SL – Série Legião: textos musicais

Qualquer semelhança com a música de mesmo nome da Legião Urbana é pura inspiração, observação e, se quiser, trilha sonora.

rosaFoi ela, foi uma pequena, singela e doce menina que me ensinou quase tudo que eu sei. É estranho como as coisas são. No início eu não queria nada de mais, apenas um beijo, uma experiência, uma micro-história para contar. De um caso, consegui um conto, um tanto, um tonto e um canto calado no peito.

Algumas vezes eu sentia que aquilo era quase escravidão: compromissos, ligações, cobranças de um sentimento que eu tinha, demonstrava, mas ela queria mais. Ela precisava de mais. E bastava que tivesse a sensação de que me perderia para que me tratasse como um rei.

Ela fazia muitos planos, a vida não podia se acomodar. Queria trabalhar em todos os lugares ao mesmo tempo, queria salvar o mundo, alimentar a Somália… eu só queria alimentar o Paquistão… um pastor alemão lá de casa que morreu nem sei quando.

Ela me queria para dominar o mundo e, no sofá, fazia seus planos e estratégias. Eu só queria estar ali, no sofá. Sempre ao lado dela, eu não tinha aonde ir.

Eu vi que as coisas já não estavam como deviam, como essa vida é esquisita! Ela me quis, eu fiquei ao seu lado por inércia, e foi bom, por um tempo. As coisas mudam, e mudaram. Mas egoísta que eu sou, esqueci-me de ajudá-la, assim como ela me ajudou. E não quis me separar.

Na mesma proporção em que ela fora forte o suficiente para dar o primeiro passo, ou melhor, para me ajudar a dar o primeiro passo na relação, eu também fui… Fui inversamente fraco para dizer que já era hora de nos separarmos.

Ela também estava perdida e, por isso, se agarrava a mim. Eu me agarrava a ela, porque eu não tinha mais ninguém. Na minha cabeça ainda era cedo para terminarmos… cedo, cedo.

As palavras martelando o coração como um eco distante do meu fracasso, da minha fraqueza.

Decisão

E novamente foi ela. Eu sei que foi ela quem terminou aquilo que eu não comecei. Aquilo a sufocava, interpretar papéis demais numa relação. E o que ela descobriu, eu aprendi também, ou melhor, eu já sabia.

O início do fim foi tranquilo. “Era melhor continuarmos a ser amigos”, ela disse, e eu recusei. Se iríamos ficar distantes, era bom que começasse logo, sem adeus, sem um último beijo.

Ela falou, “você tem medo”. Aí eu disse, “quem tem medo é você”. Medo de se apaixonar, de estar ao lado de um homem que ama e não admitir que ele te agrada mesmo não sendo a perfeição que imaginava.

Era para ter ficado tudo bem. Era para termos sido amigos novamente pouco tempo depois, mas não foi. Forçamos as coisas. Tomei atitudes que não deveria.

Queda

Marcamos um encontro naquela que veio a ser a noite derradeira, a última conversa. Falamos o que não devia, nunca, ser dito por ninguém.

E depois de tantas agressões, ela disse que estava tudo errado, que eu não devia ter feito certas coisas que fiz. E eu perguntei, “se você se importava tanto, por que terminou?”.

Olhando-me profundamente nos olhos ela pediu para que eu ficasse em silêncio por alguns segundos e me disse “eu não sei mais o que eu sinto por você”.

Ela me contou que a ideia do término era apenas organizar seus sentimentos e que eu havia estragado tudo, porque agora as coisas não poderiam ser recuperadas. “Quando eu disse, ‘vamos dar um tempo, um dia a gente se vê’… não era pra ser assim, e se eu ainda te quisesse?”, ela suspirou.

“Por que não voltar, então, se você quer?”, e pelo olhar dela eu sabia que nenhum dos dois nutria encanto pelo outro.

Afinal de contas, terminamos, e tentamos voltar antes das feridas cicatrizarem. Forçamos flashbacks que não tinham mais poesia.

E na minha mente, a força dos ecos distantes do meu peito sufocado tentavam me avisar dos erros repetidos. “Ainda é cedo, cedo, cedo… cedo demais para tentar algo”.

E era.

E acabou logo em seguida. Sem amor, sem paixão, sem amizade. Um vácuo nos sentimentos, uma inércia na vida. Um tolo, um tanto e um canto… um canto silencioso de palavras que nunca foram ditas.

Nunca dissemos adeus de verdade… mas e se ainda fosse cedo, cedo… simplesmente cedo?

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