Foto tirada de: http://katrina.com.sapo.pt/bracos.jpg

As sandálias que ela tanto queria tornaram-se uma lembrança distante. O cheiro daquele perfume concretizou a profecia antes do previsto. Antes mesmo de o frasco se abrir ela já tinha partido… talvez não.

Você estragou tudo, ela disse. Naquela noite, meu Deus, você não deveria! E se eu ainda te quisesse? E se eu estivesse apenas me testando? Talvez eu só quisesse saber o quanto eu te amava…

Acho que ela descobriu, afinal. Ela era forte o suficiente para continuar amando-o depois de todo aquele tempo. Era forte para aguentar seus momentos difíceis, mas não forte o suficiente para vê-lo com outra.

As pessoas não deveriam se testar se não têm certeza de que suportam tudo o que advém do afastamento.

Ela chorava a cada palavra, estava com raiva. Quis bater nele, mas sabia que era ela mesma aquela a quem ela mais gostaria de agredir. Tentando se apaixonar novamente pela mesma pessoa acabou por levantar um muro contra aquele que mais admirava.

A vida é simples e boa, ela vale à pena; um amigo lhe disse, anos depois, numa situação totalmente diferente. Sem querer, ela lembrou dele. Era ele quem mais dizia aquilo e antes dela ter escutado de qualquer outro. Quando estava para afastar as lembranças de sua cabeça, pois ela era uma mulher forte, que já tinha superado tudo, o rádio daquele pequeno pub começou a tocar Roberto Carlos. Outra vez, era a música.

Aquela música era tão antiga para sua geração que ela não daria a mínima atenção em outra ocasião mas… ele era antiquado, gostava dessas coisas velhas. Costumava dizer que as coisas antigas tinham um sentimento maior, vindas de um momento em que o mundo não tinha tanta pressa em viver. Ele não gostava dessa pressa.

Ela, menina, amava a correria da metrópole. Hoje, mesmo ainda jovem, já sente um cansaço estranho, e continua a correr. Mas não esta noite. Dessa vez ela vai se permitir parar para escutar o Roberto, sentar numa mesa sozinha, longe daquele tumulto de vozes dos colegas de trabalho e pedir para repetirem a música quase por toda a noite…

“Você foi o melhor dos meus planos e o maior dos enganos que eu pude fazer”. Agora entendia o porquê de amá-lo tanto. Não conseguiu fazer planos para ele, era fora do padrão, imprevisível. Tão agitado e tranquilo, mesclava dois mundos opostos em seus pensamentos e atitudes. Mas quando estava em seus braços, conhecia a felicidade. Por isso o ódio daquela noite, porque se distanciou do seu ninho mais confortável, aconchegante.

Esta noite ela só queria saber onde estão aqueles braços envolventes… melhor, os queria perto dela, “Outra vez”.

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