Carros-para-mulheresEm 1998, 64,4% dos potenciais motoristas (nos EUA), de 19 anos ou menos, tinham licença para dirigir. Em 2008 esse número caiu para 46,3% (os dados são da FHA – Administração Federal de Rodovias, na sigla em inglês).

Os dados acima são de um artigo (confira aqui) publicado no final de março, no The New York Times, que trouxe, novamente, o assunto automotivo à baila.

De acordo com a publicação, a montadora GM fez uma parceria com um dos braços da MTV de lá dos EUA para melhorar o relacionamento da marca (automotiva, não da MTV) com públicos jovens.

Basicamente, ocorre que os jovens parecem “não ligar muito para carros atualmente”, e a marca gostaria de continuar vendendo, obviamente. Assim, contrataram a consultoria para entender esse público e analisar onde poderiam estar errando.

O artigo levanta diversas questões para a “queda do carro”. De acordo com o texto, ele já não seria mais o sinônimo de independência e liberdade que já foi um dia, sendo que as questões de sustentabilidade auxiliariam a ver o produto mais como um problema que como uma solução.

Acredito que a questão seja dependente de outra.

Problemas

Não há como negar que a evolução da mobilidade urbana tem trilhado um caminho bizarro. As grandes metrópoles estão saturadas, aqui e lá fora. São Paulo nem precisa de esforço estatístico para entrar na cota de cidade parada, tumultuada, problemática e com falta de alternativas. O que nos levaria a conectar logo uma coisa à outra: o carro é um meio de transporte, transportar-se é mover-ser, quem tem carro nas grandes cidades praticamente não se move, logo, não há motivos para se ter carros; aliando-se a tudo isso tem a questão ambiental, jovens tendem a ser treinados para serem conscientes, logo: sem carros!

Aí você olha para o crescimento de vendas do mercado brasileiro, o acúmulo de veículos crescente nas ruas e nota que os brasileiros parecem ainda não ter perdido seu gosto por carros… e é verdade.

Se a problemática do abandono de carros fosse puramente uma questão urbana, que local melhor para fazê-lo do que aqui em Sampa? Temos trânsito, caos, nervosismo, poluição (ridiculamente “combatida” pela iniciativa estúpida Controlar – geração de grana para governo e empresa privada (a explicação perfeita de uma PPP) disfarçada de serviço), falta de segurança, altos impostos, etc.

Ao contrário da tendência, porém, os números de vendas crescem. “Mas o brasileiro é burro, não tem consciência sustentável, é egoísta e o transporte público é ruim demais para dar conta da bronca”, seriam as justificativas, e algumas delas até boas e sem base pura emotiva, mas sim na lógica, como a falta de estrutura adequada do transporte público (“um direito do cidadão, um dever do Estado”, aham!), mas será tão óbvio assim?

trânsitoHistória

Mulheres… para alguém apaixonado por elas como eu, elas devem sempre ser a razão de tudo. Mas não mulheres e ponto, mas sim a dinâmica das relações humanas baseada nas diferenças de sexo e na predominância (será que ainda?) de relações heterossexuais.

“As mulheres cuidam da casa”, e essa era a prerrogativa histórica que durou até o século XX, mas vieram as grandes Guerras. Não que não houvessem guerras antes, mas as grandes demarcaram um ponto de ruptura histórica. As mulheres adentram de maneira mais forte no mercado de trabalho (não sem discriminação, infelizmente), por conta da necessidade, e é aí que ganham terreno e visibilidade (apesar dos movimentos ditos feministas já virem adquirindo aspectos políticos desde o século XVII).

Pequena interrupção – Cuidado com o termo feminismo. Não gosto desse movimento. Explico rápida e rasteiramente. Lutar por direitos iguais, salários equiparados, voz ativa e quebra de ideias ridículas de inferioridade… enfim, exigir seu direito de cidadão(ã), ao meu ver, não é feminismo, é simplesmente obrigação do ser humano contra qualquer tipo de submissão não-voluntária (seja de homens ou mulheres). Entretanto, querer apagar diferenças naturais, por assim dizer, é estupidez. Homens e mulheres são diferentes e não trato aqui nem das escolhas sexuais que depois se determinam, existem questões físicas, biológicas, hormonais e que afetam diretamente o comportamento, estrutura psíquica e sentimentos. Logo, anular diferenças é perder o que de melhor os dois sexos podem oferecer justamente por serem diferentes. Machismo e feminismo parecem dois conceitos de crianças birrentas querendo atenção.

