A origem do mundo - Gustav Courbet A imagem ao lado chama-se A Origem do mundo (Gustave Courbet).

Comecemos então pelas perguntas que, afinal, são os pequenos motores que, alfinetando ou colocando pulgas atrás das orelhas, movem o mundo.

Por que a imagem teria este nome? Coxas, uma vagina (peluda), um seio descoberto e um ventre, esta é a origem do mundo.

A resposta seria rápida: mulheres são responsáveis pela vida, são geradoras, logo são a origem do mundo…

Faria sentido, mas existem entraves. Para começar não foi representada uma mulher mítica, como Eva, por exemplo. O ventre em si também não é o puro destaque, mas disputa lugar com a vagina e o seio. Se fôssemos destacar genitálias como origem mundana, o pênis também entraria no páreo, afinal, apesar das fertilizações artificiais, não é o homem parte integrante deste processo?

Vamos mais além, a imagem não se chama a origem da vida, mas sim do mundo. A palavra "mundo" pode indicar um bocado de coisas, desde planeta até classes sociais, e é aí que fica interessante a conversa. Quando falamos de mundo (o seu, o meu, o nosso, o deste lado ou do outro) o contexto automaticamente supõe uma cultura, quem sabe uma sociedade ou, pelo menos, seres com linguagem. A origem do mundo é diferente da origem da vida. O mundo é o início do homem como ser sociável, em bando, em grupo, criando e participando de uma cultura.

Chegamos a mais questões neste ponto. Por que, então, a imagem feminina e a determinação de origem do mundo? Não que eu esteja esbanjando um pensamento focado no masculino, mas quando se fala em sociedade e cultura fala-se em transmissão, herança e memória. Corrijam-me se falho neste ponto, mas a herança mais ínfima que carregamos em nós é nosso próprio nome, o primeiro e o sobrenome. E, geral e historicamente, este segundo não é determinado pelo pai?

A origem do mundo supõe cultura, a cultura supõe memória, a memória supõe paternidade… mas a imagem é claramente feminina. Aí alguém diz: "mas os judeus, por exemplo, têm sua descendência pelas mulheres". Sim e não, eu retruco.

Diz-se que para que nasça um judeu legítimo o ventre deve ser judeu de nascença, logo, apenas uma judia poderia originar a continuidade do povo hebreu, mas a paternidade não se exclui. Afinal de contas, quando falamos na história de tal povo vemos heróis como Abraão, Isaque e Jacó e a linhagem segue pelos homens.

Para facilitar (ou complicar) a história, pensemos em tudo isso ao mesmo tempo: mundo, cultura, sociedade, memória, herança, paternidade, maternidade, hebreus e… ora bolas, tudo isso supõe uma continuidade, logo falamos de família, mas o mais importante, a família é a origem do mundo. Mas afinal, por que diabos continuamos a nos reproduzir e dar continuidade a esse modelo de mundo, que nem sempre agrada?

Digo, tirando o fato óbvio do prazer que o encontro de corpos oferece, e lembrando que as sociedades antigas já tinham métodos contraceptivos, a pergunta é: por que temos filhos? Por que originamos cultura, continuidade? Por que demos origem ao mundo?

Para responder recorro ao recurso de destrinchar. Para começar, finalizemos… O dispositivo mais legal que temos é o de contraposição, ou melhor, o de tomar as coisas pelo seu oposto. Logo, pensando dessa forma, chegamos a um ponto em que a origem do mundo se resume pelo seu fim: a morte!

A descoberta de um fim

E num belo dia um homem (ou uma mulher) acordou e se tocou de que iria morrer. Ele já tinha visto como outros membros daquela "gangue nômade", ao serem feridos ou alcançarem determinada idade, paravam de "funcionar" e ficavam inertes, num sono profundo e que durava mais que o normal, tanto mais que seus corpos apodreciam e eram comidos por animais e vermes sem que eles despertassem.

Idade… essa palavra ou a concepção por trás dela passou a indicar algo que antes não tinha tanto sentido, o tempo. Antes medido no tamanho e na coloração de barbas e cabelos, signos do corpo que gritam nossa finitude.

