Mas…

Um pouco de tudo – muito de nada

No olhar do furacão: ela

Posted by RDS em novembro 21, 2016

tornadoMenino, perdão, garoto!

Não se ache homem demais com ela. Não se deixe levar pelo rosto de menina, pela pele macia e sorriso de moleca. Repare um pouco mais, absorva esse olhar que queima e esse peito que arfa, as coisas vão além do que essa sua miopia padronizadora vê!

Ela é uma mistura. Tem menina, tem mulher, tem sol e tem lua. Tudo ali no coração, na alma ardente. Ela ilumina e queima, ela gira e se esconde, mas não são fases, são turbilhões não padronizados.

Há momentos em que é transparente, diz o que pensa e sente, fácil de se lidar, de sorriso solto e papo leve. Dá para entender, decifrar, definir, até saber o que esperar. E daí… bum! Vem a mulher surpresa.

De repente ela se transforma e fica emburrada por algo que não dá pra saber, ou faz doce para falar o que pensa. Vira o rosto quando você a olha profundamente ou se esquiva das perguntas. Nesses momentos, não tente defini-la de maneira simplista, sua atitude vem um pouco do fato de que nem ela mesma conseguiu entender o que se passa em si.

Ela vem intensa como um furacão, cheia de reviravoltas, ideias, pensamentos e atitudes. Nesses momentos, tudo pode acontecer. Instantes de raiva misturados a gargalhadas loucas, uma paixão e tesão intensos ou uma ideia nova, um caldeirão borbulhante e fervente que queima e ao mesmo tempo atrai quem estiver próximo.

Ela é um tornado que balança e chacoalha, remexe com os sentidos e sentimentos, inspira um pouco de tudo e faz transpirar um pouco mais.

Muitos se assustam, se afastam, ficam acuados por essa intensidade, pois ela assusta e nem todos estão dispostos ou têm coragem de mergulhar nesse universo que te desafia. Não cometa esse erro, garoto!

Mal sabe você que, como qualquer força arrasadora da natureza, ela se comporta como um tornado. Quando se tem coragem e força para ultrapassar a linha da reviravolta, o olho do furacão é, na verdade, um local tranquilo e o mais seguro possível.

Quando aceita alguém em seus braços quer dar carinho, proteção e se dedicar. Desenha com os lábios pelo seu corpo e acalma suas aflições com seu corpo de mulher, com aquela mesma pele macia e aquele olhar faiscante que pode se metamorfosear num fitar terno.

Garoto, não se ache homem demais com ela, mas não desista, pois só os que estão dispostos a enfrentar suas tempestades têm direito a receber sua bonança e calmaria.

Não se deixe levar pelo rosto de menina…

 

Imagem daqui

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Sendo um, sendo todos

Posted by RDS em outubro 17, 2016

quebra-cabeca-de-rosto-c7055O céu se abre num azul esplêndido e mais um dia raia. Ele levanta coçando os olhos, meio puto porque se esqueceu de fechar as venezianas da janela, mas feliz por ver que há sol – ele não gosta de dias nublados. De certa forma, seu humor acompanha as cores celestes.

Se nuvens o cobrem, parece pesar também sobre ele uma massa disforme que tira o colorido de seus momentos. Gay, talvez, mas não menos verdade. E isso não ocorre apenas com o céu, acontece com o ar, com as pessoas ao seu redor.

Ele é um radar de sentimentos, captando, depurando e traduzindo cada emoção, mesmo as que não são suas. Mesmo que as palavras às vezes não deem conta de fazê-lo totalmente… e elas nunca dão, mas ele segue tentando.

Todas as diversas músicas que escuta contam a sua história. Ele sente tudo o que acontece nelas. A descrição da festa ou da briga, o amor eterno, a empolgação, a diversão, a angústia, as dores, os amores perdidos e vividos, os não realizados, as amizades vindouras, as antigas, as vitórias, as derrotas, as belas conquistas e desejos. Tudo é ele e seu eu quase não existe, afinal, porque se perde no tudo que o compõe…

É isso, ele absorve!

E por absorver, mesmo que nos seus não exista, ele quer um sorriso nos lábios alheios. Pois ele sabe que o alheio também lhe pertence, também é parte dele. Por isso é tão bom ver o outro sorrir, a menina cantar, o amigo refletir, a garota bailar bela com os cabelos soltos – seja na pista de dança, seja num quarto onde apenas os dois se encontram, bailando e cantando como dois loucos.

