Série Legião: texto de reflexão, das melhores e piores coisas da vida

Rodem a música, leiam o texto e não se esqueçam que somos todos grãos de areia… partes de uma praia linda.

pai-filho_preparada O detetive Renato chega em frente ao prédio do subúrbio, no meio da noite, com uma sensação de cansaço. Adentra o local. Vê estátuas e cofres e paredes pintadas, o lugar se propunha a bom gosto apesar de antigo.

– Ninguém sabe o que aconteceu? – pergunta.

– Ela se jogou da janela do quinto andar – responde um de seus subordinados, Paulo, apontando para um corpo que jaz caído, no pátio interno do edifício.

A cena machuca o detetive.

– Ah, meu Deus! Nada é fácil de entender…

No mesmo momento, na casa de Renato, sua esposa grávida abraça o filho de cinco anos do casal, que acabara de despertar assustado.

– Dorme agora. É só o vento lá fora, diz ela, ninando a criança.

– Mãe, quero colo – e ela o abraça mais forte.

De volta à cena de suicídio, Renato conversa com alguns adolescentes que se acumularam para ver o ocorrido.

– "Vou fugir de casa", foi isso mesmo que ela disse? – questiona o detetive.

– Sim. Outro dia, de madrugada, ela bateu na minha porta perguntando "posso dormir aqui com vocês?" – responde uma garota do apartamento em frente ao da jovem morta – ela parecia triste, acho que era medo do futuro.

Aparentava ser mais um caso de angústia adolescente que se tornou crítico, mais uma alma que não suportava crescer.

Renato se afasta, vai até o telefone e disca para casa.

Na residência do detetive.

– Estou com medo, tive um pesadelo. Cadê o papai? – pergunta o filho de Renato no mesmo instante em que o telefone toca. A mulher atende, é o marido.

– Amor, aconteceu algo aqui e… bem, só vou voltar depois das três.

Na cena de suicídio, Paulo vê Renato ao telefone e pergunta:

– Aconteceu algo com sua mulher? Já vai nascer?

– Está perto, mas não é isso, está tudo bem com ela.

– Já escolheu o nome, chefe?

– Meu filho vai ter nome de santo, meu amigo!

– Como o meu, então – se anima Paulo.

– Quero o nome mais bonito! Ainda não decidi, brinca Renato, que volta para o seu trabalho e encontra a mãe da garota de 15 anos, que se suicidara, ajoelhada ao lado do corpo, segurando a mão da filha. Pela dor que ela demonstra Renato percebe que não há crime, apenas uma garota que desistiu.

Ele se aproxima da mulher e ela só consegue balbuciar com os olhos cheios de lágrimas e a voz embargada:

– É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se você parar pra pensar, na verdade não há, não há. Ah, minha filha…

Renato não tem reação diante do sofrimento daquela mãe, ele olha todas aquelas pessoas ao redor, mas só enxerga pais e filhos. Ele não é um policial, é um pai que se compadece com a dor da mulher.

De repente invade sua mente uma memória de algumas semanas atrás, quando estava com seu filho no parque.

– Pai, me diz porque que o céu é azul – pediu o pequeno e Renato achara graça na inocência dele.

Na mesma tarde, quando falavam do trabalho do detetive, o menino, querendo entender o motivo de precisar haver pessoas para lutar contra pessoas más, pediu novamente:

– Pai, me explica a grande fúria do mundo!

De início Renato se impressionou com o como aquele menino sabia uma palavra como "fúria", mas a sensação logo deu lugar à uma profunda tristeza – até meu filho, que ainda nada viveu, sente que há algo errado, uma sombra encobrindo a todos nós.

O detetive despertou de sua lembrança ao ouvir a voz duma senhora velha, vizinha da garota morta.

– Isso não está certo, são meus filhos que tomam conta de mim. Uma mãe nunca deveria ter de enterrar sua filha – Renato concordou mesmo sem dizer palavra, e voltou ao trabalho, interrogando a todos.

"Eu moro com a minha mãe, mas meu pai vem me visitar"; "eu moro na rua não tenho ninguém"; "eu moro em qualquer lugar"; "já morei em tanta casa que nem me lembro mais"; "eu moro com meus pais".

Eram tantos casos diferentes, crianças do prédio, outras que moravam na rua e entraram para ver o que se passava. Renato via que o espetáculo grotesco não era a morte ali estampada, mas a vida ao redor. Crianças abandonadas que lutavam para viver, e as amparadas que não suportavam a pressão do cuidado e a ânsia do futuro que as sufocava.

No chão, a mulher ainda repetia suas palavras, como um mantra.

"É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se você parar pra pensar, na verdade não há!"

Alguns dos adolescentes ali cochichavam, acusando a mãe da garota de 15 anos pelo suicídio, numa espécie de compadecimento em grupo pela idade da menina.

A menina não suportou crescer, pensava Renato, ou não suportou ver que um dia se transformaria num adulto, acho que estamos dando péssimos exemplos: distantes, preocupados com um cotidiano apressado e sufocante que não nos levará a nada, precisamos ser mais simples.

O detetive se sentiu pequeno, mas ao mesmo tempo indignado, com uma dor no peito que só a angústia jovem pode proporcionar.

"Sou uma gota d’água, sou um grão de areia", dizia para si, "mas quem é diferente?". Em vez de cumprir seu trabalho e dispersar a multidão ele inverteu toda aquela lógica objetiva e questionou os jovens, como se questionasse a si mesmo.

– Você me diz que seus pais não entendem, mas você não entende seus pais. Você culpa seus pais por tudo, isso é um absurdo! São crianças como você.

E os jovens ali viram em seu olhar um brilho de verdade que mexeu com eles. Ele continuou.

– E o que você vai ser quando você crescer?

E cada um ali viu que ninguém cresce, somos eternos adolescentes buscando uma identidade e um lugar no mundo. Os jovens se entreolharam e pouco a pouco se aproximaram, abraçaram-se, colocando a mãe da jovem caída no centro do círculo. Um consolo melhor que qualquer palavra. A união de pais e filhos, a igualdade perante a impotência diante da morte e da perda. Um círculo.

O telefone de Renato toca, é sua esposa, precisa ir ao hospital, seu filho vai nascer.

Ele sai dali apressado, quer chegar logo em casa, levar sua mulher ao hospital e conhecer o novo pequeno.

Só duas coisas estão em sua mente: estar com sua família e a frase que continua ecoando em seu coração. É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã…

 

 

A imagem é daqui

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