O tempo agora era um problema. Ora, se outros morrem, se sou semelhante a esses outros, quer dizer que também morrerei. E este pensamento instaura o núcleo da humanidade.

É por descobrirmos que somos mortais, por sabermos que o amanhã é irreal até que se torne verdade, e uma mentira que se esvai a cada segundo passado, pois o presente é minúsculo, que nos damos conta de que precisamos ser algo mais. O narcisismo do homem não suporta seu próprio fim.

Cultura

O homem sonha. Outros animais também sonham. Entretanto, é apenas o homem que parece se incomodar com estas imagens oníricas depois que elas desvanecem. Meu cão se mexe todo enquanto sonha correr, ou estar com uma cadelinha linda de laço rosa, por exemplo (cor que não deve afetar muito seus sentidos, mas mantenhamos o exemplo), mas assim que eu o chamo à realidade, ele se levanta e me pede um pedaço de pão. Nunca me pareceu pegá-lo desprevenido refletindo acerca do sonho de corrida ou da cadela. Quando acordado, se vê um campo onde possa correr, corre; se vê uma cadela com a qual possa copular, faz a tentativa; se vê um pedaço de pão em minhas mão, tenta roubar (e ele é bom nisso), mas não sonha acordado com o que sonhou dormindo.

O homem sonha dormindo, sonha acordado, sonha estar sonhando, sonha para viver e sonha viver eternamente. Para Ivan Bystrina, em seus Tópicos de Semiótica da Cultura, os sonhos seriam parte da base cultural humana, mas não porque sonham apenas, e sim pela impressão que esse imaginário deixa em tais seres, nós.

Ao lado dos sonhos, outro fator determinante da cultura seriam os jogos. Animais jogam e nós humanos também o fazemos. A brincadeira acontece dentro de um espaço determinado, com regras explícitas, que podem ser quebradas ou não, dentro de um período de tempo e etc.

Assim como os jogos e os sonhos, dois outros fatores, segundo Bystrina, vêm contribuir para as raízes de uma cultura, de uma segunda realidade. As psicopatologias (que podem ser desencadeadas por questões orgânicas ou não) e as situações de êxtase e euforia (com a ajuda ou não de elementos químicos, rituais e etc.).

Assim animais jogam também, brincam, sonham, ficam eufóricos ou podem ter claros problemas em suas estruturas psíquicas, mas os efeitos em um (homem) e outro (animais em geral), são bem diferentes.

À beira do abismo

Edgar Morin, em seu livro O paradigma perdido relembra que os túmulos mais antigos conhecidos são os dos neanderthaleses e estes apresentam alguns indícios curiosos para se pensar como essa galera antiga lidava com a morte. Nos túmulos os mortos geralmente são encontrados em posições fetais, com pinturas ao redor ou nos próprios ossos, índices de pólen (apontando para cerimônias com flores), ou mesmo foram enterrados com armas e outros objetos.

Não fica tão difícil imaginar o porquê de tudo isso. Se fosse apenas uma questão de proteger os vivos da decomposição dos mortos os corpos poderiam ter sido apenas enterrados, incendiados quem sabe (se conhecessem e dominassem completamente o fogo), ou mesmo largados a uma distância pelo caminho ou atirados ao mar ou rios…

Os indícios apontam para cerimoniais, o que, por sua vez, bifurca-se. Por um lado o medo, por outro a esperança, ambos amparados na mesma fé, a de que a vida não se encerra neste mundo e da forma como conhecemos.

Freud mesmo, em Totem e Tabu, fala de tribos onde os membros vivos (e é óbvio que os mortos não poderiam) realizam cerimônias diversas para afastar o descontentamento dos mortos de si ou atrair sua simpatia. Para o homem, existe de fato essa outra vida.