Ele absorve os amores que viveu e os quais deixou de viver, lembra-se de todos os beijos e os estala nos lábios de sua memória ou imaginação de vez e quando, porque um beijo se acaba, mas nunca se perde para quem sabe sorver toda sua delícia, conexão e prazer.

Lembra-se das conversas até de madrugada, fossem numa mesa da casa de um amigo, após uma festa, fossem num quarto, deitado na cama, ou mesmo em intermináveis mensagens engraçadas e interessantes que o faziam ficar acordado, desde adolescente, quando era necessário aguardar até a meia-noite para se conectar a uma lenta rede.

Ele se lembra, ele vê, ele sente pelo outro.

Sente muito por cada afastamento e distância, pois queria ser de tudo um pouco, se doar um pouco a cada pessoa e ver vários sorrisos e gargalhadas espocando por aí. Mas sente alegria por cada rosto alegre que viu e provocou, por cada som belo que seus ouvidos tiveram a oportunidade de conhecer, por cada toque de pele que suas mãos sentiram, por cada suspiro ou gargalhada que presenciou. Fez muitas histórias, apesar de ter apenas a sua própria.

Porque ele absorve, e só é feliz quando os outros também o são. E, apesar de isso lhe trazer, ao mesmo tempo, as dores que os outros vivem ou sentem, ele prefere fazer parte e compartilhar, pois é maravilhoso ter um pedaço de cada pessoa em si. Ser um quebra-cabeça montado com pessoas que passam, fizeram e fazem parte de sua vida.

Não consegue ser apenas um, apesar de o ser…

 

Imagem daqui

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Criançando

Posted by RDS em outubro 11, 2016

skateDentre desenhos e doces

Pipas e piões

Em tudo que tu fosses

Seríamos seus guardiões

 

Promessa complicada

Que só o amor permite cumprir

Galgando os pais tal escada

Ao devir e ao porvir

 

Gira no quintal, abraça a perna do adulto

Se esconde pra brincar com o mundo

Fala de noite, tem medo do oculto

E em cada palavra revela um saber profundo

 

Serzinho tão pequeno

E fermento tão enorme

Tem um sono tão sereno

Um amor que nem tem nome

 

Preenche nosso peito

Alegra a seca alma

Cansados da lida vemos jeito

No sorriso dela, no bater de sua palma

 

Pois seu olhar nos inspira o algo a mais

Dos sonhos que temos, preferimos o dela

Elevamos o tudo do qual somos capaz

Faz a vida ter mais brilho, ser a luta tão mais bela

 

Infância era de pião, gude e rolimã

Passamos a Atari, Pogobol, carteado

Veio mais desenho, internet, Instagram

E hoje o sorriso se divide entre a rua e o que é postado

 

Mas o espírito que a move é igual,

Como o nosso era empurrado um dia

Brincar, sorrir, amar e querer o bem tal qual

Aprendemos no lar que nos subsidia

 

Pois a verdade é que a guardamos sempre no coração

O que fomos, somos e seremos fazem parte

Da criança que éramos, que sonhava com emoção

E olhava o mundo, vivendo com arte

 

Então façamos lambança nessa dança que conduz

A criança que há em nós ainda lança luz

Pois alcança algo além da trança ou do capuz

Enche a pança, dá esperança, não carrega cruz

Traz a aliança com a vida, confiança que produz

A melhor mudança, leva à bonança, sem ser lapuz

Deixando de lado a vingança, em semelhança ao andaluz

E é de fato a liderança que leva à intemperança do que é bom, libertando esse espírito que seduz

 

Bora rolar na lama, correr na chuva

Assoviar andando, tropeçar e bailar

Pois isso cai como uma luva

Para quem é criança ou só quer lembrar

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Sonhar…

Posted by RDS em outubro 5, 2016


Sabe quando você assiste a algo tão bom que dói? Dói porque é lindo demais para não ser gritado, mas não pode ser porque, do contrário, deixaria de ser tão profundo?

Sabe quando você respira a brisa da noite e ela te lembra que este é o único momento em que você se sente vivo? O único momento em que parece que consegue ser você mesmo em todo seu potencial e essência… O momento que te lembra, hoje, de outros momentos exatamente iguais quando você caminha até o quintal ou janela para olhar o céu, respira fundo e sente o perfume da noite.

