Saudades...
Saudades...

Dia ensolarado, entramos num carro e dirigimos pela rodovia em direção ao interior. O destino era um conhecido restaurante um tanto rústico que remetia à infância. Não só pelos brinquedos no grande jardim, mas porque eu havia brincado naquele local desde pequeno.

Era quase como uma tradição. Chegar lá, pedir lingüiça, polenta, salada e uma coca pros netos. Não tinha nada que o fazia mais feliz que tomar uma cerveja enquanto pagava uma coca pros netos. Não aceitava que ninguém pagasse. Ficava nervoso. Era um “direito” dele.

Depois fomos pescar, sentar na beira do lago com a vara e ficar jogando conversa fora enquanto ele nos ensinava os macetes de como colocar a isca, lançar a linha, amarrar o chumbo e cansar o peixe. Mesmo que não pegássemos grande coisa, a lição de vida que tínhamos a cada história valia cada segundo.

Voltamos pra casa cansados porém felizes com o dia, com a roupa suja, cheirando a peixe e água do lago, mas nunca com a alma tão lavada e leve.

Ele nos mantinha pequenos não importando a idade, os eternos netos. O orgulho daquele sorriso simpático que conversava com todo mundo e fazia churrasco nas festas juninas da escola. Daquele que chorava de emoção quando via a família reunida e sorria mesmo quando não faziam piadas.

Ele que contava da sua vida pra todos, que queria saber se todos estavam gostando da festa ou da viagem. Um homem justo, um homem bom, digno. Aquele que ensinava a todos ao seu redor, não só pelas palavras, mas também por suas ações.

Um romântico com sua companheira, o pilar de suas filhas, o ícone da família. O eletricista de domingo, às vezes o encanador de sábado. Mas o homem mais querido todos os dias de sua vida.

Seu cabelo branco remetia aos anjos, seu bigode aos homens e fora um pouco dos dois. Viveu, foi adorado e amado entre os homens, e agora acolhido dentre seus outros semelhantes, os anjos.

Muitas vezes não suportamos a perda de alguém tão bom, e entender o sentido do “nunca mais” é muito difícil. Pelo menos para nós, homens, que ainda não compreendemos, como os anjos, que não existe “nunca mais”, apenas há um “daqui a pouco”.

Obrigado pelos ensinamentos, pelo cuidado, bondade, amor e sabedoria.

De um neto que ainda queria lições de como pescar.

Saudades…

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