E voltamos a Morin quando ele fala da brecha que se abre. Por um lado o homem reconhece sua mortalidade, por outro crê, ou aponta na direção da esperança, em uma imortalidade. E se não supõe algo eterno, pelo menos supõe algo que ultrapasse, nem que por um breve período, isso que conhecemos por vida. Está aberta a brecha para as crenças, religiões, sonhos, explicações mágicas e, acima de tudo, para a busca por essa tal imortalidade, ou "transmortalidade", como sugere Morin.

É nossa forma de transpormos o abismo que insiste em nos encarar. "Quando você olha muito tempo para o abismo, ele olha para dentro de você", Nietzsche.

Natureza tomando consciência da consciência

O homem é essa parte da natureza que toma consciência, e mais, toma consciência de que tem consciência e aí se torna hipercomplexo. Pelo fato de se saber sob o julgo da natureza (e Freud destaca bem o quanto isso é um dos problemas que nos causam mal estar) o homem é parte dela, mas por acreditar que a transcende e que viverá um algo além, o mesmo homem fica persuadido de que é mais.

Nesse movimento todo, e aqui juntamos muita coisa (sapiência da morte, sonhos, jogos, esperança, consciência…), o homem tem um dispositivo muito interessante a seu favor. Cada um dá a ele um nome. Morin chamou de duplo, Lacan de imaginário, mas o fato é que temos uma fábrica de imagens em nossa mente e ela é malandra o suficiente para criar em cima da suposta realidade que captamos do externo.

De uma maneira rasa (bem rasa), lembremos dos homens das cavernas. Pintar um homem caçando um animal numa parede indica não apenas o retratar de uma narrativa, mas também que alguém possivelmente se representou ali… há uma imagem de si que se descola do sujeito e se imprime em algum lugar, seja ele físico ou mental.

Caso alguém argumente que o autor do desenho não foi o mesmo caçador, peço dois momentos de atenção. No primeiro, imagine que o caçador, mesmo não sendo o autor do desenho, depare-se com sua representação, o que se cria ali? No segundo, pense em você mesmo em qualquer situação que seja, conversando com um amigo, jogando bola ou dando um beijo naquela garota linda… entendeu? Caso não, explico…

Uma das primeiras coisas que nossa mente faz é visualizar uma situação fora de nosso próprio corpo, como se fôssemos espectadores de nós mesmos. Você se vê beijando a garota, chutando a bola ou falando com o amigo, mas o ângulo pelo qual se recorda do fato (ou o imagina) é sempre diferente daquele pelo qual ele ocorreu ou mesmo poderia ter ocorrido. Para os menos místicos que descartam a viagem astral, fica a dica de que isso é a nossa imaginação, o duplo. Você se representa mesmo nunca podendo vivenciar o fato daquela forma. Vê-se como vê a um terceiro.

Loucura

E de repente tudo isso parece loucura. Mas, como diria Lacan, a loucura é o limite da liberdade do homem ("O ser do homem não só não poderia compreender-se sem a loucura, mas não seria do ser do homem se não transportasse a loucura como o limite da sua liberdade" – 1972).

O que a morte, os sonhos, o imaginário, o duplo, a brecha, o abismo e a consciência têm a ver com o título do texto e a origem do mundo? Não vejo nada de legado, amor, herança, colecionadores ou mesmo Salomão (aliás, o que diabos tudo isso tem a ver com a religião)?

Vamos a isso, então. Apenas para tirarmos um problema da frente logo de cara, esclareço que não falo aqui de religião apenas. É claro que elas vêm como um bálsamo para nossa angústia, mas não fazem o mesmo todas as outras produções do homem? Este sim é o nosso ponto e onde tudo se encontra. O final da angústia, o poder de amar, o deixar a herança, a busca pelo ser único, a coleção e etc.

Do fim para o começo

Iniciamos pela morte para voltar à vida. Freud coloca que as energias sexuais no homem geram dois tipos básicos de pulsões. Pulsão de vida (Eros) e pulsão de morte (Thanatos). E o que nos interessa aqui é esta primeira. Ora, se falamos aqui em medo da morte ou a criação de um dispositivo psíquico para crer que ela (morte) pode ser superada, falamos, afinal de pulsão de vida. Tanto mais por este Eros que podemos falar de origem.

