóteses, pensando nas baboseiras que a TV ou a internet enchem a sua cabeça.

– Mas eu só estava tirando alguns pontos, marcas da pele e…

– E poderia aproveitar um ato mecânico como esse para bater um papo ou falar da vida, repensar sua história, seus conceitos, me perguntar algumas coisas. Você nunca mais se questionou se estava ou não fazendo a coisa certa, seguindo o caminho correto. Apenas segue uma torrente apressada que nem sabe onde vai dar.

– É verdade, nos últimos tempos eu não parei muito para pensar nessas coisas. O trabalho está sufocante e…

– Lá vem o trabalho de novo – e o espelho girou os olhos nas órbitas. O rapaz tentou se corrigir, pensando melhor.

– Não é só o trabalho. São as pessoas carentes a todo o momento achando que elas são sempre prioridade. Pessoas que acreditam que qualquer comentário estúpido e direcionado que tenham vai mudar o mundo. São as garotas vagabundas que se entregam facilmente e os colegas fúteis que eu arrumo sem querer. São tantas coisas disputando minha atenção sem realmente merecer…

– E você se esqueceu de mim, de você!

– Então você está pedindo para que eu seja egoísta, dizendo que pense mais em mim?

– Juro que, se eu pudesse, te bateria agora. Claro que não, seu animal! A coisa é toda o inverso. Você só me olha para arrumar esse cabelo ridículo, dar nó em gravata, encolher a barriga quando passa na minha frente (o que é bem patético, diga-se de passagem), ou, quando se demora, é porque está treinando uma apresentação que fará na empresa. Hoje sim você está sendo egoísta e pensando apenas em si.

– E antes não era assim?

– Não. Quando conversávamos mais, você pensava em si, claro, mas refletia sobre seus conceitos, sobre como ser uma pessoa melhor e, mais ainda, sobre como ajudar outras pessoas. Falar consigo não era necessariamente ficar divagando a respeito de que camisa você queria comprar ou que carro desejava, era algo além, mais íntimo, interior, profundo. Você está se tornando uma pessoa mais rápida, vejo isso todos os dias quando te olho, mas também mais rasa. Está como alguém que passa correndo por sobre uma poça d’água, acha que quanto mais rápido passar, menos profunda ela será, mas você está com um automóvel descontrolado, está deslizando sobre a superfície da água e vai perder o controle do veículo.

– Nossa, eu não sabia que estava tão perigoso assim. Quer dizer, senti umas pontadas no estômago, um vazio de noite, mas eu geralmente estou tão cansado que não penso muito.

– Essa é a técnica: quanto mais cansado, menos se pensa, daí pegamos nosso tempo livre achando que devemos aproveitar tudo no menor tempo possível e ficamos sem um momento de suspiro, mas é preciso parar.

– Olha! Não sei o que dizer.

– Quando a gente fala demais, porém sem muito significado, tendemos a ficar calados quando a coisa séria chega. Fique tranquilo que é normal, você precisa se recuperar um pouco, só isso. Só não desperdice sua vida, seu tempo e suas capacidades saturando-se de algo que não te leva a nada. No final, o importante é buscar seu íntimo verdadeiro e ajudar as pessoas a encontrar o delas, só assim se vive bem.

– E como vou me libertar dessa pressão financeira, dum trabalho sufocante e de um ritmo louco sem prejuízos? De onde começo a me libertar, de onde tiro forças? O primeiro passo é tão difícil.

– Não estou aqui para te dar respostas, mas para te dar broncas pelo seu esquecimento. Mas se quer mesmo saber, responda você: de tudo isso que você "acha que precisa", quantas coisas são realmente essenciais e, mais, quantas coisas, ou melhor, pessoas essenciais estão ficando de lado nessa busca?

– Eu… – o rapaz não sabia o que dizer. Balbuciou alguma palavra desconexa, olhou para o chão procurando uma resposta e ergueu a cabeça numa nova pergunta – e quanto a…? – a imagem no espelho estava tão tola quanto a sua própria, nada mais era que uma repetição de seus movimentos. Calada, invertida, mas nada além de uma mímica.

O rapaz reparou, com certa tristeza, que seus olhos, agora refletidos, eram menos calorosos que os da imagem que o interpelava momentos antes. Achou que talvez tudo aquilo fosse um delírio tolo e saiu de casa. Estava atrasado.

Naquela mesma tarde ele foi despedido, reclamaram de seu atraso e mais algumas coisas que não ficaram claras, pareciam apenas estar trocando pessoas por salários mais baratos. Ele sentiu uma pontada de irritação que logo foi substituída por um sorriso interno. Gostou de se ver livre.

Chegou em casa contente, querendo contar a alguém. Não havia ninguém, apenas o espelho. Mas ele não estava vivo, era apenas uma peça da mobília, como antes. Mesmo assim ele falou, por um bom tempo. Contou do dia, das sensações que tivera e de como fora bom ser despedido, ficar livre. Falou que gostou da conversa da manhã, mesmo que tudo aquilo nada mais fosse que um sonho esquisito pela falta de café. A imagem no espelho se mantinha fiel aos movimentos de seu autor.

Ele deu boa noite e foi dormir com uma sensação de surpresa e novidade do amanhã como há muito não sentia, um sentimento delicioso.

Quando se virou, a imagem no espelho permaneceu por mais um segundo, e deu uma piscadela antes que a luz se apagasse…

 

imagem daqui (aliás, trabalho genial, vale a pena conferir as outras)

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