SL – Série Legião: textos musicais

Toquem a música, leiam o texto, toquem o coração. Seja depois, ou mesmo antes das seis

sol-amareloPrólogo

Ela caminhou em minha direção, suave, linda, com o sol às suas costas, completando o amarelo de suas vestes. Nunca me esquecerei daquele fim de tarde. Daquele pôr do sol que se demorou só para assistir a minha amada vindo ao meu encontro. Pouco antes da noite. Pouco antes das seis…

Sereno

– Quem inventou o amor?

Ela veio até mim com aquele olhar baixo, suspirando enquanto sentava ao meu lado e deixava seus ombros caírem num ar de desalento.

– Me explica, por favor! – disse, fitando-me com aqueles lindos olhos de mel.

Tinha apenas 17 anos e eu 78.

“Quem inventou o amor?”, a pergunta era direta e deveria ser simples de responder, mas não era. Inicialmente fiquei calado, mas não consegui resistir quando ela me olhou daquela forma pedindo: me explica, por favor.

Clarissa estava de amarelo e me fez lembrar a primeira vez em que vi sua avó, minha esposa, hoje falecida.

– Vem e me diz o que aconteceu – retruquei com um sorriso simples e bondoso como só os avôs sabem sorrir (mesmo que os dentes não sejam os nossos). – Faz de conta que passou – completei, incentivando que ela se abrisse comigo.

– Quem inventou o amor, vovô? Me explica, por favor. Ele dói tanto, preenche tudo na gente.

– Não sei quem o inventou, Clarissa, mas posso dizer que era alguém muito sábio e que queria encontrar o mais forte dos motivos para vivermos. Ele dói, sim, mas você falou corretamente quando disse que ele nos preenche. Ele lota nosso ser e basta a fagulha certa para que essa dor se transforme em fogo, em força. Não sei o que se passa, minha querida, e acredito que talvez eu esteja velho demais para que você compartilhe suas histórias literalmente comigo, mas certas coisas não mudam, e o funcionamento do coração é uma delas.

– É tão difícil, vô! Às vezes parece que não vou aguentar…

– E não é para aguentar mesmo, o amor não foi feito para se guardar ou suportar, mas para ser vivido, foi feito para arriscar. Pequena Clarissa, pense dessa forma: você já sabe que tem algo aí no peito e que dói quando não sai. Já tentou expressar de alguma forma, então?

– Dá medo!

Não pude evitar outro sorriso nesse ponto. A eterna disputa entre o medo que causa dor e o medo de que a dor da decepção seja maior que a que já existe…

– É justamente por isso que o amor está aí e precisa ser tão forte, seja como for, ele é sempre melhor e maior que o medo.

Interlúdio

Todo coração bate em um ritmo, o meu batia no mesmo de minha amada.

As perguntas de Clarissa trouxeram a paixão que eu sentia por sua avó novamente à tona. Daqui vejo seu descanso, perto do seu travesseiro. Quase como se eu pudesse vê-la novamente ali, deitada ao meu lado propondo jogos, “vamos passar a noite toda acordados, depois quero ver se acerto, dos dois, quem acorda primeiro”…

Quem inventou o amor?

– Me explica, por favor, vovô, eu quero saber mais!

– Quem inventou o amor? – a pergunta saiu da minha boca enquanto eu fitava um ponto qualquer na sala.

– Isso! Me explica, por favor.

– Quem inventou o amor, Clarissa?

E ela repetiu sorrindo, entendendo que a conversa tomara um tom mais leve, menos dramático. – Me explica, por favor!

– Quem inventou o amor? Me explica, por favor… isso me lembra uma música, minha pequena.

– Qual, vô, eu não conheço!

– Versos de um poeta que se perderam no tempo, minha neta. Mas que continuam sempre a fazer sentido.

– E então?

– Não sei quem o inventou, Clarissa, mas o amor é uma jornada, um desafio, o mais belo deles. O que você precisa saber é que enquanto a vida vai e vem, você, todo mundo, procura achar alguém que um dia possa lhe dizer “quero ficar só com você”! E quando escutamos e dizemos isso verdadeiramente, vemos que toda a dor de antes ou mesmo depois – que falta que a sua avó me faz – valem a pena e não são nada comparados àqueles momentos de paixão intensa.

Clarissa se espantou um pouco com minhas palavras fortes, percebi seu sobressalto, mas logo seu rosto se iluminou, como se mil ideias e sentimentos fervilhantes surgissem naquele coração. Teve um leve tremor, como minha amada tinha sempre que se empolgava com algo, e me abraçou. – Obrigada, vô! Você é demais. E saiu correndo para a vida, para o amor.

Epílogo

– Quem inventou o amor? – minha amada me fizera a pergunta com os olhos brilhantes, deitada de lado na cama durante uma tarde de domingo em que decidíramos não sair dos lençóis. Pela janela entrava um sol gostoso que dava um tom de sonho à cena.

– Não sei, mas por que quer saber?

– Porque eu queria agradecer por ter colocado no meu peito algo que queima tão forte por ti…

Eu a beijei e fizemos amor por todo o dia, só parando ao pôr do sol, pouco antes da noite, pouco antes das seis…

 

A imagem saiu debaixo dos lençóis daqui

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