Sim, ela é uma dama belíssima que te enlaça e encanta, sussurrando palavras doces ao ouvido para que você a aproveite até o amanhecer. A explosão do sol não carrega os mistérios e delícias dessa dama.

Pois é, o tom é poesia e drama ao mesmo tempo. A vida é feita dessa mistura.

Eu cresci com filmes e livros e canções (assim mesmo, cheio de aditivos) que mostravam o quanto eu sentiria falta da escola enquanto ainda estava nela, e eles estavam todos certos.

Assim como outras histórias que li sobre amor, amizade e mesmo aquelas sobre as quais já escrevi a respeito. Existe verdade em tudo isso de bom e mau. Viver dói.

É bom porque é assim que se pode sentir, aprender, sorver momentos, memórias, essas brisas e essas noites que, desconfio, seja uma apenas, condensada dentro do meu coração e dissipada no céu para me inspirar a contemplá-la.

Mas é ruim porque parece sempre uma fumaça que flutua ao meu redor.

A minha noção da vida está espalhadas em migalhas pelos meus textos, conversas, imagens, piadas sobre tudo e sobre mim mesmo. Parece algo que não é sólido e que se desmancha quanto tento agarrar. Basta eu querer definir e tudo se torna etéreo, como minhas divagações: deliciosas e ameaçadoras.

Meus desejos e sonhos me machucam. Na verdade sempre me machucaram. Eu sei que eu não vivo no chão, eu caminho em um algo além da minha mente, da realidade palpável. Só existo de verdade nos recônditos flutuantes da minha imaginação. Como a caverna do filósofo, o que todos podem ver por fora nada mais é que uma sombra… E ela também machuca.

O espelho é um detalhe de superfície e sinto que cada vez que escrevo para me descobrir, acabo deixando uma parte de mim para trás. Como se eu fosse feito de areia e minhas letras de cada grão. Quando tento escrever o que sou, sou um pouco menos do que era há pouco.

Mesmo assim, não me preservo. A musa inspiradora me guia um pouco mais além. Perco-me em minhas letras, soprado pela brisa da dama-noite!

Os momentos que se eternizam na memória são belos e duros. Cada suspiro que a brisa me traz me lembra de um sonho não alcançado.

Dizem que temos de seguir tentando. Continuo, assim, minhas tentativas de sonhar, afinal, é o que faço de melhor.

Boa noite!

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O pássaro, a liberdade e o almoço

Posted by RDS em setembro 30, 2016

IMG015Há um pássaro que posso ver da janela do meu escritório.

Ele é grande e insiste em voar pelo céu azul com as asas bem abertas, planando, girando, passando entre os prédios e se divertindo. Ele exibe sua liberdade como um troféu. A vista pode não ser das melhores para ele, mas ele está acima de tudo isso. Os prédios e asfalto não importam quando você voa e sente o vento na face, ou no bico, no caso.

Sei que é uma provocação, uma exibição de liberdade do tipo "ei, você se acha racional, mas quem é que está aproveitando o dia? Voar não é para o seu bico", ele diz (com o perdão do trocadilho).

Ele tem razão.

No almoço, comi carne de ave. Só para me vingar!

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Ode à bagunça

Posted by RDS em setembro 22, 2016

Duas mulheres sentadas em um sofá em um fim de noite após um encontro entre amigos.
A casa está desarrumada, copos espalhados. Entre elas há uma garrafa de vinho pela metade. Chegaram ao ponto em que não há timidez…

 – A verdade da vida, minha querida, é que os homens de verdade gostam de bagunçar e desarrumar as coisas.

– Não, homem de verdade gosta de transar bem, isso sim!

– Dá no mesmo…

– Como assim?

– Bem, eles veem uma casa arrumada e jogam roupas por todos os lados e espalham coisas. Veem um banheiro limpo e mijam na borda do vaso. Encontram a gente toda maquiada e arrumada e querem bagunçar nosso cabelo e tirar nosso batom todinho. Fora quando estamos com o corpo lindo e eles nos engravidam. Eles não querem o filho, só querem trepar forte e nos bagunçar. Chegam ao trabalho e desarrumam a mesa, eles são assim.

– Mas o que dizer dos homens que gostam da casa e mesa de trabalho arrumados, por exemplo?

