“Mas tu, quando orares, entra no teu aposento e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará publicamente”. Mateus 6:6

sozinho no quartoEle entrou no quarto silencioso vagarosamente, como alguém que anda com medo de acordar um bebê. Caminhava macio, como alguém que deseja o silêncio. Na verdade, ele desejava mesmo uma palavra forte, uma manifestação, diria. Era jovem, não mais um adolescente, apesar de se sentir como tal, mas jovem.

Não sabia se sentava, ficava de pé ou ajoelhava, não tinha o costume de falar com Deus assim. Decidiu ficar de pé, quem sabe circular um pouco, deixar as ideias virem junto com os passos. Não queria dizer muito. Nem sabia o que dizer.

“Oi, Deus! Eu deveria começar agradecendo, eu acho! Mas não sei direito. Bem, obrigado por tudo… Quer dizer, por tudo aquilo que parece vir de ti”.

“Deus, eu queria te pedir um caminho, um rumo. Não sei bem o que fazer. Veja que estranho. Minha vida está boa, tenho tudo de que preciso e até mais. Claro que não tenho tudo que quero, mas às vezes acho que inventamos quereres demais, desnecessários. Tenho o que preciso, o que tu me concedes me é suficiente, em certo ponto”.

“Ainda assim, resta em mim um vazio, um oco, um eco, como um espaço vago de uma peça não encontrada. Sei como manter-me vivo, mas não tenho motivos, digo, não sei pelo que lutar. Tenho em mim uma febre, uma força, um calor intenso. Tenho acesa em mim uma chama que parece vir de ti, a possibilidade de fazer tudo, mas que não sei exatamente a que direcionar”.

“É como ter a luz mais intensa e não saber o que iluminar. Como ter os melhores olhos e não saber escolher o que ver. Creio que essa chama nasceu comigo, sou um lutador, mas não sei quem está do outro lado do ringue, ou mesmo se há alguém ali”.

“Venho te pedir direção, que guie meus passos e me mostre o que fazer. Tudo é tão incerto. Nossos motivos se perdem, já não há em mim certeza. Mesmo agora, Pai, mesmo confiando em ti, ainda há uma ponta gélida de dúvida que percorre minha nuca. Um sussurro baixo que diz que eu estou errado e nada existe, que Tu não estás a me escutar” – ajoelhou.

“Levanta-te, Pai! Levanta-te e fala comigo, mostra-me, diga que não é uma invenção distante, fala-me o que fazer e mostre o caminho que minhas forças – as que me deu – devem trilhar. Aponta a direção e, seja qual for, seguirei”.

“Não me faltam forças, Senhor, faltam-me certezas. Essa é minha fraqueza. Tenho em mim tudo que me deste, todos os dons e talentos, e não sei onde aplicar”.

“Pai, se posso te fazer uma prece nesse momento, coloco meu coração na tua frente para que o encha como se despeja água num copo, até transbordar”.

“Deste-me a vida, dou-te de volta e em ti quero descansar, mas não sem antes ter feito valer a pena. Compraste-me a alto preço, por sangue inocente. Não posso devolver-te sem acréscimo, sem vida dentro de mais vida, mas apenas se for concedida por ti”.

“Deus, dá-me uma certeza e te darei um guerreiro”.

“Amém”.

 

*Imagem: http://oexcluido.wordpress.com/2011/04/27/o-passado/

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