Avenida Paulista, ao pôr do sol.

Era junho, mas não se fala aqui das festas de São João.

Um dia antes do dia dos namorados resolveram se encontrar. Era uma data duplamente marcante.

Isso porque já há algum tempo estavam juntos e o fato de ser um dia exato antes das comemorações dos atingidos pelo cupido, fez com que eles arriscassem um passeio de mãos dadas.

Sem idéia de onde ir, decidiram se encontrar numa avenida movimentada, num escadão à entrada duma faculdade. Naqueles arredores teriam mais opções.

Ele fez questão de chegar quarenta minutos antes e sentar quase escondido atrás de uma pilastra. Antes de saber se continuava com aquela garota ou não era preciso conhecê-la, e não havia melhor maneira do que observá-la sem que ela soubesse que ele já ali estava.

Ela chegou quase 20 minutos antes do combinado. Talvez porque viesse de outra cidade e ficasse difícil calcular o tempo exatamente. Ele encarou como ansiedade, e gostou.

Ela ficou calma até chegar perto do horário exato que haviam marcado e então passou a se mexer mais, consultava o horário, olhava para o embrulho que trouxera… Certamente um presente. Não de namorados, pois é óbvio que não eram, mas… do que poderia ser chamada a relação deles?

“Pare de ser tola, não existe relação nenhuma, só estamos saindo”, pensou ela, tentando afastar um sentimento terno por ele. Principalmente porque percebera que ele estava atrasado para vê-la.

Ele percebeu sua inquietude e sorriu levemente. Agora ela passava a olhar os lados, tentar enxergar os degraus acima e ver se ele não errara. Ele se esgueirava pelas colunas evitando ser localizado.

Depois de alguns minutos pensou que já estava na hora de aparecer. Provocar é uma coisa, mas má impressão é totalmente diferente. Entretanto, não podia aparecer por detrás, ela certamente desconfiaria.

Não muito se passou até que a sorte o ajudasse, ela desceu e foi comprar balas. Tempo suficiente para ele se sentar mais alguns degraus à vista e fingir que chegara naquele exato momento.

Depois que ele se desculpou passearam, assistiram a um filme. Um pouco denso para ocasião, é verdade, mas mesmo assim bom. Quando estavam em frente a um vendedor de barraquinha armada na avenida, ela parou para ver óculos. Gostou de um e ele se ofereceu para comprar-lhe.

Como toda mulher, fez charme, mas pulou de alegria por dentro ao perceber o agrado que ele tentava lhe fazer. O vendedor olhou aquele suposto casal de namorados e disse para a moça… “Não largue esse menino, ele vai te fazer muito feliz”.

A cena foi poética e bela, principalmente com o sol se pondo entre os muros de vidro, aço e concreto daquele lugar, o que dava um tom alaranjado a tudo.

Ela se agarrou ao braço do garoto e ele se sentiu feliz. É sempre bom quando alguém de fora aprova um relacionamento, ainda mais com uma previsão positiva.

Alguns anos depois, estava tudo acabado entre eles. Ela nem se lembra mais dos óculos e ele costuma se atrasar de verdade agora para os encontros.

O vendedor previu o quanto ele a faria feliz, e estava certo, mas esqueceu de dizer o quanto ele a irritava nas pequenas coisas. Mas uma coisa não se pode negar: ao contrário de muitos homens, ele sempre deu muita atenção ao que ela dizia…

Mesmo que fosse no dia dez de junho quando ela disse, antes de se despedirem: “não se atrase amanhã… eu não suporto atrasos”.

Anos depois ele se lembra da cena e sorri enquanto chupa uma bala de hortelã ao pôr do sol.

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