– Estes não sabem trepar direito…

– Como você sabe?

– Se você termina a noite com o batom que começou e o cabelo no lugar, a transa nem aconteceu ou foi uma merda!

– Ainda bem que eles gostam de bagunça…

E as duas riram enquanto finalizavam mais uma taça de vinho.

Imagem daqui

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Coisas que não deveriam acontecer numa segunda

Posted by RDS em setembro 19, 2016

P9160007Coisas que não deveriam acontecer numa segunda-feira aconteceram hoje antes das 11h00 da manhã.

Você tem um final de semana ótimo e isso já deixa o dia de labuta meio sem cor em comparação aos anteriores, mas tem sol, calor, tudo o que você gosta, então bora!

Daí um amigo posta fotos de um ano incrível, que já faz uns oito anos, e um monte de lembranças invade a mente. Isso é delicioso, mas também nostálgico, pois, mesmo não sendo sua melhor época fisicamente (vamos combinar que o cavanhaque não combinava com o cabelo de algodão-doce), você gostava da liberdade e sensação de formar o mundo.

E então a playlist randômica rola um “Filtro solar”, com o Bial falando da vida e da importância que as coisas tem e a nostalgia alcança níveis absurdos.

Você já está relembrando coisas da vida, caminhos, momentos, etc… E então um amigo te chama e te rememora de que, por volta de 2003/2004, você e ele tinham um projeto de um livro de humor e que escreviam pequenos esquetes e textos de stand up. Projetos engraçadíssimos que se perderam em alguma esquina da vida quando decidiram pensar em vestibular e trabalho.

Aí a sensação que te invade é a de que perderam algum tipo de onda, pois, poucos anos depois, vários artistas começaram a se firmar na área com esse modelo de humor. E dá mó vontade de falar algo do tipo “ei, eu fazia isso antes…”. Mas você sabe que as escolhas foram suas, você realizou outras coisas no lugar daquelas e, vamos combinar, ninguém é dono de nada nessa vida. Ideias e momentos estão aí para serem aproveitados.

Obrigado segunda-feira! Obrigado por lembrar tudo que eu já fiz e o que ainda não fiz também. Mas valeu por simbolizar que muita coisa ainda pode rolar. O que vou estar lembrando daqui a 10 anos, afinal, se ainda estiver vivo?

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Uma quarta qualquer – Parte V

Posted by RDS em setembro 13, 2016

As coisas da vida

livrosO tratamento odontológico teve de seguir por mais algum tempo e a amizade deles seguiu pelo mesmo período. Sentiam-se muito à vontade entre si, inspiravam-se. Porém, quando o nome de Bianca M. já não era mais constante na agenda do doutor, foram diminuindo o contato que tinham pouco a pouco…

Pelos rumos que a vida toma sem sabermos exatamente para onde está indo, eles acabaram sem se ver por cerca de cinco anos.

Ela chegou a voltar ao consultório em algumas ocasiões dentro desse período para uma manutenção ou outra, mas não se encontraram mais, ele havia saído do consultório odontológico no qual era recepcionista e auxiliar. Ela sabia que ele seguira seu rumo, assim como ela havia feito.

Ele não carregava dores no peito a respeito dela. Entendia que ela tivera uma vida antes de se encontrarem, assim como ele mesmo tivera a sua, e que ambos seguiriam com suas histórias de vida um sem o outro.

O que carregava consigo, no entanto, era uma lembrança gostosa, tal qual uma cerveja refrescante num início de uma noite abafada. Era uma pena ela tê-lo esquecido. Ele sabia que ela o havia esquecido, deveria estar casada, com filhos, vivendo feliz. Era o que desejava a ela, mas suspirava quando vinha-lhe à mente a pergunta: será que ela se lembrava dele? Pensando nisso, chacoalhava a cabeça como que para espantar tais ideias.

Ele mesmo já estava noivo há um ano, após três de namoro. Estava feliz e planejando se mudar, em breve, para o interior e arriscar uma vida tranquila.

A vida muda. Relembrar não é para todos…

Ainda naquele dia foi ao shopping procurar um presente para seu sogro, que aniversariaria em breve. Sua noiva adentrou uma livraria e foi pesquisar a seção de esportes. Se fossem rápidos o bastante, talvez conseguissem ainda pegar uma sessão de cinema. Ao contrário do sogro, porém, ele sempre preferiu ficção e caminhou naquela direção.

