Texto de maio de 2010 que estava guardado…

 

casamento Dizem que a inveja mata, mas não sei quão abrangente esse efeito de maldição pode ser. Se você inveja teu amigo, parente, vizinho ou sei lá o quê, por alguma coisa material, por exemplo, isso deve te trazer algum mal, especialmente se você não busca alcançar uma situação semelhante para si, mas deseja exatamente aquilo que é da outra pessoa. Uma espécie de cobiça infundada.

No entanto, já ouvi falar da inveja boa. Quem não ouviu?

A princípio sempre me pareceu que a inveja boa era uma forma de um invejoso se justificar perante a sociedade, para minimizar os danos de sua inveja. Ora, se uma pessoa é realmente invejosa, isso deve afastar os outros dela, não é necessário aumentar esse problema divulgando sua inveja. Mas, se o sentimento é tão forte que não te permite calar, diga que é, pelo menos, inveja boa.

Este tipo de cobiça se caracteriza pelo desejo de ter o que a outra pessoa possui. No entanto, o desejo é por algo similar, ou seja, não é necessário que o outro perca algo para que você ganhe, essa é a ideia da inveja original e, diga-se de passagem, muito mais divertida e mote de novelas mexicanas e diversas histórias hollywoodianas.

Mesmo não sabendo até que ponto esse sentimento pode ser bom nem a sua abrangência em causar danos, prefiro dizer que outro dia senti inveja. Sim, confesso, e foi forte.

Senti inveja de um lado animal, da beleza pura de ser liderado pelos seus instintos e sentimentos. Quem tem fome come, quem tem sede bebe e quem quer sexo, faz. Nada além disso (quem sabe um bate-papo livre de compromissos, talvez, como o vagar ocioso de uma matilha de cães, por exemplo).

Nossa sociedade costuma inverter as coisas e adentramos numa era diferenciada. Hoje em dia, quem tem fome come, quem tem sede bebe e quem quer fazer sexo é um sociopata pervertido e, provavelmente, pedófilo.

Não estou defendendo a pedofilia, muito pelo contrário. Mas minha inveja se deveu à nossa pré-história. Que delícia deveria ser aquela época.

É uma afirmação esquisita, eu concordo, mas dar vazão a esse lado animal devia ser ótimo. Tudo bem, preciso confessar que a divagação me ocorreu por conta das responsabilidades que a sociedade nos impõe. Estudar, trabalhar, fazer cursos e atualizações, cuidar do corpo, pensar nas vitaminas e valores calóricos de cada refeição… esquece tudo isso! O problema todo, na verdade, começou porque tocaram no assunto casamento comigo.

Que tipo de homem não pensa nisso de milhares de formas diferentes antes de aceitar o normal, a prática imposta, ou comumente aceita pela sociedade como um todo.

Você precisa achar um lar, abastecê-lo, cuidar de sua esposa, seu cão (tem que ser um cão, pois você o acaricia e, se ele estiver de saco cheio vai deitar em outro canto ou dorme – já os gatos se irritam facilmente, adoram um afago e de repente te arranham a cara sem motivo), futuros filhos, pagar as contas, brigar, fazer as pazes, dormir juntos, segurar peido, tentar não arrotar depois da janta, não cortar as unhas na cama, jogar fora seu material pornô acumulado por anos a fio, almoçar na mãe dela de domingo, reparar se ela engordou ou não, mesmo que isso seja totalmente dispensável para você e etc.

Sei que tudo tem sua parte boa, mas não era mais legal quando você batia nela com um tacape, arrastava pelos cabelos até uma caverna e trazia um bicho morto pra ela assar enquanto você tirava um cochilo? O que aconteceu com todo o nosso machismo, grosseria e instinto? A evolução é um saco.

Acho que a inveja não mata, afinal de contas.

Eu invejo os homens das cavernas em relação ao casamento. Ao invés de aliança, festa e pompa, bastava uma madeira e a virilidade.

Mas sei também que as mulheres não eram tão cuidadosas, por assim dizer, (sem banhos quentes e regulares, cremes, perfumes, ótima lingerie) por isso é uma inveja boa, que quer a situação e não a mulher dele em si. Pensando bem, ainda prefiro me afogar na pele macia e nos cabelos cheirosos de minha garota, mesmo sem poder arrotar depois da janta.

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