cantadaMinha epígrafe, por falta de alguma outra falando a respeito de cantadas – A melhor cantada não é aquela que termina na cama, mas que desperta o desejo por ver os lábios se moverem e cativarem com palavras.

Já tinham trocado alguns olhares e até sorrisos disfarçados à distância quando ele decidiu se aproximar.

– Olá – disse ele, dando uma pausa para ver como era recebido.

– Oi! – respondeu ela escondendo certa animação, mas sem desmotivá-lo de todo. Os estômagos dos dois deram uma volta divertida, naquele misto de medo e excitação.

– Qual é o seu nome?

– Beatriz – disse segura de si, e ela não perguntou o dele de propósito, ela já tinha jogado aquele jogo antes.

– Esse é um nome muito lindo!

– Eu aposto que você diz isso para todas – e ela ergueu uma sobrancelha com um pequeno ar arrogante.

– Você não está errada, são poucos os nomes que acho realmente feios. Todo substantivo próprio tende a carregar uma boa história consigo e isso por si só já é incrível.

– Não disse…

– Mas também não está certa de todo, acho diversos nomes bonitos, mas eu disse que o seu era “muito lindo”. Eu acho Beatriz um nome acima dos outros.

– E o que isso significa afinal?

– Que eu não digo isso para todas e que, afinal, eu teria te respondido dessa forma mesmo que você não fosse uma garota bonita, com um olhar cativante e um sorriso faceiro.

– Isso indica que você se importa mais com nomes do que com aparências?

– Não, mas indica que te fiz um elogio velado, porém direto, e que você fingiu não ouvir – o rapaz sorriu sem mostrar os dentes, contraindo um dos lados da boca mais que o outro, o que Beatriz achou gracioso e a impediu de esconder um brilho que passou por seu olhar.

– Então acho que devo dizer “obrigada”! – retrucou ela, mexendo no cabelo, com um ar divertido.

– Nem precisava, o brilho no seu olhar já foi uma recompensa e tanto – respondeu ele fitando-a de maneira profunda.

– Eu conheço esse tipo, disse Beatriz. Chega cheio de sorrisos e olhares e acha que eu já me apaixonei – apesar da confiança com a qual falava tais palavras, a garota estava curiosa sobre o rapaz, algo nele parecia diferente dos tantos outros que conhecera.

– Na verdade não estava pensando em fazê-la se apaixonar por mim, pelo menos não tão rápido. Isso traria muitos problemas, projeções e expectativas demais de sua parte, provavelmente eu não poderia corresponder a tudo o que sua mente desejasse e você logo ficaria entediada, o que arruinaria qualquer possibilidade de relacionamento. Entretanto, agora sou eu quem deve dizer “obrigado”!

– E por quê? Eu te fiz algum elogio?

– De certa forma sim. Quando falou a respeito dos olhares e sorrisos. Você tem razão, eu prefiro me aproximar das pessoas através dessas expressões. Nunca fui do tipo que prefere exibir o corpo antes de um sorriso sincero. Tanto porque não sou nenhum modelo nesse sentido – e ela não conseguiu deixar de rir quando ele disse a última frase em tom de graça.

– Pensando bem… eu também prefiro olhares e sorrisos a corpos musculosos.

– Isso sim é um bom começo, já temos algumas coisas em comum.

– Uma coisa em comum apenas, não abuse.

– Você se engana. Nós dois preferimos olhares e sorrisos, achamos seu nome lindo e ambos acreditamos que você é uma garota bonita e com um leve ar fescenino, no bom sentido.

– E quem te disse que eu acho meu nome bonito?

– A maneira pela qual você o falou, com tanta firmeza que escondia uma pontinha de orgulho. Além disso você nem perguntou o meu, Beatriz bastava para aquele momento, ele precisava de um espaço único!

– Você é um louco mesmo – e ela riu, cada vez sentindo mais curiosidade e vontade de manter aquele jogo.

– Você sabe que estou certo. E o jeito que você mexe no cabelo e se move indicam que você sabe que é bonita também, mas não fique constrangida, isso é bom!

– Você parece saber de muitas coisas a meu respeito.

– Não muitas, apenas as que você deixa transparecer. Eu posso te pagar uma bebida?

– E qual seria?

– A que você escolher, oras…

– Sabe tantas coisas e não sabe o que oferecer para beber? – e ela se divertiu com a ideia de imaginar que ele ficaria sem ter o que falar.

– Sabe… acho que você precisa de orgasmos múltiplos! – a feição de Beatriz mudou na mesma hora.

– Você é um grosseiro – e ela já ia se virar quando ele lhe estendeu o cardápio do bar apontando uma linha.

– Leia! – disse ele – acho que vai te agradar.

– “vodka, leite condensado, gelo, morangos em calda…”.

– É um drinque, Beatriz! Eu também não sou muito fã desses nomes, mas não fui eu quem batizou a bebida – ela riu de si mesma e ficou envergonhada por alguns segundos, tanto quanto ficou impressionada com a velocidade do rapaz.

– Bem, depois de um julgamento tão precipitado, o mínimo que posso fazer é aceitar.

– Ótimo. Enquanto preparam as bebidas e até bebermos, teremos uma boa desculpa para passarmos mais tempo juntos. Me fale de você, o que faz, do que gosta?

Beatriz começou a falar de si e se sentiu muito à vontade com aquele rapaz. Ele causava-lhe um interesse que há tempos não tinha por ninguém. Não era o mais belo daquele local, mas tinha feições agradáveis. O olhar que ele lhe lançava de quando em quando deixava-a sem jeito e um pouco sem ar. Ela sentia vontade de esconder o rosto e ficava arrepiada ao mesmo tempo.

Ele causava um incômodo delicioso em suas sensações e sentimentos!