Alguns minutos se passaram enquanto seus olhos estavam fixos no livro que tinha nas mãos. De repente, como se estivesse emergindo d’água, pôde escutar o chamado de sua noiva:

– Nando?

– Oi?

– Te chamei três vezes já! O que acha deste? – e mostrou um livro de um famoso atleta, perguntando se seu pai gostaria.

– Sim, acho que é a cara dele!

– Por que está com esse riso bobo? – perguntou ela, também sorrindo.

– Nada! – devolveu ele com os olhos brilhando – Apenas me lembrei duma coisa antiga.

– Que livro é esse? – e tentando ler a parte de trás do livro que ele trazia nas mãos balbuciou: “Você só tem esse momento para mudar o rumo dos próximos. Lembre-se disso…” – Deve ser autoajuda!

– Vamos? – disse ele, colocando o livro que tinha em mãos de volta na prateleira.

– Vamos – confirmou ela.

Na capa da obra que acabara de retornar à prateleira se podia ler: “Uma quarta qualquer… e outros contos” – de Bianca M.

Mesmo distantes, os dois sorriam pelos momentos únicos da vida que mudam nossos destinos!

Imagem daqui

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Uma quarta qualquer – Parte IV

Posted by RDS em setembro 13, 2016

Só temos o agora

ma%cc%83os-entrelac%cc%a7adasPerto da hora de buscá-la, ele mandou uma mensagem perguntando se estava tudo bem e confessou que estava um pouco nervoso. Ela disse que estava tudo ótimo e disse que estava tranquila, ele estremeceu ainda mais.

Ela estava linda quando ele chegou em frente ao prédio onde a buscaria. Ela entrou no carro:

– Boa noite, tudo bem, Bia?

– Na verdade, eu estou um pouco nervosa – replicou ela e ele entendeu que o “tranquila” de antes talvez tivesse sido só uma provocação.

– Eu gostaria de fazer uma coisa antes de sairmos.

– O quê, Nando? – questionou receosa.

– Quebrar o gelo!

E no mesmo momento ele se inclinou para ela, colocou sua mão em sua nuca, deslizando seus dedos pelos cabelos de Bia e aproximando suas faces. Ela travou a respiração por um segundo, mas não recuou. Ele colou seus lábios ao dela e a beijou com intensidade e prazer. Sua outra mão agarrou sua cintura e puxou os corpos para mais perto. Não foi o beijo mais longo do mundo, mas fez com que perdessem a noção do tempo por vários segundos.

Ao se descolarem, Nando ainda absorvendo o sabor daqueles lábios deliciosos que estiveram junto aos seus, passando a língua levemente em seus próprios para não perder nada do momento. Bia abriu os olhos, levantou as sobrancelhas e piscou respirando mais profundamente e só disse “uau”!

– Onde vamos, afinal? Este é o seu bairro, me guie – disse ele, emendando uma transição de momento.

– Podemos ir a um motel que conheço, mas poderíamos tomar algo antes.

– Vamos rumo a uma cerveja, então! – e ela sugeriu um local ao qual logo chegaram, não sem antes darem mais um ou dois beijos enquanto estavam nos semáforos.

Nando se mostrava muito à vontade, empolgado, mas não nervoso e isso impressionou Bianca. Eles conversaram sobre vários assuntos no bar, riram demais e ela se descontraiu mais do que esperava que conseguiria numa situação como aquela. Bianca estava envolvida naquele momento apenas, vivia o presente como poucas vezes havia conseguido, como se os segundos vividos agora, a cada instante, fossem os únicos que realmente possuímos. Em sua mente, Nando ficou assim definido: o homem que vive o agora.

– Como você consegue estar aqui? – perguntou ela.

– Como assim? – se espantou ele.

– Você está aqui! Você conversa, reflete, sorri, me toca… você está inteiramente aqui, achei que sua cabeça estaria em outro lugar, querendo partir para o próximo passo apenas, não sei… – as reflexões dela não estavam muito claras nem mesmo para si.

– Onde mais eu estaria? Eu só tenho o agora. Não quero viver uma vida inconsequente como se fosse morrer no próximo segundo, mas eu só tenho esse momento para mudar o rumo dos próximos. Lembre-se disso…

– Vocês aceitam mais uma rodada? – perguntou um garçom que passava por eles

– Ela é quem manda, daqui a pouco vamos sair – devolveu Fernando simpático.

