metodo perigosoAssisti um tanto apressado ao filme “Um método perigoso”. Há tempos que eu queria vê-lo e, mais uma vez, concretizou-se a profecia de que o trailer sempre serve para você imaginar um filme e encontrar outro. Talvez por ter me afundado nos últimos tempos em teorias mais Freudianas que Jungianas, esperava encontrar ali mais do charuteiro (sem referências a despachos).

Já fica de cara avisado que essa é uma leitura bem rápida e de superfície, mas talvez contenha partes importantes do filme, o que te impede, leitor(a), de brigar comigo caso perceba alguma prévia, um adiantamento da história, o malfadado spoiler.

Como já disse, esperava mais Freud, queria saber de forma mais intensa da relação dos dois, coisa que o filme dá uma pitada boa até, mas insuficiente para o meu querer infanto-egoísta-imaginário-criado-previamente, mais conhecido como expectativa.

O filme me pareceu trazer uma visão fortemente Jungiana, o diretor parece tomar parte na discussão, o que não é mau, toda obra carrega um olhar afinal.

Não posso negar que, mesmo sem conhecer a fundo, tenho uma forte atração pela teoria de Carl Jung. Não é o foco, mas ela carrega algo de muito místico que ainda me cativa. O Jung do filme é apresentado como um personagem que acredita de forma otimista nas coisas e que, mesmo sob as advertências de Freud, tenta curar, ou elaborar uma teoria de cura para as pessoas, para que encontrem o verdadeiro eu e se tornem aquilo que deveriam ser, que desejariam se tornar.

Parte do filme mostra como Jung parecia estar certo, seja pelos seus repetidos sonhos de devastação europeia pouco antes da guerra ou mesmo pelos estalos nas estantes, ao dizer que há forte ligação das pessoas com o meio e energias desconhecidas vagando por aí e não só a da sexualidade, força motriz para Freud.

O texto final do filme, que propõe dar um desfecho a uma história que nem sempre se fecha – uma vez que a vida em si não parece esperar um ápice de seus protagonistas para se encerrar –, traz mais forte a ideia de que Jung era o preferido da obra, não só pelo fato de dizer que ele foi um dos maiores psicanalistas de todos os tempos, mas também por relegar a Freud apenas duas linhas, falando de seu falecimento.

O filme é Jungiano, eu disse quando terminei de assisti-lo, mas outro pensamento rapidamente me invadiu. Todas as vezes que o personagem principal tentava ir contra as teorias de Freud, demonstrava cada vez mais em sua conduta que essas mesmas teorias eram bem sóbrias.

Seja pelo caso com a Sabina, ou com a outra amante que Jung veio a ter, ele demonstrou que Freud estava certo e, simbolicamente, todo impulso que ele precisava para seu trabalho e esforço vinha de momentos em que o seu objeto sexual preferido, Sabina, era negado. Depois, mais velho, a ausência da mulher fez com que tentasse buscá-la na amante seguinte, com vários atributos semelhantes. O filme é bem óbvio nesse ponto.

É a obsessão de Jung em ser “bom” e a contraposição do seu caráter com as suas atitudes que dá a ele força para produzir toda a sua obra “independente”, por assim dizer, mas muito ligada a Freud. Porque pretendente a diferenciação, Jung leva a cabo outra questão Freudiana, a proximidade dos opostos, ou melhor, como um marco (a figura paterna de Freud em relação a ele, por exemplo) que o amigo se torna na vida, Jung usa-o sempre de base, não importa para que lado corra.

Freud é constatado, assim, como o homem que desvendou o inconsciente e sua energia de forma mais clara, já que até ao fazer Jung escalar até o topo, a obra visual faz confirmar as ideias do psicanalista judeu.

Tal visão não desmerece nem um pouco a obra de Carl. Uma vez que Sigmund era um “doente” ele mesmo e elaborou toda a base da psicanálise, que ainda me permanece forte e constatada de diversas formas (o “me” se justifica como forma bem particular de enxergar as coisas)… o que, no meu imaginário infantil não exclui nenhuma energia e demais forças externas, sejam elas de cunho telecinético ou telepático (que Freud nem descartava, mas não dava bola para não ser rechaçado ainda mais do meio acadêmico), alienígenas ou divinas (algumas demoníacas também).

