SL – Série Legião: textos musicais

Rodem a música e leiam

cidade noiteEu quero uma bebida. Hoje em dia é só um copo de algo muito forte que me sustenta. Não vejo mais a luz do sol, agora eu não preciso vê-la mais já que sou meu próprio líder. Decido por mim mesmo e isso é maravilhoso… e horrível.

Quando ainda adolescente eu achava que estava indo para algum lugar. Tinha a vida inteira pela frente, todas as possibilidades do mundo em aberto. Bastava acreditar nos meus ideais, manter meus princípios, continuar imaculado, e nada poderia dar errado. O sol em todas as manhãs era uma promessa de vida e se a escuridão era convidativa, era apenas pelos mistérios que trazia em si.

Hoje eu ando em círculos, me equilibro entre dias e noites.

Minha vida toda espera algo de mim, a criança no meu peito me olha com decepção. O sol é uma afronta que revela meus defeitos, expõe sob uma lente nítida demais aquilo que não sou, o que deveria ou poderia ser. A escuridão não é mais convidativa, mas é minha casa: um casulo escuro e de breu que deixa minhas imperfeições de lado e onde posso me considerar uma sombra de mim mesmo.

É mais fácil encarar a sombra de hoje como algo distante do menino imaculado, assim posso dizer que, por mais suja que minha existência seja, ela não fere a memória do rapaz que tinha a vida toda pela frente. Não foi aquele garoto que tomou as decisões erradas e chegou até aqui, foi essa escória que hoje ocupa o seu lugar no mundo que tomou posse de algo que não lhe era de direito.

Vivo sempre num meio-sorriso, como se minha face se engessasse numa expressão que não desperta nem causa nada em ninguém; as noites de meia-lua me atraem pela falsa luz; e toda tarde é um sono de domingo, um entorpecente que me deixa jogado nesse quarto alugado, bagunçado e quente de um prédio caindo aos pedaços no centro dessa metrópole que me engoliu.

Minha papoula da Índia, minha flor da Tailândia, meu ópio diário, minha droga mental, és o que tenho de suave… e me fazes tão mal. Me rouba a realidade, mas insistentemente me devolve a ela sem uma overdose que possa encerrar a desgraça.

Ficou em mim logo aquilo o que tinha ido embora. Toda a culpa de ter uma vida regrada na adolescência é o que permanece em mim como boa lembrança agora que sou livre. Estou só um pouco cansado, eu acho, não sei se de uma situação específica ou da vida em si.

Não sei se isto termina logo.

Meu joelho dói, acho que estou ficando velho, e não há nada a fazer agora, na verdade nunca houve, nós sempre envelhecemos, sempre passamos das boas fases e aí morremos. O problema é o intervalo entre tudo isso.

“Para que servem os anjos?”, eu costumava me perguntar. Uma vez que eu mesmo me via como um anjo, por que precisaríamos de outros seres desse tipo para nos ajudar? Mas isso foi no tempo em que eu dizia “a felicidade mora aqui comigo até segunda ordem”. E alguém deu esta segunda ordem sem eu saber. O destino, a vida, Deus, qualquer um menos eu… eu me isento.

Um outro agora vive minha vida, sei o que ele sonha, pensa e sente. Onde estou, afinal? Estou como debaixo d’água, assistindo a tudo que se passa de um lugar turvo, sem som claro, como se eu não controlasse as coisas. Na verdade, quando é que nós controlamos algo mesmo?

Não é coincidência a minha indiferença, preciso não me importar para seguir em frente. Qualquer coisa diferente disso dói demais. Sou uma cópia do que faço e, cá entre nós, não ando fazendo grandes coisas ultimamente.

Alguns tragos, uns cigarros a mais, algumas caminhadas noturnas. É o que me mantém vivo. Talvez os olhos de uma vadia barata que um dia já amei contribuam para minha permanência esquisita por aqui.

O que temos é o que nos resta. Sempre foi assim, não? Nunca tivemos nada mais do que aquilo que nos restou.

Eu saio de noite e as luzes amareladas da cidade me aquecem o peito. Micro-sóis tentando me recuperar. Preciso de uma estrela só minha, intensa… estamos querendo demais.

É essa metrópole que se agarra com força nas minhas entranhas, é o perfume daquela que me seduziu e deixou, é tudo, é por elas, por ela, minha papoula da Índia, minha flor da Tailândia, meu ópio diário, minha droga mental, és o que tenho de suave… e me fazes tão mal. Rouba-me a realidade, mas insistentemente me devolve a ela sem uma overdose que possa encerrar essa desgraça.

Existe um descontrole, que corrompe e cresce no meu peito. Algo ainda quer se libertar. Às vezes parece que fui surrado até o limite de minhas forças. Pode até ser, mas estou pronto pra mais uma, eu sempre levanto. Sujo ou limpo, fétido ou perfumado. Apodrecido por dentro ou com esperanças, na noite mais clara ou na mais sombria, eu me levanto. O que é que desvirtua e ensina? O que tudo isso quer dizer?

O que fizemos de nossas próprias vidas, minha querida?

Basta um encontro sorrateiro em qualquer bar mais escuro e nossos olhares começam todo o jogo: o mecanismo da amizade, a matemática dos amantes. Agora, no fim da noite, só artesanato, minhas mãos deslizando pelo seu corpo como que moldando a forma perfeita daquilo que desejo.

Nós dançamos apenas um para o outro. Lá fora o mundo pode acabar, tudo aquilo que não for você, o resto são escombros…

E então tudo é modificado. A cidade insiste em disputar com você um espaço no meu coração. Vem como um convite malicioso que diz: “mas, é claro que não vamos lhe fazer mal, nem é por isso que estamos aqui!”. Eu sigo o chamado.

Quando saio em suas ruas, porém, cada criança com seu próprio canivete, cada líder com seu próprio 38, vejo que fui um tolo novamente ao cair nos doces lábios dessa montanha mágica de concreto, e te abandonei por promessas que eu sabia que ela não iria realizar.

E me pego novamente balbuciando as palavras “minha papoula da Índia, minha flor da Tailândia…” Chega!

Vou mudar a minha vida.

Chega dessa escuridão. “Garçom!”, chamo, “deixa o copo encher até a borda”. Ele me olha desconfiado e eu completo, “que eu quero um dia de sol”.

Ele entende cada vez menos e eu cada vez mais, me sustentando num copo…

Num copo d’água a partir de agora!

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