Voltando – Um artigo da Elisiana Renata Probst (aqui) fala da questão (histórica):

“Isso começou de fato com as I e II Guerras Mundiais (1914 – 1918 e 1939 – 1945,

respectivamente), quando os homens iam para as frentes de batalha e as mulheres passavam a assumir os negócios da família e a posição dos homens no mercado de trabalho. Mas a guerra acabou. E com ela a vida de muitos homens que lutaram pelo país. Alguns dos que sobreviveram ao conflito foram mutilados e impossibilitados de voltar ao trabalho. Foi nesse momento que as mulheres sentiram-se na obrigação de deixar a casa e os filhos para levar adiante os projetos e o trabalho que eram realizados pelos seus maridos.”.

Não pretendo aqui fazer uma incursão histórica nos mínimos detalhes, mas sim dar alguns termos que nos ajudem a pensar. As mulheres ganharam seu espaço na sociedade e, mesmo ainda existindo focos do contrário, hoje elas são praticamente dominante na maioria dos mercados.

Trabalho e colocação social devida levam à independência e, aqui sim, chegamos ao ponto que eu desejava compartilhar…

A partir da década de 40 as mulheres se reposicionam socialmente. A briga aumenta e elas ganham terreno (que, ao meu ver, sempre existiu de maneira subjetiva, mas antes eram revelados por meio de sussurros aos maridos e não sobre palanques), agora elas tinham sua própria voz e poderiam usá-la.

As coisas funcionam como um processo e não acontecem da noite para o dia, até por conta da adaptação das pessoas. Minha avó, por exemplo, trabalhava fora de casa, mas a opinião de meu avô sempre pareceu mais forte nas decisões, até certo ponto (e em frente aos outros, por assim dizer). Minha mãe também trabalhava, mas sempre se mostrou em “pé de igualdade” com meu pai, nem mais nem menos, um equilíbrio. Não entro aqui no mérito de que toda relação tem ou não um dominante, o que digo é uma questão de espaço e cultura. Minha mãe já fora criada num contexto em que as mulheres tinham mais espaço. Minhas amigas e namorada já têm uma estrutura diferente, acostumadas com a independência e com pensamento liberto de amarras e etc. (sempre existem exceções, mas falamos do geral, do atacado e, portanto, do que ainda não foge demais à regra).

“Eu não preciso mais dele”

A tomada de espaço das minhas amadas se consolidou pouco a pouco (e talvez ainda falte galgar mais alguns degraus) e mudou o esquema.

Se a sociedade dos anos 60, filha direta dos pais “soldados”, já mostrava “aceitação” das mulheres nas instâncias sociais, sabemos, entretanto que o processo de “abertura” ainda estava no início.

Para uma garota numa sociedade tal, o que era independência? (ideia central detectada).

roupas-anos-60Era estudar, trabalhar (em áreas ainda restritas) e poder namorar um rapaz bem colocado, de emprego fixo e – aqui vai o pulo do gato para todas as músicas da Jovem Guarda e dos ritmos musicais que se seguiram àquela década – que tivesse um carro! Chegamos!

O carro era sinônimo de independência, colocação social e, claro, liberdade de ir e vir (rapidamente e, de preferência, com estilo).

Logo, o interesse masculino pelo carro também se determinava pelo desejo feminino, ou seja, eu, homem, desejo o carro porque ele me coloca na posição de desejado (objeto) pela mulher, mesmo que essas representações se articulem e o carro se torne o falo do homem e, portanto, o que vem lhe completar. Na verdade, o carro era a isca para a garota que, ela sim, viria para tornar o rapaz fálico, com carro e garota…

Desejo da mulher tornava o homem objeto. Quando ela “realizava” seu desejo, passava à posição de objeto, tornando-se, junto ao carro, o falo do rapaz – junto com a brilhantina, talvez – (e a vida toda nós articulamos tais posições de objeto, sujeito, desejante, desejado).

Os tempos mudam

E como mudam! A sociedade se altera e vem a década de 90, com gerações formadas com outro tipo de pensamento… Voltando à Elisiana:

“Para as mulheres a década de 90 foi marcada pelo fortalecimento de sua participação no mercado de trabalho e o aumento da responsabilidade no comando das famílias. A mulher, que representa a maior parcela da população, viu aumentar seu poder aquisitivo, o nível de escolaridade e conseguiu reduzir a defasagem salarial que ainda existe em relação aos homens”.

Já deu pra sacar até onde tudo isso chega, não?

Mulheres independentes, com renda própria, seu próprio carro e, logo, não “precisam” dos rapazes da mesma maneira (ou pelos mesmos motivos de antes) – lembrando que faço um recorte, não estou chamando as donzelas de interesseiras, é uma articulação cultural da qual me aproprio para dar forma à ideia.

