Texto escrito em 27/04/2011, mas que eu tinha esquecido de publicar. rs

42-17716321Outro dia minha namorada foi extrair um dente do siso. Ela fez a micro-cirurgia, ficou com a boca inchada por algum tempo e agora está ótima. Eu nunca fui ao dentista para avaliar tais dentes em minha arcada, mas eles ainda não apareceram ou, se tentaram (já senti comichões na gengiva nas partes que se localizam atrás dos últimos dentes), desistiram.

Teoricamente (e não é que a maioria das nossas certezas assim são? – assim como essa proposta que agora lhes faço), os dentes do “juízo” deveriam se manifestar entre 16 e 20 anos. Eu já tenho 24 anos e ainda nada. Claro que isso poderia me incomodar. Talvez eu criasse uma paranoia de que ainda sou imaturo e que meus dentes, com vida própria, se recusariam a aparecer numa boca de criança – mesmo eu comendo como um adulto. Mas não criei paranoia… eu acho (negar = afirmar, e agora?).

Em algumas conversas e leituras rápidas vi que eu talvez não tivesse esse “germe” do siso. Às vezes ele existe, mas se mantém atrofiado, outras ele rasga a gengiva, empurra os dentes e se impõe como um dominador perverso e, em outros casos, ele simplesmente inexiste. E tudo isso me fez pensar numa coisa muito atual: Alzheimer.

Percebi que ultimamente tenho ouvido bastante a respeito dessa doença e me perguntei se era a repetição midiática que me dava essa sensação ou se os casos do mal realmente estavam aumentando… pois bem, eles estão!

Segundo matéria divulgada na BBC Brasil, um estudo do King’s College of London, feito em 2009, afirma que, no mundo, cerca de 35 milhões de pessoas sofrem de Alzheimer atualmente e que este número vai mais que dobrar nos próximos 20 anos.

Cheguei a pensar que fosse um movimento específico das últimas décadas e que o surto fosse diminuir, mas, refletindo a respeito, talvez esses números possam ser piores a cada dia.

Evolução

Como se deu nossa evolução?

A maioria das pessoas conhece a teoria de Darwin a esse respeito, mas é interessante notar uma outra figura nesse meio, Jean Baptiste Lamarck. Esse personagem ficou desacreditado no meio científico atual por conta de sua teoria de geração espontânea, mas até mesmo Darwin concordava com uma de suas ideias (que, mesmo para a época de Lamarck não era nova), a lei do uso e desuso.

A suposição é simples (e se juntarmos com os conceitos de Darwin a coisa fica bem redondinha): as “ferramentas” biológicas, os caracteres dos corpos que não são utilizados, tendem a desaparecer, perder sua função, entrando num processo de degeneração, supressão, atrofiamento, enquanto que novas habilidades desenvolvidas e úteis acabam se multiplicando. Essa não é a base da teoria evolutiva de Darwin, mas com certeza encontra respaldo quando se relaciona capacidades dos indivíduos com o ambiente em que vivem. Determinadas características perdidas ou adquiridas, e que são (des)necessárias naquele ambiente, permitem sucesso ou fracasso de um indivíduo. Caso haja sucesso, há a multiplicação de sua herança e perpetuação da espécie.

Civilização

O desenvolvimento de nossa espécie até o ponto em que nos achamos no direito de nos chamarmos civilizados (com todas as conotações possíveis que atribuímos ao termo) passou por diversas transformações, condensações, trocas etc. Mas algo é inegável: de alguma forma o ser humano encontrou uma maneira de acumular e transmitir conhecimentos, o que permitiu uma aceleração e consequente continuidade de seu desenvolvimento.

Simplificando, era necessário se comunicar para que houvesse conhecimento compartilhado e o acúmulo deste. Seja por meio de linguagens primárias, de sinais, gestos, urros etc.

Inicialmente, não existia nenhum suporte, por assim dizer, sobre o qual tal conhecimento pudesse ser acumulado e passado adiante, ou melhor, havia sim, e ele existe ainda hoje: nós mesmos, os seres humanos, nossos corpos e mentes, a chamada mídia primária (Vilém Flusser).

Com o desenvolvimento de uma linguagem formalizada por determinados grupos, passamos a uma nova etapa da cadeia evolutiva: acumular e transmitir conhecimentos verbalmente (ajudados, ainda, pelas outras expressões corporais de gestos, e movimentos faciais, por exemplo), e fomos transformando o mundo ao nosso redor pelo acúmulo e aplicação desses saberes.

Neste contexto, os seres humanos adicionaram mais uma função produtiva aos seus corpos e mentes. “Sou importante não porque caço ou pesco apenas, mas porque sei fazer tais coisas, consigo aprender diversas outras e, aquilo que sei, posso ensinar, transmitir”.

Olhando a natureza de uma maneira geral o ser humano é um mamífero que nasce com poucas habilidades de sobrevivência e é preciso ser cuidado até determinada idade, na qual terá chances de se manter vivo, pelo menos de maneira básica, autonomamente.