Eros é amor e se Freud recorreu aos gregos, por que deixaríamos de fazê-lo, já que tentamos entender aqui o funcionamento da origem da família e da continuidade (base do mundo)?

Amor

Posto que teme a morte, o homem procura sua superação. Entretanto, nosso querido Sigmund já nos mostrou em "O mal estar na civilização", que somos constantemente assolados pelo mundo natural. Além das imposições da sociedade, para Freud, os outros fatores que causariam mal estar no homem seriam o não-controle dos fenômenos naturais e, obviamente, a nossa degeneração.

Em palavras simples o homem quer negar que a morte lhe chegará, mas sabe que virá. Seu narcisismo não aceita que seu Ego possa desaparecer simplesmente. É a velha história de saber e não crer, que poderíamos representar evocando o personagem de Cypher no primeiro filme da trilogia (infelizmente trilogia…) Matrix. O diálogo do rapaz com o agente durante um jantar é emblemático. Ele sabe que a Matrix é falsa, que aquilo não é a vida real, mas ele crê que é bom e mil vezes melhor do que viver numa realidade toda ferrada. Não preciso relembrar a íntima relação com o mito da caverna de Platão onde os acorrentados negam-se a reconhecer um mundo além das sombras.

E, já que chegamos em Platão, sigamos por ele.

Em sua famosa ode ao amor, O Banquete, Platão traz o discurso de sete entusiastas desse nobre sentimento que, durante um banquete, tentam defini-lo.

Como sempre acontece, quem se destaca é Sócrates, mas dessa vez não se destaca por sua sabedoria em si, mas pelo que absorveu da sacerdotisa Diotime. Entre muitas reflexões que não cabe relembrar define-se que o homem deve amar aquilo que é bom. O amor deságua, então, no desejo de possuir o bem, o belo e não apenas isso, mas possui-lo perpetuamente.

Diotime facilita e resume o amor "na geração do belo tanto no corpo como no espírito". E cá está o que queríamos: o amor é criar o que acreditamos que seja belo para que o tenhamos perpetuamente.

Já que estamos nos gregos, relembremos Hipócrates quando diz "breve é a vida, longa é a arte". Que melhor forma de se perpetuar o belo que não pela sua criação… e as artes definem bem isso. Se não podemos dizer que a arte seja perpétua, ao menos nos é fácil afirmar que ela participa desta transmortalidade de que nos falou Edgar Morin, ou seja, ela ultrapassa a finitude da mídia primária, o nosso corpo (segundo Harry Pross), a partir do momento que se imprime num suporte mais perene, fora de nós.

"Ok, a nossa obra permanece e nós morremos, legal! Isso pode dar até um alívio temporário, mas eu nem morri e já fico puto de saber que, mesmo que qualquer coisa que eu deixe perdure, não terei uma entidade atuante em meu nome, ou seja, a obra será boa por si só e não pelo seu autor, estarei imóvel do mesmo jeito". A pergunta então é: como manter-me em movimento mesmo depois de minha morte, como continuar criando?

Bem, a resposta é simples e elucida ao que queríamos, mas voltemos ao Banquete. A sacerdotisa destrincha sua ideia a Sócrates dizendo que todos os homens trazem em si o poder de gerar segundo o corpo e o espírito. Ela diz que depois de certa idade, os homens sentem o desejo natural de procriar e que essa ação só pode resultar no belo (e antes que algum engraçadinho aí fale das pessoas horríveis que podem nascer, eu complemento). "Da união do homem com a mulher resulta uma criação. É obra divina, porque a geração e parturição garantem a imortalidade a todo o ser vivente e sujeito à morte".