Sem o interesse feminino pelas máquinas, os rapazes têm de encontrar outras “iscas” para atrair ou se fazerem atrativos às garotas. O carro perde sua posição, não é mais diferencial, pois elas agora têm acesso a ele praticamente da mesma forma… (e a abertura social para as relações homoafetivas deve contribuir nesse processo).

Agora, então, podemos levantar os outros motivos pelos quais o carro é “abandonado” pouco a pouco no mercado dos EUA. Sem atrair garotas (e nem garotos), poluindo, sendo uma despesa grande, etc… ele se torna um estorvo e os jovens perdem interesse, levando ao ponto de, no artigo citado no início, aparecer o dado de que 46% dos jovens motoristas, entre 18 e 24 anos, prefeririam o acesso à internet em vez de ter um carro.

Isso pode indicar outra tendência, de as mídias sociais darem mais visibilidade à pessoa e criarem uma nova forma de se colocar socialmente perante o sexo oposto (ou o mesmo, dependendo da escolha do objeto).

Dissonâncias

Esclareçamos aqui que trabalhei até então com uma visão bem voltada para dois países (mas que se aplica a outros), Brasil e EUA. Os dados da última citação da Elisiana são do Brasil em específico e a descrição cultural de algumas décadas se perde entre os dois mundos. Esclareçamos, então, as dissonâncias.

O Brasil copia muita coisa de fora e isso é um fato, mas no processo de cópia, atrasa-se, ou antes, as tendências chegam aqui pouco depois, como acontecia com os movimentos culturais europeus que demoravam a alcançar nosso continental território. Não é diferente nesse caso.

Enquanto a estrutura se altera lá fora, aqui nós finalmente viramos o “país do futuro” que tanto queríamos. Tivemos aumento de renda e a subida de classes, mais oportunidades e entrada de produtos no nosso mercado, novas fábricas e empresas pipocando mesmo com a crise comendo solta lá fora (e até, exatamente, pela crise estar lá fora) e, logo, chegou-nos o acesso a um estilo de vida que antes era só dos filmes.

O boom do carro aqui em São Paulo é o maior exemplo disso, a facilidade de crédito, financiamento, renda e etc. faz com que o mercado se torne um dos maiores do Brasil. Ocorre que as mulheres já estão mais independentes em nosso país e também estão comprando seu carro.

Os meninos, desavisados (alguns homens, hoje), parcelam como se fossem imóveis os seus possantes para, quiçá, conquistar uma gatinha; elas não dão a mínima e têm seu próprio veículo e todo mundo comprando é perfeito para o mercado, até que esbarra num problema.

Atraso estrutural

Como no nosso país tudo é feito “a toque de caixa”, é óbvio que não temos infraestrutura para comportar esse volume de frota. Homens e mulheres comprando e querendo usar seus brinquedinhos.celular no trânsito

Como sempre, o Brasil chegou num ponto de entroncamento histórico, por assim dizer, onde copia modelos externos e os aplica mesmo que a moda já “tenha passado”. Assim como convivemos, por um período de tempo no passado, com um regime de escravidão paralelo a um modelo capitalista, hoje convivemos com essa tendência dupla: aumento do consumo de carros com mudança cultural sobre as relações humanas.

A gente já se deu conta de que as grandes metrópoles estão intransitáveis, já vimos que Sampa está em colapso e não a um passo dele, mas consumimos os veículos em massa, para compensar a lacuna de “crescimento” econômico que tivemos durante anos (e ainda temos). Ou seja, em breve, se seguirmos o bom senso, o carro verá uma queda. Primeiro diminui-se a compra de novos, depois a de usados, em seguida passa-se a alternativas de mobilidade e, quem sabe, uma pressão social para reformas nas infraestruturas da cidade e do transporte.

O carro já não é o preferido lá fora porque não oferece mais o atrativo entre relações que antes significava. Aqui dentro as relações já deixam de ser pautadas por ele, mas a sensação de independência que ele traz ainda é forte, e o desejo guardado, por anos, de consumo se consolida em volume nesse momento.

Entre tendências de comunicação e mobilidade, os paulistanos parecem escolher ficar parados no trânsito enquanto paqueram pelas redes sociais de seus smartphones… que deveriam oferecer possibilidade de comunicação enquanto nos movemos e não uma distração para quando aquilo que deveria nos mover, na verdade, nos para!

 

 

Mulher no carro

Imagem trânsito

Meninas anos 60

Celular no trânsito

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