Texto de maio de 2006, mas que encontrei num voo entre arquivos

asas de anjoSer livre é coisa muito séria. A liberdade está em acreditar em nosso pensar independente, nada disso é fácil. E quem disse que é certo?

Ser pessoa boa talvez seja ser pessoa presa. Encontrei meu meio-termo: fugi! Fiquei livre. Estou longe do que eu era. Agora, mais do que nunca.

Meu equilíbrio foi me agarrar a uma mulher. Já que eu decidia por mim mesmo, decidi que eu precisava de uma companhia. Desgarrei-me de tudo para me prender a ela. Aí ela me deixou, não aguentou o moquifo em que eu moro, minha tendência alcoólica, meu subemprego.

Agora sou livre de verdade! Estou sem meu passado e as conquistas do presente também se foram, quer saber? Ser livre é um saco, é triste.

É também tranquilo, isso é verdade, mas de uma tranquilidade débil, sem revoluções. Liberdade é um banho morno, às vezes delicioso – quando se está sujo e cansado – mas perturba e enruga a pele se for constante.

Liberdade, livre: é para se estar e não para se ser.

Uma vez ouvi uma música que dizia que pecado é provocar desejo e depois renunciar, ela fez isso comigo. Não me refiro à garota que me deixou, e sim à liberdade. Causou-me a melhor das impressões e partiu, ou melhor, deixou que eu partisse. Foi esse o problema, fiquei muito livre, livre a ponto de me libertar da liberdade. Agora estou preso a essa vida suja.

Fico me embebedando enquanto olho o ponto de ônibus. O frio é tão sério e formal, seu ventou nunca parou para me dar um oi nessas noites.

As luzes amareladas da cidade sempre ficam desfocadas, não sei se pela bebida ou pelo cansaço do dia. As coisas são sempre assim.

De frente ao bar há dois orelhões, um de costas para o outro. Nessa noite algo estava diferente: o bônus do mês foi todo em pinga. As luzes se desfocaram mais rapidamente…

E, quando eu já estava tonto o suficiente para me roubarem, vomitar ou perder os sentidos, ela entrou. Com os orelhões às costas, como um anjo urbano da comunicação.

Caí ao chão, não me restavam nem lembranças, os olhos dela é que me contariam histórias a partir de agora, um presente eterno. Os orelhões já tinham sumido, mas as asas não. O anjo que me salva dos bares, a prova de que Deus existe, pelo menos para mim.

Meu anjo projetado contra a lua de um poste. Enquanto chovia, ela me carregava pelas ruas desta noite infame, eu estava tonto, menos pela bebida que por sua presença. Perdi os sentidos por alguns instantes e de repente estou deitado num colo enquanto vejo imagens passando na noite, estou voando? Não sei, apenas fecho os olhos novamente.

Quando os abro estou num apartamento, pelo menos é o que acho, pela altura da vista na janela. Estou de roupas secas, ainda cansado. Ainda mais cansado de meu orgulho, egoísmo e vaidade. A madrugada já vai alta, vou mudar minha vida, as coisas vão melhorar.

É isso! Vou me prender àquela que me salvou, vou me modificar por ela. Por ela deixarei minha liberdade, a sujeira livre. Ninguém diz que é fácil, nem certo, mas meu pensar é independente. A liberdade é só uma impressão e minhas impressões podem se alterar, mas não essa noite. Hoje só quero me acomodar e me aquecer em suas asas.

E se eu morrer, morrerei feliz, com meu anjo urbano anônimo.

 

*As asas vieram voando desse site aqui

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