caronaEnvelhecer é meio complicado, não tanto pelas possíveis dores nas costas (que atribuímos sempre a um colchão), nem pelo fato de alguns desenhos perderem a graça (tanto porque outros ficam ainda melhores), mas sim porque a gente vê que as coisas podem ser um pouco estranhas entre as pessoas de repente.

Pode ser uma questão pura de classes sociais ou coisas do tipo, mas quando envelhecemos fica mais difícil de fazer as pazes em certas situações.

Que não tentem me enganar, sejam crianças ou adultos, todas as pessoas entram em atrito, especialmente com amigos e pessoas queridas, isso é normal.

O que não é normal é permanecer num estágio de “estou de mal” por tanto tempo que, quando se dá conta, o motivo da discórdia já foi esquecido, mas as pessoas mal se veem ou falam.

É por isso que eu digo que envelhecer é complicado e que, sim, poderia ser um problema quase financeiro.

Nessa sociedade sintomática em que vivemos (e todas, em todos os tempos, são), o carro é um ótimo exemplo de afastamento entre pessoas. Cada um compra o seu útero com rodas, fecha os vidros, ajeita o ar na temperatura que melhor lhe cabe e fica ali, alienando-se de tudo.

O carro, por si só não é o problema, e nem a briga entre amigos, por assim dizer, quando ocorrem. A questão é que, no desejo de cada um conquistar seu poluidor pessoal, e com um aumento na oferta de crédito – que visa endividar pessoas em longo prazo e fazer com que tudo na vida delas seja, na verdade, alugado e não verdadeiramente pertencente – as pessoas se distanciam.

Adolescentes, por exemplo, são conhecidos pelos amores repentinos, paixões intensas e brigas diárias com amigos e amigas. Que seja um fator da idade eu não discuto (e não é que estamos carregando isso para o resto da vida?), mas eles logo fazem as pazes, e mais rapidamente que os adultos tão “maduros”.

O raciocínio é simples. Você já é mais velho e sai com um grupo de amigos e tem uma discórdia com alguém. Irritado, pega seu carro e vai embora. Situação que tende a influenciar na permanência do status quo da intriga.

Isso porque quando estamos fechados, sozinhos em nosso carro, em nosso útero de rodas, tendemos a ter mais razão do que nunca. É naquele lugar “seguro” que nada nos atinge… nem reflexões posteriores de nossos possíveis deslizes.

Quando mais novo e, portanto, ainda sem o veículo ou a possibilidade de tê-lo, seja financeiramente ou por questão etária, sai com os amigos e uma intriga surge, você não vai embora logo de cara. Isso porque terá de caminhar por todo o caminho de volta, ou então pegar ônibus e metrô sozinho ou, ainda, ir de carona com o possível irmão mais velho ou pai da pessoa com quem se desentendeu.

É nesse forçar permanecer que as reflexões surgem. Você repensa o que fez, olha de novo para a pessoa, vê que não foi lá realmente grande coisa e, no caminho de volta, troca mais umas duas palavras que amenizam o clima, aí rola aquele tchau tímido, mas reconfortante.

Caso a pessoa deseje caminhar até em casa sozinha ou usar o transporte público mesmo, a coisa é ainda melhor. Caminhar nos faz pensar e, provavelmente, a pessoa com quem discutiu sentirá uma pontada de culpa pensando na sua volta sozinho para o lar, o que acarreta em um pensar no outro e iniciar o processo de desconforto para resolver a questão.

Todas essas constatações só podem ser verdadeiras… ou então são apenas reflexões dirigidas de alguém que acredita que o mundo já foi mais simples.

Bem, envelhecer é meio complicado de qualquer forma e, mesmo trocando o colchão, ainda estou com dores nas costas…

 

A imagem pegou carona daqui

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