Quando alcança um certo patamar nesse sentido, torna-se um indivíduo com potencial produtivo na sociedade em que vive, e o será durante algum período de tempo, caso se mantenha vivo.

Observem que falo aqui de sociedades primitivas e da construção e acúmulo de conhecimento. Hoje, identificam-se outros sintomas sociais. Destacaríamos, talvez, a não-vontade que os indivíduos desenvolvidos têm de cuidar desse outro, pequeno e incapaz em sua primeira idade (o que leva a jogá-lo nas mãos de babás, caso se possa pagar). Atualmente, queremos a pessoa apenas em sua idade produtiva e a segregamos em outras situações. “Alguém o crie para que alcance a idade ideal de ser ativo por si mesmo” (talvez eu volte a um desdobramento disso depois).

idososDiferentes funções na sociedade

Ainda pensando nas sociedades remotas, vemos que os indivíduos vão assumindo funções diferenciadas com o passar do tempo. É objeto de cuidados quando pequeno, exerce tarefas simples quando cresce, passa a ter alguma função específica que talvez se altere e assim por diante. Entretanto, de que serviria, na época, um ser envelhecido, que não pode caçar ou construir, em resumo, ser produtivo? Qual é a função desse ser que já não pode agir da mesma maneira ativa de antes?

Se no início dos tempos a expectativa de vida era tão baixa, por que é que em culturas de povos “atrasados” os velhos são tão preservados e respeitados? A resposta é simples: conhecimento.

O acúmulo dos anos traz experiência, aprendizado. Ter alguém com toda essa memória e saber é essencial para o desenvolvimento do grupo. Melhor ainda é que tal pessoa deve transmitir tal conhecimento aos mais jovens, a vários deles e não apenas um, pois, se “viver é perigoso” (mesmo que não conhecessem Guimarães Rosa), há de se criar garantias de que a “cultura” daquele povo será passada adiante, mesmo que alguns desses discípulos morram.

Lembremos que falamos, há pouco, de uma transmissão por meio da oralidade (principalmente), assim, tais velhos eram verdadeiras bibliotecas de seu tempo, um Google onde nem digitar era necessário, mas sim perguntar, indagar, conversar.

Mas o corpo é perecível (por mais que tentemos, de todas as formas, escapar dos sinais da idade em nossa sociedade), e essa angústia do homem perdura. Se tem consciência, sabe que morrerá, que morreremos, que morrerei, mesmo que o eu mais íntimo se negue a nisso acreditar.

Imortalidade

Como se mostrou nos diálogos que Platão escreveu, e onde Sócrates era o personagem principal, em especial em O Banquete (quando o filósofo – Sócrates –, que admitia sua ignorância e questionava os outros, se colocou no lugar de aprendiz questionado perante a sacerdotisa Diotima), o amor que dizem mover o homem nada mais é que o desejo de geração e criação do belo, para ser eterno. E como alcança este estágio? Pela geração, pois, "por ela todo ser que nasceu mortal participa do eterno e imortal". Assim, mesmo depois de partir, permanece, acredita que permanece.

E, voltando ao nosso relato dos humanos primitivos, nos deparamos com o óbvio: havia uma barreira a ser superada, o corpo.

Agora, numa nova escala, existe um outro suporte onde se expressar e deixar marcas que não somente na memória. Usava-se carvão, sangue, merda e outros pigmentos para marcar paredes… Mas os povos em tal tempo, em grande part,e eram nômades e a mensagem passada por meio dessa mídia secundária, por meio de um código, colocada num suporte não tão perecível como o corpo, poderia facilmente ficar para trás (pela dificuldade óbvia de se levar uma caverna numa mudança) por conta da locomoção destes seres.

Aceleremos, então, nossa mente, pois já sabemos das consequências e sequências: a criação da escrita (desde a cuneiforme, os hieróglifos, até chegarmos no “vc” virtual), o acúmulo cada vez maior de saberes, a criação de suportes mais fáceis de se transportar e gravar etc.

Idades e memórias

Hoje, multiplicam-se asilos e casas para se cuidar de idosos. Os velhos se tornaram inconveniências em nossas vidas. Já não são produtivos e, o máximo que fazem é nos lembrar de que a morte está sempre por perto, nos rondando.

Já não queremos criar nossos bebês, pois são incômodos, mas suportá-los é a única maneira de garantir que alcancem determinada idade onde possam produzir e é nesse ponto que as pessoas nos interessam, é só quando alcançam tal potencial que se tornam brilhantes ao todo social.

Os bebês e as crianças são meras fases de empecilho, incômodos necessários para que se chegue na "fase de ouro"… até que deixamos de ter uma serventia social. Os velhos não ficam mais jovens e diferentemente das crianças o "esperar", para eles, só torna as coisas piores.

