Era um homem comum, estatura mediana, cabelos já quase grisalhos, um emprego que o deixava sobreviver bem e uma mania que nunca o abandonara: só fazia sexo no escuro.

Diga-se de passagem essa não é uma mania que atrapalhe muito sua vida e muitas pessoas a tem. Entretanto, para um quarentão que acabara de se divorciar, isso ficava um pouco estranho. Tinha terminado o casamento não sabia nem bem o porquê, mas queria aproveitar um pouco a vida.

Hoje em dia não é difícil encontrar mulheres bem mais novas que queiram arrumar alguém com uma vida praticamente pronta, onde elas precisem retocar pouco. Uma perda lamentável que demonstra a verdadeira transformação da alma feminina atual, elas pararam de cuidar e construir. Já querem tudo pronto.

Antes as mulheres queriam seus homens mais frescos (no sentido de não tão maduros e não no sentido gay), ainda em construção a fim de poder aplicar-lhes as características que achassem essenciais e ter com eles uma vida sóbria e digna, erigida sobre os padrões delas. Hoje, a mídia e essa incessante lapidação das pessoas fazem o trabalho por elas e as deixam preguiçosas: elas querem os homens prontos, com casa, carro e um belo armário de roupas. Se já tiverem filhos, tanto quanto melhor, assim não precisam cuidar de bebês e deformar seus belos corpos. Os relacionamentos se transformaram numa casa pré-moldada. Bonita, sim, mas também frágil.

Não é difícil achar este tipo de mulher pelos bares e baladas e ele as achava. Algumas se precipitavam e, talvez pelo álcool, talvez pela pressa em garantir seu espaço na vida dele, já queriam consumar o casamento inexistente no banheiro do local mesmo.

Neste momento, sua mania de só fazer sexo com a luz apagada atrapalhava-o. Não conseguia, não se concentrava. Estava excitado, iam para o banheiro e, assim que tiravam as roupas ou baixavam parte delas, a ênfase do momento passava, chegava a ser triste, deprimente para um homem, uma situação dura… digo,  mole.

A brochada do quarentão lembrava uma criança com medo de defecar fora de casa. O pirralho se aperta e se retorce, mas quando chega ao banheiro da escola ou de qualquer padaria da rua e abaixa suas calças… apenas dor e suor, pois nada sai dali. Basta abaixar as calças para que a vontade passe, assim como a excitação do grisalho.

Tudo isso tinha motivo, era culpa da sociedade, da nossa civilidade. Esteve por tanto tempo vivendo entre os homens e mulheres vestidos que não conseguia mais vê-los de outra forma, precisava das roupas para se manter excitado e, na falta dessas, necessitava da escuridão que deixava-o apenas com sua imaginação.

Entre uma e outra… brochada, o homem foi parando de querer encontrar novas parceiras e se lembrou de sua antiga esposa e percebeu o quanto ela era compreensíva. Agora, deitado no sofá, tentava imaginar o corpo belo da ex-mulher e lembrava apenas de suas roupas. Notara que nunca soube realmente como era seu corpo nu, não tinha lembranças cor de pele, apenas amarelas, azuis, vermelhas, das calças, vestidos e tudo o mais ou então da escuridão em que faziam amor.

Lembrou duma frase de Balzac que dizia: Quando se diz homem, na civilização, se diz homem vestido! Assim, riu de sua própria miséria.

Na solidão da noite não havia mais nada a fazer a não ser aquilo. Simplesmente apagou a luz e foi se masturbar.

 

Crônica inspirada pelo texto de Vivian Prestes Wolff, da revista conjecturas, numa homenagem aos chinelos, dedos tortos e a velha gorda de vermelho de seu restaurante. Acesse: http://www.conjecturas.com.br/mundar/quem%20sabe.htm

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