“Hoje encontrei um garoto de maneira curiosa, estava comprando um sanduíche e ele trombou em mim. Apesar de ter me sujado toda e derrubado meu suco de melancia, meu preferido, ele me pagou outro lanche completo e me acompanhou na breve refeição. Conversamos pouco, mas trocamos telefones e não parei de pensar nele durante todo o dia, ele é engraçado, talvez me chame para sair”.

Marcos sorriu admirado enquanto lia as páginas escritas a lápis. Sabia que não era certo ler o diário de sua namorada, Patrícia, mas não se conteve quando o encontrara ali, aberto sobre a cama. Ele comprimia o canto da boca lendo as páginas surradas daquele livreto que acompanhava Patrícia há anos. Apesar de chamá-lo de diário, as páginas não eram marcadas todos os dias, algumas até, notara ele, nem data tinham.

O mix de canetas coloridas com trechos a lápis dava um ar de autoridade infantil à obra, como a sabedoria de uma adolescente evoluindo das canetas de tinta rosa com cheiro de morango para uma bic azul e apressada dos tempos modernos.

Fez silêncio por um instante e segurou a própria respiração a fim de conferir o barulho no cômodo ao lado do quarto onde estava. As gotas continuavam a bater contra o corpo da garota e o piso do banheiro. Patrícia se banhava.

Marcos aproveitou e pulou algumas folhas.

“Faz dois meses que ele me pediu em namoro e de lá pra cá nos vimos todos os finais de semana, saímos para passear no parque, andar de bicicleta, tomar suco. Falei pra ele como gosto de suco de melancia e ele sempre compra pra mim, tão fofo…”.

Marcos olhou para o lado, a porta do banheiro continuava imóvel e o barulho se repetia ali dentro. Prosseguiu.

“Hoje é nosso aniversário de oito meses de namoro, estou feliz que esteja tudo tão bem. Vamos sair esta noite. Só espero que ele não venha vestido com aquelas cores gritantes. Aquela camisa xadrez, azul e branca e aquela bermuda laranja me irritam. Pensei que era falta de opção mas quando vi o guarda roupa dele percebi que ele gosta daquilo. Mas eu gosto dele demais, isso é só um detalhe, a noite vai ser perfeita”.

Marcos se mexeu desconfortável na cama. Por coincidência, vestia um paletó preto e uma camisa azul royal com gravata amarela. Naquela noite seu irmão se casaria. Chacoalhou a cabeça para afastar algumas ideias e continuou a leitura na mesma página, o texto prosseguia após óbvia interrupção.

“A noite foi ótima, fomos ao cinema, jantamos juntos e ele me comprou bastante suco de melancia, como quando nos encontramos. O suco não estava lá dos melhores dessa vez, mas valeu a intenção. Fiquei constrangida dele ter usado sapato social com meia grossa e branca, apesar de ser de noite. Acho que, tirando a recepcionista do teatro que me levantou uma sobrancelha de maneira estranha, ninguém notou”.

O garoto levantou a barra da calça e percebeu a meia branca e grossa, mesmo estando de terno e sapato para o casamento, mas qual era o problema? Sentia-se confortável assim. Decidiu largar o diário e fazer uma surpresa para ela. Desceu rapidamente na cozinha e preparou um suco de melancia como ela gostava. Subiu e continuou sua leitura sabendo que Patrícia agora se maquiava no banheiro. Pulou mais algumas páginas enquanto pousava o copo de suco fresco sobre a cômoda.

“Já fizemos um ano e meio juntos, ele tinha esquecido a data, como fez em todos os aniversários desde que completamos o primeiro ano, mas, assim que lhe disse que dia era a gente saiu e ele me levou num bar gostoso, tinha música ao vivo e… suco de melancia. O local era bom mas a música era insuportável, principalmente porque o cantor só cantava olhando pra nossa cara a noite toda, sempre pra nossa mesa. Talvez fosse o amarelo forte que Marcos estava usando que tenha atraído a atenção do artista”.

Marcos corrias as páginas que não se referiam a ele e só parava nas de interesse.

“Suco de melancia! Maldita hora que eu disse que gostava disso”. lia ele agora. “Não que eu não saiba que ele quer me agradar, mas todo dia especial entre a gente termina em suco de melancia. Podia variar, me dar um chocolate de vez em quando, pelo menos naquelas férias em que estivemos na praia”.

O rapaz agora não entendia direito o que se passava, ela sempre se mostrava tão feliz com o suco. Quem sabe tivesse sido apenas um péssimo dia registrado no diário. Ela sempre dizia que o amava e ressaltava o quanto era atencioso com os detalhes do que ela gostava e etc. Um mau dia, só isso, e decidiu ignorar essa última parte. O barulho vindo do banheiro indicava que Patrícia sairia em breve, ele tinha pouco tempo, virou mais um bloco de páginas e achou o dia de ontem anotado. Leu agitado.

“Amanhã é uma data especial, o casamento do irmão de Marcos. Espero que seja legal, pelo menos a data festiva não é do meu relacionamento, acho que finalmente não terei melancia numa noite de festa com Marcos, da última vez eu até vomitei de tão enjoada que estou, mas disse que foi o peixe”.

Patrícia abriu a porta e viu Marcos sentado, absorto na cama, mas já com o diário fechado e afastado ao canto.

– Este suco é pra mim, amor? – perguntou ela.

– Ah… não, eu estava com sede, é meu – respondeu ele, e completou – amor, seu pai tem uma meia fina preta pra me emprestar?

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