Assim, confesso ser difícil abandonar as teorias de Jung (e tantas outras), uma vez que, como ele, todos buscamos “cura”, ou seja, respostas e soluções para nossos problemas. Gostamos de um final feliz e adoramos crer num algo a mais. Seja esse algo fruto de uma conspiração que nos apavore ou de uma certeza que nos conforte. (Quanto à conspiração, fica aqui uma citação do livro “O Cemitério de Praga” de Umberto Eco, pág 89 – “Sempre conheci pessoas que temiam o complô de algum inimigo oculto – os judeus para o vovô, os maçons para os jesuítas, os jesuítas para o meu pai garibaldino, os carbonários para os reis de meia Europa, o rei fomentado pelos padres para meus colegas mazzinianos, os Iluminados da Baviera para as polícias de meio mundo – e, pronto, quem sabe quanta gente existe por aí que pensa estar ameaçada por uma conspiração… Aí está uma forma a preencher à vontade, a cada um o seu complô.”).

Não é que Freud não traga melhora, mas você se enlameia bastante antes de começar a ver resultado. Freud não é tão otimista e o é muito ao mesmo tempo: do ponto de vista da responsabilidade do sujeito. E é nessa afirmação, nesse compreender responsável de si mesmo, que fica um problema. Qual é afinal o esforço necessário que um sujeito deve empregar para “melhorar” ou se aceitar? E, se insatisfeito consigo, o que acontece se ele “descobre” que talvez não tenha forças suficientes para ser o que deseja, ou, quem sabe, descubra que não consegue deixar de ser aquele por quem não tem apreço?

Como um otimista que tento ser (e provavelmente tenho falhado bastante nessa missão ultimamente), vejo uma luz no fim do túnel pelo lado de Carl, o que não te tira (sujeito) totalmente a responsabilidade, mas quem sabe te amenize o peito doído.

Não pensemos, entretanto, que tudo são flores. Não adianta sentar e esperar que as coisas a sua volta se consertem ou que todas as soluções do mundo lhe apareçam num sonho. Como o próprio Jung disse “às vezes você tem de fazer algo imperdoável só para continuar vivendo (tradução bem livre da frase que – pelo que me lembro – era: sometimes you have to do something unforgivable just to be able to go on living). Essa afirmação tem tanta coisa implícita que me deixa até tonto. Para mim pode lembrar que deve-se arriscar sempre, mesmo que a desgraça pareça iminente.

Na película ela meio que indica que Carl teve que ser detestável em alguns momentos para poder sentir como é ser assim e ajudar aos outros, ou seja, “foi ao inferno e voltou para mostrar aos outros como é o caminho de volta”. Como aqui é do filme que falo, mantenho a rédea na minha cabeça.

A posição de Freud no filme como um pai que não quer perder a autoridade é também percebida, mas me ficou ainda mais a sensação de vingançazinha só porque ele era pobre e não foi na primeira classe junto com o Jung e aquela loira gata e rica (e corna) que era a mulher dele.

Quanto aos outros personagens, fica a atuação, que achei genial, da Keira Knightley como Sabina e do divertido Vincent Cassel como Otto Gross. Aliás, curioso esse personagem, que não conheço muito a história, mas que me pareceu apenas um boêmio sincero defendendo o direito universal ao prazer ou um perverso brincando com os muitos neuróticos do filme.

De qualquer forma, fica a dica de um ótimo filme, que pode não ter sido o que eu esperava pelo trailer, mas que com certeza mexe com nossa cabeça, nos faz refletir e entender o porquê do nome do longa, mesmo numa leitura rápida como a minha, leitura que, assim como a obra, tende a ser perigosa.

A psicanálise nunca é um método fácil, nem para o paciente, nem para o analista. Entretanto, quando se quebram barreiras, algo de muito interessante pode surgir.

Afinal, vale a frase de Freud chegando à América, com Jung, para apresentar seu método. “Acha que eles sabem que estamos a caminho levando a praga para eles?”.

Para quem curte o tema, vale conhecer o blog http://formasdexpressao.blogspot.com/ onde meu amigo Paulo Yaekashi escreve a respeito por um olhar Freud-Lacanianano.

A imagem é daqui – http://www.cinepop.com.br/filmes/metodo-perigoso.php

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