SL – Série Legião: textos musicais

Rodem a canção antes de lerem

laranjeiraE de repente eu só conseguia pensar nela… imponente e forte, mas tranquila, calma, serena, sereníssima.

Meus olhos viam apenas a árvore, aquela laranjeira sob a qual passamos ótimos momentos de nossa amizade, juntos, desde a infância. Pelo menos até aquele dia no banco.

Anos antes

Era alta madrugada, a brisa que batia nas ruas anunciava um frescor bem-vindo depois de um dia abafadiço.

Olhei para o lado e vi que o Fantasma, meu amigo, seguia com o combinado. Ele me fitou por um momento e percebeu que algo não estava certo, como se já soubesse que eu faria algo estúpido, seu olhar dizendo, “Sombra, tire essa ideia da cabeça”. Eu não tirei.

Bastava invadirmos o local e arrombarmos o cofre 36. Dizia-se que era um livro, um manuscrito, mas não importava o conteúdo, não para nós. Aquele era o serviço pelo qual nos pagariam e pronto. Entretanto, quando vi aqueles diamantes reluzindo dentro do vidro, não resisti e toquei nas pedras…

Encontro

Caminhei em direção a porta um tanto vacilante. Depois de cinco anos era difícil prever a reação dele. No quintal da frente, a laranjeira. Ele manteve a árvore ali e isso era um bom presságio. Tempos antes ele disse que a arrancaria da frente da casa na primeira oportunidade, mas eu pedi que a deixasse ali.

Bati de leve na porta, ele abriu e me encarou um tanto confuso. Logo de cara não falamos nada, é difícil saber o que dizer depois de tanto tempo. Ele começou:

– Por quê? – ele não queria saber o porquê de eu estar ali, mas sim o motivo de eu ter, cinco anos antes, tocado onde não devia, estragado o trabalho e, mesmo livrando a cara do Fantasma, ter ficado engaiolado por todo esse tempo.

– Eu sou um animal sentimental, você sabe! Me apego facilmente ao que desperta o meu desejo, foi o impulso.

– Mas eu te avisei…

– Tente me obrigar a fazer o que não quero e você vai logo ver o que acontece: farei só de teimosia.

– Acho que entendo o que você quis me dizer – falou Fantasma com uma voz mais amena. Uma TV ligada ao fundo e uma voz de mulher rindo com a tela luminosa vinha das suas costas pela porta entreaberta – mas existem outras coisas.

– Você está bem? – perguntei.

– Tanto quanto se pode ficar quando seu melhor amigo vai preso e você não pode fazer nada. Consegui meu equilíbrio cortejando a insanidade. Ainda achei que algo podia ser feito, que tolo, tudo está perdido.

– Mas – retruquei – ainda existem possibilidades.

– Possibilidades, Sombra? Você ferrou com tudo. Tínhamos uma ideia, mas você mudou os planos. Melhor ainda, nós já tínhamos um plano, você mudou de ideia. E nem me disse nada.

– Já passou, Fantasma, isso já passou. Talvez a gente possa fazer algo, quem sabe outro dia…

– Chega, Sombra. Não viu onde estou? Tive de abandonar os trabalhos. Quando você tocou nas pedras, soou o alarme e fomos perseguidos, você selou nossa carreira, ninguém mais me contrataria… e eu não faria nada sem meu parceiro. Antes eu sonhava, tinha planos, agora, já não durmo. Mal chego do trabalho já preciso sair de novo. O mundo é uma corrida e tanto.

– E como é. Quando foi que competimos pela primeira vez?

– Esse é o problema, nós não competíamos. O que ninguém percebe é o que, de certa forma, todo mundo sabe. Não entendo o terrorismo que se faz, essa pressa que colocam no peito das pessoas, ganância. Nós só falávamos de amizade.

– Chega, não estou mais interessado no que sinto, no que passou. Agora que saí da prisão, tudo é vida nova – repliquei, tentando animá-lo.

– Eu não acredito em nada além do que duvido. Como você acha que as coisas vão ser a partir de agora? Acha que é só voltar aqui, bater na minha porta no meio da noite dizendo que está de volta e tudo vai dar certo?

– Você espera respostas que eu não tenho, mas não vou brigar por causa disso, Fantasma.

– Eu não uso mais esse nome… bem, de qualquer forma, você é meu amigo e saiu da prisão, isso me deixa feliz. Até penso duas vezes se você quiser ficar e dormir por aqui – disse ele, finalmente, sorrindo.

Eu meneio a cabeça e aceito o convite. Entramos na casa humilde e o que se segue é uma sessão de apresentações e conversas dos velhos tempos. Falamos da infância, do quanto a vida era boa e de como eu fui estúpido ao estragar um trabalho quase terminado no cofre 36, e sair de mãos abanando.

A verdade era que aquele era só mais um trabalho, eu queria uma solução mais permanente… talvez ela não exista.

Quando todos vão se deitar, resolvo ir até o jardim. O tempo está bom. Uma brisa fresca bate, afastando o abafadiço do dia, como naquela noite do assalto e, assim como naquele momento, meus olhos se iluminaram e eu pergunto:

“Minha laranjeira verde, por que está tão prateada? Foi da lua desta noite, do sereno da madrugada?”.

Ela não responde, mas eu desconfio que tenham sido as sementes.

Caminho até a árvore, escavo e encontro um pacote bem embrulhado, como eu o deixara horas antes de ser preso, há cinco anos.

De repente, tenho um sorriso bobo, parecido com um soluço. E fico me perguntando se devo contar ao Fantasma que os diamantes que valem milhões estiveram esse tempo todo enterrados debaixo da laranjeira que ele prometeu derrubar quando pudesse. Nós estamos ricos, meu amigo!

Olho ao redor e respiro o ar da noite sentindo a liberdade mais fresca que nunca em mim, enquanto o caos segue em frente, longe de mim, com toda a calma do mundo…

 

*A foto é da Margarida Neves

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