Ela estava com os olhos doloridos quando acordou. Havia sido uma noite exaustiva. Seus sonhos agitados denunciavam um coração cansado e a dor nos olhos fê-la lembrar das lágrimas da madrugada anterior. Ainda não acreditava que terminara com ele. Mais que em qualquer outro momento em sua vida, sentiu-se sozinha.

E não se sentia só apenas porque estava sem ele, mas porque sua essência parecia tê-la abandonado. Como ela pôde ser tão patética? Como pôde seguir um impulso tão infantil e querer terminar por um motivo que nem existia fora de sua cabeça? Nunca se perdoaria pelos testes que seu coração a obrigava fazer consigo mesma e com os outros. Não era necessário descobrir se ele a amava, estava estampado em seus olhos, em seus gestos, em seu toque. Ela nunca estava contente.

O que mais lhe doeu foi uma de suas últimas frases. Não sei se posso amar de novo da mesma forma, sinto que algo morreu dentro de mim – ele disse. Ela desabou a chorar e, apesar de se arrepender naquele momento por ter maculado um ser tão puro, seguiu em frente com aquela tolice.

Ela acorda, toma um banho e pinta seus cabelos de vermelho. Sempre quis fazer isso, na verdade, embora nunca tivesse tido coragem.

Coloca uma roupa bonita e se perfuma, como poucas vezes fazia, pelo menos quando ia pegar o trem.

Antes de deixar o apartamento, ela olha tudo em volta e, apesar da garganta apertar, não se permite chorar. Quer estar linda, o máximo que puder.

Ela coloca um papel no bolso e sai de casa. Algum tempo depois está na plataforma. Quando o trem passa, leva pelos trilho o corpo inerte de uma mulher com os cabelos vermelhos.

Depois de o resgate chegar, alguém acha o bilhete no bolso e lê algumas palavras que não fazem sentido:

“é uma nova saída

é uma noiva suicida

é uma noiva de saída

é uma saída suicida”

Foi a única maneira que ela encontrou de castigar aquela que matara a essência boa no peito daquele que a amava. Os passageiros das outras estações apenas reclamavam do atraso…

Esse post me apareceu na cabeça depois de ler um antigo texto meu postado em outro site (www.conjecturas.com.br), especialmente o trecho a seguir:

“E acabo de errar novamente, as pessoas não têm valor, elas têm importância, essência. O valor é para coisas, e estas nunca substituirão o carinho de alguém”

Para ler o texto completo é só acessar (http://www.conjecturas.com.br/edicao06/mundar/estava.htm)

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