Texto de 14 de janeiro de 2011

Necessidade... Sabe do quê eu gosto? Da sensação, do som… das folhas de um livro bem grande passando por entre os dedos. Não quero lê-lo, quero apenas folhear. Às vezes rapidamente. Quem sabe de maneira irritantemente lenta para quem me visse. Olhar tudo e não atentar a nada. Não absorver uma palavra sequer. Pelo simples motivo de estar absorvendo o mundo através do toque das páginas, do barulho da folha sendo virada e do som, do cheiro, do exalar quase divino que é, simplesmente, minha pele deslizando sobre o papel. Um fascínio sem explicação, um sorver da poesia não escrita. Não ler, apenas sentir. Beber em goles pela mão e não pelos olhos, e deixar a boca entreaberta apenas para captar o pouco de ar necessário para encher os pulmões e mantê-lo vivo quando, na verdade, o que te sustenta é a sublimação mágica de se evaporar e se condensar novamente a cada instante sentido. Como gotículas formadas em uma tampa de panela, meus pensamentos se multiplicam, minhas explicações se esvaem e quase congelo o momento… quebrado apenas pelo tiquetaquear de um relógio estaca que bate insistentemente contra meu tempo, meu momento.

Alguns livros eu não quero ler.

Não quero porque eles são profundos e perfeitos em minha mente apenas por ter visto a primeira letra na capa, de relance. O dourado em alto relevo me é suficiente. Ler seria uma invasão, uma heresia. Profanar o solo sagrado de meu cérebro e coração com os pés, por vezes imundos, de meus olhos. Sim, ler seria destruir o sentimento perfeito criado pela imaginação de meu conglomerado de neurônios regidos pelos batimentos de um coração mais sábio que a cabeça e de uma mente regida pela emoção. Eu sou o que sinto e, se meus olhos se deterem onde não devem, podem romper este lago de fino gelo de perfeição que existe entre aquilo que está em minhas mãos, pronto, e a ideia daquilo que está em minhas mãos, sempre em construção, pois cada segundo traz uma nova exasperação, um arroubo sem sentido que explica minha vida e dá forma à minha existência, em movimento. Existir por não saber explicar e explicar a existência apenas pelas coisas indizíveis.

Toda obra acabada traz em si uma ideia que já foi perfeita, se não na mente do autor, pelo menos na mente de um leitor que não leu e, ao ler, rompe barreiras, destrói mundos. É necessário coragem para desfazer, na leitura, uma obra que era completa e bela quando se tomou conhecimento dela.

É o mesmo processo de criação. Escrever é simplesmente estragar aquilo que é maravilhoso quando está dentro de nós, sem forma, vagando.

Escrever é limitar, é colocar margens e pontos finais naquilo que deveria caminhar livremente. Mas não podemos ficar sem fazê-lo, pelo simples motivo de que precisamos dar vazão a isso. Dar a conhecer, aos outros, aquilo que nem nós mesmos digerimos. Um autor, um narrador, um contador de histórias simplesmente entrega nas mãos de outros aquilo que ele mesmo não decifrou.

A culpa é de Deus. Feitos à sua imagem e semelhança, não conseguimos guardar para nós as coisas que nos rodeiam, e toda folha em branca é uma pressão. Existe uma tensão insuportável no papel vazio, no lápis não utilizado e nas teclas não batidas. Todo terreno vazio é um convite, toda folha um desafio, uma sala sem nada é uma sala a ser mobiliada. Deus é criador e nós também queremos criar, compartilhar, mesmo que não saibamos dar a forma correta aos nossos impulsos. Aliás, é a forma que nos sufoca com um conteúdo que não é mais do que deveria, mas que é incabível em qualquer lugar.

Escritores não têm vida. Eles abandonam a própria vida, decidem viver sozinhos, dentro de si mesmos, procurando suas histórias e pensamentos que façam sentido. Perseguem, ficam paranóicos e, no fim… bem, nem sei se há um fim.

A miséria de não ter uma vida só é compensada, talvez, pela capacidade de viver diversas vidas em uma só, ou melhor, ao mesmo tempo. Alguns vivem uma vida após a outra, outros vivem diversas ao mesmo tempo – muitas pessoas confusas compartilhando um não-espaço de uma não-existência em um tempo que não passa, mas que também não volta. Um eterno passado de lembranças futuras que não ocorreram. As leis da física abrem exceção para um escritor que não tem vida, mas tem várias.

Mais ou menos como os atores… não, não os atores. Eles vivem diversas vidas mas, quando encerram um papel, uma vida, uma pessoa, têm a oportunidade de serem eles mesmos ou, ao menos, escolherem quem serão. Um ator termina a peça com a sensação de missão cumprida, de ponto final, quem sabe uma satisfação tênue que perdura por alguns minutos.

Não um escritor.

Este se vê preso a um ciclo constante de procurar e reprocurar a cada instante uma forma de fazer a obra completa… e as incompletas, deixadas nas prateleiras de uma livraria ou de um velho sebo, perduram machucando mentes e corações, fazendo rir ou chorar às custas de uma vida, de diversas vidas, dentro daquele que não contém nem ele mesmo.

Só perto da morte ele encontra sua conclusão, ou melhor, mantém aberta a frase que deveria ser a última, pois não teve tempo de colocar um ponto final. E aquela que deveria ser a palavra de extinção e fechamento, torna-se a abertura para um novo e qualquer coitado que não consegue fugir ao destino e inicia seu trabalho de onde outro não parou.

Aliás, escritores não têm trabalho, têm apenas uma ocupação que os distraia de si mesmos enquanto buscam um meio de se alimentar e sobreviver para perdurar numa amargura gostosa.

Escritores são faxineiros, lixeiros, limpam pratos em restaurantes apenas para aliviar a tensão existente entre o seu fazer cotidiano e as folhas encontradas em branco que fazem perguntas incômodas.

Eu fui um dos que decidi ser solitário e seguir esse caminho, perdido entre emoções e momentos insuficientes, pois nem mesmo do choro e da morte nós acreditamos ter tido o bastante.

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