O que fazemos de melhor, então? Os joguemos em asilos, cadeias longes de nossa vista para que não nos lembrem de nossa degradação. Como apareceu de forma bem direta e bem humorada no filme “O primeiro mentiroso”, o asilo era descrito como “A Sad Place for Hopeless Old People” (algo como “um lugar triste para velhos sem esperança”).

Olhamos um idoso e praticamente escutamos: "O que eu fui, você é. O que eu sou, você vai ser". É o pior dos pesadelos para a "imortalidade da juventude" e para as pessoas de meia-idade, sim, aqueles que já sacaram o que deve lhes sobrevir, mas lutam para se manter num patamar ilusório, para que sejam considerados necessários. Uma patética "classe média" da cronologia humana.

Informações

Alguém conseguiria calcular a quantidade de informações e dados em geral que temos armazenados e disponíveis atualmente? Não me refiro apenas à internet, mas aos arquivos pessoas que não estão na rede, às bibliotecas físicas, os jornais, as revistas, impressos, panfletos, folhetos, cartas, enfim…

Acho que é impossível mesurar. A pergunta agora é, qual é a dificuldade de se acessar uma informação, de adquirir um conhecimento (especialmente instrumental), uma maneira detalhada de fazer algo? Em segundos temos acesso a virtualmente (no sentido de potencialmente) tudo: a milhares de "receitas" e informações que nos levam onde queremos, pelo menos de maneiras técnicas.

Talvez a relação parental possa variar de acordo com a idade de quem lê, mas quando quer saber de algo você pergunta ao seu avô (bisavô) ou digita e busca no Google?

google1Seleção natural

Se nosso desenvolvimento só foi possível pelo acúmulo e transmissão de conhecimentos; se os humanos têm idades, ou seja, capacidades e necessidades que se adequam a sua cronologia; se os velhos eram tais fontes de saber adquirido quando perdiam outras funções, devido às limitações da idade; se os jovens, possuidores da força transformadora, necessitam dos velhos para saber quais conhecimentos aplicarem e como; se o suporte para tais conhecimentos deixa, gradativamente, de ser as pessoas e passa a ser o livro, filme, obras de arte, dados em computador, e quase tudo pode ser encontrado na internet, bibliotecas etc.; se minha namorada tirou o dente do siso sem mais complicações que apenas um inchaço temporário; se é verdade que nossa coluna demonstra possíveis traços vestigiais de uma cauda suprimida ao longo da evolução; se levarmos Lamarck em conta e analisarmos que o que é utilizado, depois de muitos anos, se degrada, suprime, atrofia ou desaparece; então, aí, podemos voltar ao início do texto para dizer que a nossa segregação social em relação aos idosos e a supressão de sua utilidade e função ativa têm desencadeado uma forma de "seleção natural", uma maneira de degradar rapidamente os corpos e mentes daqueles que já não nos servem e, consequentemente, temos o boom do Alzheimer como solução para erradicar essa "espécie".

Em suma, o Alzheimer pode ser visto como um processo de "evolução e seleção natural", porque os velhos perderam sua razão de ser. Eram memória da cultura, mas já não são tão necessários há centenas de anos. Se não "usados", são descartados, atrofiados.

O curioso é notar os estudiosos dizendo que, para se evitar a doença, são precisos exercícios mentais, atividades de aprendizado (existe uma relação inversamente proporcional entre a prevalência de demência e a escolaridade da pessoa. Nos indivíduos com oito anos ou mais de escolaridade, a prevalência é de 3,5%, enquanto que nos analfabetos é de 12,2% – McGeer PL, Schulzer M, McGeer EG. Arthritis and anti-inflammatory agents as possible protective factors for Alzheimer’s disease: a review of 17 epidemiologic studies. Neurology, 1996;47:425-432.).

Precisamos tentar recriar "artificialmente" aquilo que deixamos de praticar naturalmente, a saber, dar função de sabedoria e de acumuladores de experiência aos velhos, consultá-los, dar-lhes sentido.

Não foi um processo rápido, visto que a escrita e seus suportes surgiram há milhares de anos e talvez este ainda não seja o estágio final e sim um intermediário, para que haja equilíbrio. Para quê aumentar a expectativa de vida de corpos inúteis?

Para quem diz amar seus avós e achar toda essa ideia absurda, bem, saiba que ela também me incomoda, mas nem por isso deixa de soar com sentido. Eu adoro conversar com pessoas idosas, mas costumo buscar experiências específicas delas. Não há como negar que em alguma parte do meu ser possa haver uma ideia inconsciente que queira se afastar dos velhos, porque me lembram de minha mortalidade, ou outra que os queira perto apenas a título de comparação e que me permita demonstrar o como somos diferentes e que meu eu nunca será aquele…

O que podemos fazer para interromper tal processo de expansão do mal de Alzheimer (será mesmo que queremos interrompê-lo?)? Não sei! Mas da próxima vez que você quiser saber algo, vai perguntar aos seus avós e pais ou consultará o Google?

As imagens são:

Primeira

Segunda

Terceira

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