pegada A minha pegada é diferente da tua, minhas unhas marcam as carnes num tom variado, meus olhos enxergam o que os teus não sabem e meus ouvidos apreendem sussurros perdidos nas dimensões de corações palpitantes, sangrentos, alegres, entristecidos pelo nada, pelo tudo, pela falta em nós que nunca se preenche.

Padronizem, planifiquem, digam que somos humanos, que nossa conduta é a mesma e que as atitudes sempre caem no mesmo círculo vicioso, viciado, abstêmio, correndo atrás da mesma coisa… não! Eu nem mesmo corro, não posso, não quero, me desespero. Não busco o futuro que me desejam nas propagandas e anúncios. Apresso-me seguindo brisas, paraliso diante da burocracia diária, busco meus sonhos, sim, mas eles são etéreos, flutuantes, de uma outra dimensão. Meus sonhos não se formam nas capas de revistas, mas no vácuo existente entre minhas células, meus átomos.

Sou fruto de uma explosão do universo ou da palavra divina pronunciada. Dá no mesmo, sou feita do grito de Deus contra um vazio sem fim ou de um brilho de mais de mil sóis. Como poderia, então, me conformar com a "justeza" e a claustrofobia de sonhos fabricados em série, numa esteira que, antes de nos carregar, esmaga-nos?

Minha pegada é diferente da tua, talvez meus pés nem toquem mais o chão. Quem sabe eu já não esteja jogada numa cadeira de rodas ou em cima de uma cama, não importa. As ranhuras que minha existência provocam na superfície da Terra são intraduzíveis, inimitáveis, indecifráveis. As palavras não dão conta de nos dizer o que é ser…

Como crianças, aprendemos o claro pelo escuro, o frio pelo calor, o certo pelo errado, o preto pelo branco, o um pelo outro. Como podemos aprender o que é ser, então? Impossível. Aprendemos o existir pelo nada? O que é o nada? Dizer nada já é algo, pensar no vazio é ver o branco ou o negro, não se traduz o vão, a lacuna no fundo de cada alma é indizível, as palavras não dão conta. Não sabemos traduzir o ser, o existir; nossos verbos, nossas ações simbolizadas em letras e sons mal dão conta de um "estar" passageiro, que em si mesmo é inexistente.

A existência é única. Por que nos padronizar?

Não quero máquinas que me deem significados diários, ele se esconde no mais íntimo de minhas entranhas e não no movimento de meus músculos para serem salientes ou de minha boca para ser carnuda, vistosa, úmida e atraente a olhos que não me veem e ouvidos que não prestam atenção às minhas palavras.

Tire esse sorriso estúpido, sujo e falso da cara, politicagens não afetam meu coração, não há eleição para os sonhos. Fite os céus e repare nas nuances, não queira me vender pedaços de minha própria carne, não queira substituir meus ossos por metal. Se sou frágil é porque assim fui concebida. Abrace-me para me fortalecer e absorva minhas frases em seus ouvidos enquanto me desfaço em palavras, assim me ajudará a me reconstruir.

Divida momentos comigo, mas não se esqueça que somos diferentes, seres variados, separados pelo abismo instransponível que há nos espaços em branco entre as palavras, esses micro-silêncios. Somos separados pelo vácuo e sucção simultâneos de uma explosão, mas unidos pelos abraços, olhares, sorrisos, momentos vividos, e, em especial, pela não tentativa de nos jogar num mesmo saco, rotular e guardar numa gaveta mental estereotipada.

Seus olhos veem o que me escapa, o sopro dos ares de teu pulmão embaçam minha retina e seu hálito me captura num turbilhão. Tua pegada é diferente da minha, mas nós dois existimos, caminhamos, seguimos. Nem sempre em frente, até porque é delicioso voltar por passos já dados e rever paisagens familiares. Não me faça correr sempre em frente, desenfreada, eu posso cair do mundo como vejo tantos fazendo. O que importa na viagem é viajar, o caminho é o objetivo, eu não sei qual é o final. E se só existir um muro sólido e impenetrável no final da jornada? Não! Não quero correr para me chocar contra esse muro, até porque meus ossos não são de aço, eu não permiti que vocês os trocassem. Quero meus pés frágeis, meu ventre delicado, meu olhar quente e, quando eu beijar, quero tragar o mundo pelos meus lábios, enquanto me perco em alguma realidade irreal.

Um beijo que seja uma queda, uma entrega, aquele em que não se nega. Não se nega o desejo, o medo; que termine tarde e comece cedo. Um beijo que me deixe cega, que só faça existir o mundo interior, que acenda a fogueira que carrego no peito e me transporte pelas loucuras que guardo na mente, porque somos diferentes.

Que o tilintar das moedas signifique apenas a chegada de alguém e não a procura desenfreada pelo metal, pelo papel, pelos números digitais em telas frias e sem vida. Os sorrisos devem existir pelo incômodo que as cócegas fazem por dentro, no estômago; quando não se seguram as borboletas nas entranhas, elas escapam, passeiam pelos lábios e revelam dentes. Os sorrisos verdadeiros são incontroláveis.

Quero aquela coisa simples, simplesmente: ser. Este verbo tão complicado que ninguém explica e tão fácil que todos fazem.

Quero que o meu caminho seja mais bonito que minha chegada. Até porque, você sabe, ela é diferente, a minha pegada…

 

Veio caminhando daqui, você sabe, a imagem.

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