A noite passou gostosa, entre uma bebida e outra Beatriz descobria mais daquele rapaz e de si mesma. Ela gostava de si gostando do jeito dele. Ela achava que estava ficando louca, talvez embriagada, mas não tinha certeza se de tantos “orgasmos múltiplos” ou do papo daquele sorridente anônimo. Meu Deus, ela ainda não sabia seu nome.

– Você já sabe muito de mim, disse ela, quero saber um pouco de você. Qual é o seu nome, afinal? Estamos nos conversando há um bom tempo e nem sei como te chamar.

– Vamos fazer assim, eu não direi meu nome, mas vou te dar isso – ele rabiscou um número num pedaço de guardanapo e entregou a ela –, esse é o número do meu telefone, se você me ligar amanhã ou depois, saberei que você quer mesmo saber quem sou e que não foi apenas uma pergunta educada.

– E como eu vou saber que a sua não foi apenas uma pergunta educada? – Beatriz pegou o papel e colocou no bolso de trás de sua calça.

– Eu não tomaria tanta coragem para sair do meu lugar e vir aqui falar contigo e lhe pagar um drinque apenas por educação – e ele sorriu novamente, ela se sentiu hipnotizada, não sabia se fitava aquela boca encantadora ou aqueles olhos profundos. Sem nem saber como, Beatriz se aproximou dele e o beijou.

O beijo foi longo e gostoso, os dois se perderam nele. Quando se afastaram, ela se sentiu constrangida de repente e quis se justificar.

– Desculpe, acho que bebi demais ou…

– Foi maravilhoso!

– O quê?

– Seu beijo, Beatriz, foi maravilhoso!

Dessa vez ela corou e sorriu envergonhada, ela não gostava de ser interrompida, ainda mais quando estava tentando buscar palavras para explicar algo que não saberia explicar, mas ele fazia isso de forma tão graciosa que ela nem ligou. Tomada de uma euforia, pediu mais alguns drinques e seguiu a noite! A conversa tomou um rumo mais animado. Ele fazia piadas sobre as mais diversas coisas e falava sobre vários assuntos.

Uma amiga de Beatriz veio até a mesa e perguntou se ela não gostaria de ir embora. Ela respondeu que não, que iria depois. A amiga perguntou se ela tinha certeza disso e ela disse que sim. A amiga sorriu e deixou os dois a sós.

Beatriz parecia mais encantadora a cada segundo. O jeito como ela mexia no cabelo, tomava sua bebida ou levantava as sobrancelhas a cada fala dele apenas o atraíam mais e mais. Ela sabia que também o havia capturado, os olhares faiscavam.

A noite estava realmente inebriante e Beatriz, deixando-se levar, acabou passando mal. Por um momento achou que o rapaz fosse se aproveitar dela e se ressentiu de ter dispensado a amiga, mas ele foi mais que um cavalheiro.

Chamou um taxi e a acompanhou até onde ela morava. Ele ajudou Beatriz a subir os três andares de escada do pequeno prédio e quando chegaram na frente do apartamento da garota, ela disse:

– Você é uma pessoa incrível. Desculpe por isso, estou envergonhada. Mesmo com a voz mole, estou sendo sincera.

– Eu sei, e não fique envergonhada. Sinto-me lisonjeado e vejo seu abuso como um indicador de satisfação. Se a companhia não fosse boa, aposto que você teria prestado mais atenção aos drinques – Beatriz riu, tomou o rosto do rapaz nas mãos e o beijou, ele retribuiu. Mal tinham se afastado quando a garota não pôde controlar uma ânsia que lhe subiu a garganta e golfou um pouco na própria blusa e calças.

– Ai meu Deus!

Beatriz escondeu o rosto nas mãos e a noite terminou ali. O rapaz bateu na porta e foi atendido pela amiga de Bia que morava com ela. A moça agradeceu os cuidados do rapaz e se despediu dele, indo cuidar da companheira de apê que não estava nada bem!

No outro dia, conversando com a amiga durante o café, ainda com a cabeça rodando, Beatriz contava empolgada sobre a noite anterior, mas ainda se sentindo envergonhada pelo final dela.

– Ele nem ligou, amiga, pode ter certeza! Que sujeito simpático. Qual é o nome dele?

– Não sei.

– Como assim? – perguntou a amiga,

– Foi uma brincadeira nossa ontem a noite e eu não sei o nome dele, mas vou saber logo – e Beatriz disparou para o quarto.

– Vocês combinaram de se ver de novo?

– Mais ou menos… cadê minha calça?

– Ta na máquina de lavar, você tinha vomitado nela e tava um cheiro horrível de vodka com morango.

– NÃO!!! – Beatriz correu para pegar sua calça, mas ela já estava no varal. A garota colocou a mão no bolso, mas não encontrou nada além de farelos do que uma vez fora um guardanapo com um número de telefone anotado!

Durantes várias semanas Beatriz continuou indo ao mesmo bar e se sentando no mesmo local e pedindo “orgasmos múltiplos”, mas não viu mais o seu companheiro anônimo, aquele rapaz que a fez sentir-se tão bem e estranha: “aquele incômodo delicioso”, como ela passou a chamá-lo só para si.

Vários rapazes vinham falar com ela, mas nenhum deles mexeu com ela como ele fez. Sentia um vazio em todas aquelas cantadas prontas e gestos decorados, ninguém era tão espontâneo como ele.

Beatriz olhava ansiosa para a porta do bar a cada vez que alguém a abria, esperando que dali surgisse o seu incômodo delicioso. E nunca mais ninguém perguntaria seu nome de uma forma tão cativante e sorridente.

A melhor cantada foi aquela que a deixara pedindo por mais e tendo de menos…

 

 

A imagem é daqui

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