Rabisquei este texto na parte de trás da folha de um outro que estava lendo. Ele deve ser da última semana de março, mas acho que vale reproduzir.

Chamam nossa era de Pós-moderna, mas algo permanece em nós da era anterior (já que tanto gostam de classificar, o Modernismo), ou melhor, uma coisa levou à outra. Não foi (ou é) para “salvar” o planeta que nossas ideias (e, na verdade, poucas ações) se tornaram sustentáveis. Foi para salvar a nossa psique, o espírito de nosso tempo, se ele existir.

A constante destruição e construção, de espaços físicos e conceitos (como disse Marshall Berman, citando Marx, tudo o que é sólido desmancha no ar), nos levou a uma angústia da qual precisávamos achar uma saída.

Como é que tudo pode mudar, manter essa dinâmica louca – que parece não parar depois de iniciada – e, ao mesmo tempo, permanecer, manter algo do que já conhecemos para que haja uma chama, ínfima que seja, de reconhecimento entre o hoje e o amanhã? Como fazer do caos uma reconstrução mapeada, cognoscível frente nossa vida e entorno – físico e de valores – que se alteram a cada segundo?

A própria Revolução Francesa matou seus revolucionários em sua continuidade… eles ficaram ultrapassados rápido demais!

É por isso que conceitos como reutilizar, reaproveitar e reciclar (os três “Rs”) passaram a fazer parte de nossa pauta e, mais que isso, passaram a ser ensinados quase como um mantra nas escolas. Há poucos anos não havia (e creio que a tendência para a criação dos micro-ecologistas tenha piorado) outro assunto tão discutido nas aulas escolares como meio-ambiente, água, sustentabilidade, etc.

Depois, tais conceitos, hoje “primitivos”, dos três Rs deram lugar a uma ideia dominante e que parece ter achado no som de uma palavra sua função de existir: sustentabilidade.

A ideia do sustentável e seu famoso tripé… e o sujeito, precisavam integrar isso nos conceitos. Como falar do mundo, das transformações que devem ocorrer nele sem falar do sujeito, dos que operam tudo isso? Ou melhor, como falar do mundo sem falar daqueles que se acham os principais (e às vezes os únicos) transformadores desse espaço? Se assim fosse feito, esse conceito se perderia, não teria motivos para ser aceito.

Entretanto, mesmo com a bola da vez, o planeta, e com o sujeito, nada disso faria sentido sem o lucro. Se tudo seguir o padrão dos três Rs, a economia despenca. Não faz bem ser bom intelectual e péssimo administrador, várias figuras históricas já demonstraram isso.

O Pós-moderno me parece mais uma recuperação da Modernidade do que uma sucessão de épocas, mas com certeza não é uma superação.

A Era das Luzes foi forte demais e, ao invés de ajudar a enxergar, cegou. Os valores pessoais, nossa razão instrumental e voltada muito para a técnica, e pouco para a crítica, etc., mesmo nossas figuras de destaque. Tudo mostra o quanto somos contraditórios.

Não sou moralista, mas criamos serem andrógenos em pensamentos… e cada vez mais em corpo. Talvez nem andrógenos sejamos mais, pois ao invés de conter o masculino e o feminino, por assim dizer, nos esvaziamos de ambos e criamos uma terceira categoria: os apáticos.

Tentamos dar significado a símbolos que estavam, já, no lugar de outros e criamos um ciclo infindável de substituição no qual o significado primeiro (se é que há ou houve) se perdeu, como na Modernidade. Mas não mudamos o conceito em si, e sim sua representação, o que distorce a ideia sem dizer qual foi o ponto de partida e, se um símbolo ou signo leva a outro e não alcança o que se pretende no real, ou na realidade, mantemos, sempre, a definição medieval do signo – algo que está no lugar do que falta, do ausente.

Entretanto, se não se sabe a qual representação ou conceito o símbolo se refere, ele se esvazia (ou re-significa sem conexão direta ou correspondência) ou se encerra em si, se auto-representando enquanto nada aparece para suprir essa falta. Estando no lugar do ausente e representando a si mesmo o símbolo passa a representar o próprio vazio, a própria falta de sentido. E ele continua se copiando de maneira indefinida,

Parece-me, no entanto, que tudo tem um limite de cópias, pois o “clone” sempre sai gasto, com defeitos ou tem vida curta. Seja uma divisão celular (por qual motivo envelhecemos mesmo se as células continuam a se copiar e as trocamos por todo o corpo?) ou uma folha da qual se faz uma cópia da cópia da cópia… as características se perdem, se tornam manchas que se dissolvem aos poucos.

Tudo isso demonstra um desgaste nas bases sociais e dos indivíduos sem mostrar até onde deve-se ir. Qual é o limite de significados que as coisas podem adquirir? Ou melhor, o quanto um mesmo símbolo pode se auto-revalidar sem perder todo e qualquer sentido? Não sabemos, mas assim acontece. É o espírito de nosso tempo onde o sustentável dá mais a ideia de uma auto-afirmação que se sustente por si, se recicle e propague, do que a construção de uma sociedade melhor, que cuide de seu meio ambiente e pessoas, e cresça economicamente de maneira conjunta.

Hoje, o que é sólido não se desmancha no ar (talvez nem haja algo realmente sólido), mas qual é o mérito de um tempo onde, reciclando e se perdendo, as pedras de um castelo histórico, por exemplo, podem se dissolver nos significados e, modificados, virarem areia de uma caixa de gato?

Talvez nem tudo o que é sólido se desmanche no ar atualmente, mas quem dera assim fosse, dessa forma não precisaríamos tentar poupar uma atmosfera quase perdida como desculpa para a continuidade da vida, quando o que se quer é apenas dar uma boa espiada em até onde esse esvaziamento nos levará. Símbolo após símbolo, conceitos reciclados atrás de conceitos reciclados tentando ser, amanhã, o que nunca soubemos que fomos ontem, e não temos a menor noção do que somos no hoje!

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