Pronto! Sabendo que a noção grega de belo vem dos deuses e que os deuses são os criadores e geradores da vida, portanto da beleza, nada mais natural que colocar o dom de gerar a vida que é a dado na relação entre homens e mulheres como da ordem do divino e do belo. Isso especialmente atentando ao fato de que a geração é de corpo e espírito, ou seja, supondo um nascimento de um ser humano com um campo psíquico hipercomplexo como lembramos no início do texto, supõe-se também que ele irá se reconfortar na ideia da imortalidade e, portanto, que tenha um espírito como o do pai.

"Por ela (geração) todo ser que nasceu mortal participa do eterno e imortal", Diotime.

Atando pontas

Atemos então a ponta solta que deixamos no capítulo anterior. Como manter-me em movimento mesmo depois de minha morte, como continuar criando? Ora, por meio da geração, ou, mais claramente, de filho(s). É o meu filho, fruto de meu corpo e espírito, que vai carregar minha herança, meu legado e continuar as realizações que terei de interromper por conta do atropelo temporal e insaciável da natureza.

Ensinarei tudo a ele e espero que antes de morrer eu consiga passar-lhe tudo o que quero fazer, assim como fez Davi para Salomão.

Terreno arenoso

E, se vamos falar de bíblia, tomemos, de início, a afirmação máxima da ressurreição de Jesus que embasa a fé cristã, "o último inimigo a ser vencido é a morte". O contexto pode não ser esse mas o homem vence a morte por meio de seu legado.

Chegamos, então, a Salomão e Davi. Este último era pai do primeiro. Davi foi o rei segundo o coração de Deus e apesar de ter tido vários inimigos foi misericordioso com muitos, apesar de também ter sido sacana com algumas pessoas (Davi queria ter para si Bate-Seba, mulher de Urias, um de seus soldados, e o enviou à frente de batalha para que morresse e ele ficasse com a garota, o plano deu certo e dessa união duvidosa nasce Salomão).

Quando Davi morreu, as primeiras providências de Salomão foram eliminar Joabe e Simei, dois homens cujo pai de Salomão havia tido problemas, porém perdoado.

O filho de Davi começa seu reinado fazendo o oposto do pai. Muito pode ser dito de Salomão, mas um de seus feitos notáveis foi ter construído o famoso templo para o Senhor (cerca de 480 anos depois dos hebreus terem saído do Egito), tarefa que Davi não realizou. Salomão inicia fazendo o oposto do pai e termina fazendo o que ele não chegou a realizar. Aqui temos algo que fala muito do legado e da herança… e somos obrigados a mudar o foco do pai para o filho.

De pai para filho

Se estávamos preocupados com o indivíduo do por que e do como deixaria um legado, chegamos no ponto em que o fato se consuma. Uma pessoa morre, deixa um filho, mas resta uma pergunta… por que o ciclo recomeça? Sendo bem simples, se a coisa fosse simples assim a humanidade teria encerrado umas três gerações depois do início.

Explico. Supondo que um homem nasça, realize coisas e deixe para seu filho suas vontades que não conseguirá realizar pelo seu diminuto tempo no mundo, e morra, temos uma finitude declarada. O que quero dizer é que, por melhor que seja a pessoa, e justamente por sua finitude, não poderia deixar uma lista de tarefas infinita, assim, se o pai 1 deixa tarefas para o filho 2, mesmo que sejam muitas, elas podem ser concluídas no neto 3 ou em seu filho. A questão é fácil: o ciclo continua porque, afinal, falamos de sujeitos diferentes, que passam a desejar coisas diferentes e quererem se perpetuar também, por isso o mundo segue, o ciclo continua.

Colecionadores

Curioso é observar uma coisa. Voltando para Salomão e Davi. Quando Salomão mata os inimigos de Davi, além de bons motivos para isso, o rei tem também a autorização de seu pai, que antes de morrer pediu que o vingasse, por isso Joabe e Simei devem morrer. Fazendo o oposto de Davi no início de seu reinado, Salomão realiza o desejo do pai. Quando constrói o templo, não realiza o pedido de Davi, mas eleva seu nome acima do do pai, formando o ciclo da baliza do sujeito.

O passado de um homem é importante, as pessoas querem e precisam saber de onde vieram. Se não tiverem isso, algo lhes falta, fica-lhes um vácuo, que normalmente é preenchido com um imaginário fértil e a tentativa de solidificar em objetos concretos aquilo que lhe faltou como narrativa.

Quando digo que o sujeito precisa conhecer o que o antecedeu, não me refiro a uma presença física, mas em especial a uma narrativa, um discurso. O passado precisa estar presente para que o sujeito siga em frente, para o futuro.

Não raro vemos pessoas que têm algo um tanto enevoado sobre seu passado e que se agarram a coisas físicas para construírem uma história para si, é o caso dos colecionadores. Não digo que todo colecionador busca um passado para si, mas é comum encontrarmos pessoas nessa situação que colecionam objetos diversos e são apegados em especial a coisas que os remetem a uma época da qual não foram participantes, como se quisessem dar forma concreta àquilo que não conheceram. É a tentativa de preencher essa lacuna da baliza.

A baliza

Os pais de um sujeito são a estrutura fundante de seu caráter. Aqueles que o investem de amor e libido, que impõem a lei e a falta, são os responsáveis, o gatilho para que o sujeito viva.

É sabido que o sujeito não precisa ser igual a seus pais nem totalmente diferente deles, mas essa baliza posta por estes seres é que definem o caminho deste terceiro, seja para se aproximar, afastar ou oscilar entre estes dois pontos. Assim, Davi é fundamental para que Salomão possa se locomover na vida e decidir se segue o exemplo do pai, se realiza seus pedidos, ou se será totalmente diferente dele.

Negar a baliza a um sujeito cria uma falta, em vez de liberdade presenteia-o com uma bússola que não aponta direção nenhuma. Se não for enlouquecedor, pelo menos trará sintomas. Assim, saber seu passado, conhecer de quem se herdou isto ou aquilo é o que determina o sujeito e permite que ele viva e continue o ciclo.

Uma possível resposta

Não é definitiva, como nada na vida é, mas o motivo do nome "A origem do mundo" para a imagem no início do texto é a família, o legado, o ciclo, afinal, de continuidade da vida.

Por que uma mulher (ventre)? – são as mulheres que servem de ninho para a semente da vida, são o terreno fértil onde germina essa aposta. São elas que investem a criança de libido, inicialmente, abrindo a possibilidade de que as pequenas se sintam amadas, desejadas, participantes de algo mais que um corpo sem controle até então.

Vagina? – A vagina é a porta de entrada, saída e finalidade. É entrada quando vista como o canal que receberá a semente da vida que deve germinar dentro do útero. É saída quando se mostra como a última porta vencida pelo bebê antes de ser jogado no mundo. É finalidade quando se fala de libido e pulsão de amor, pois o homem parece fálico, mas ele é que perde sua finalidade se está distante da mulher. Verdade é que um quebra-cabeças sem uma peça é faltante, mas ainda assim é algo. Entretanto, uma peça sem todo o seu entorno em nada se encaixa. O homem, no coito, unido à mulher disfarça-se de fálico, mas é ele que se completa ao se integrar ao corpo desta.

Coxas? – as coxas são o símbolo do apoio, o local de descanso e prazer que as crianças buscam no desespero ou quando querem adormecer em paz. Nas coxas podemos fechar os olhos sem medo e nos entregar como um todo. Ali praticamos nosso duplo, sonhos, joguetes, loucuras e euforias, fazemos arte, nossas primeiras obras de arte imaginária sonhando com grandes realizações no mundo.

Enfim, a imagem é uma mulher porque ela precisa ser mãe para exercer sua feminilidade por completo, ao passo que o homem não necessita ser pai para exercer sua masculinidade.

Logo, a origem do mundo não poderia estar relegada à imagem de um corpo masculino, que o é simplesmente, sem grandes metamorfoses (e quase como apenas uma ferramenta). É o feminino que origina o mundo, a família e o legado, mesmo sem um rosto em específico, como na pintura. Porque o mundo talvez se originasse e vivesse sem uma mulher, mas nunca sem todas elas e o que lhes é comum.

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