– Mais uma apenas – e, virando-se para ele, completou – ainda dá tempo de desistir?

Ele riu e a beijou intensamente, deslizando a mão pela lateral do seu corpo até chegar às suas coxas, puxando-a para si. Aquela cerveja refrescante num início de noite abafada era mais deliciosa do que parecia.

– Você quer desistir? – questionou sorrindo.

Ela o olhou de maneira tão intensa que nem respondeu. Ele pagou a conta e foram embora, apertando os corpos entre si enquanto caminhavam, como que antecipando a ação, querendo fundir as carnes.

Bianca entrou no carro e ele, ainda de pé daquele lado da porta, se abaixou para beijá-la mais uma vez. Foi naquele instante que todas as dúvidas dela sumiram: ela o queria! E não pensou mais em seu noivo durante toda a noite.

Já no quarto, despiram-se e ele olhava com prazer e admiração aquele corpo cheiroso, de pele macia, os olhos brilhantes, ela um pouco tímida, com a lingerie toda preta e ele riu da cena.

Ela achou curioso o riso e questionou a respeito. Ele respondeu:

– Você sabe o que dizem, “se a calcinha de uma mulher está combinando com o sutiã, você não a conquistou, você foi escolhido!”.

Bianca riu da observação, mas viu a verdade da brincadeira, ela o queria mais e mais.

Beijaram-se por todos os locais, agarraram-se, apertaram um corpo contra o outro, admiraram os suspiros, os gemidos, os toques, dedos, línguas, pele, coxas, bocas, pescoços. Deram prazer, tiveram prazer, tinham cada vez mais prazer no prazer do outro. Amaram-se deitados, em pé, em todas as posições que encontraram e repetiram todas novamente.

Os tremores dos corpos pulsavam como uma mensagem que dizia quererem mais e mais.

O rádio ligado tocava diversas baladas, mas as batidas fortes dos corações e as respirações ofegantes sobrepunham-se a qualquer canção. Encaravam-se às vezes e quase não conseguiam sustentar os olhares por muito tempo, um fogo parecia queimar cada um deles quando sob o olhar do outro, quase como se o gozo fosse intenso demais para ser suportado. Uma pequena morte e renascimento a cada momento.

Caíram na cama exaustos e ela ainda admirava os tremores que percorriam o seu próprio corpo, pensando também nos do dele.

– Você sempre é tão intenso assim?

Ele sorriu e perguntou se ela desejava água. Ela disse que sim, mas não conseguiram encontrar a pequena geladeira que supostamente estaria no quarto. As paredes na cor vinho davam um tom de abafado ao quarto, o que combinava com o que sentiam.

Ele lembrou que havia água no carro e buscou para ela. Não havia muita, mas foi o suficiente. Pouco a pouco a canseira de um dia de trabalho, do esforço físico e da ansiedade baixou sobre ela. Após aquele momento intenso de amor, ela adormeceu.

Ele, depois de cobrir seu corpo nu com um lençol, deitou-se a seu lado e a acariciou levemente os cabelos e o rosto. Pouco tempo depois, quando ela despertou, ele ainda estava olhando-a e sorrindo. Ela fechou os olhos por mais alguns segundos, um pouco tímida de se perceber observada, mas com o coração reconfortado por um carinho tão acalentador e aquecido.

Fizeram amor mais duas vezes naquela mesma madrugada e, pouco antes de partirem e voltarem para a realidade, ele acompanhou uma música que rolava no rádio e cantou para ela.

Ela não desgrudou os olhos dele nem um segundo sequer. Havia na cena uma magia única. Ele, obviamente, não era um cantor, mas a voz carregava carinho, encanto e vontade de agradar com uma poesia que parecia vir dele. A música já não estava mais no rádio, mas soava direto dele para ela, uma comunicação direta: conectados por aquele momento como talvez nunca estiveram antes e talvez nunca mais estariam, entre si ou com outras pessoas…

Ao deixá-la em seu apartamento, quase no amanhecer, Fernando deu um forte abraço naquela mulher que se tornava uma menina em seus braços. Ela absorveu todo aquele calor, disse ter sido incrível e entrou.

Quando se viu sozinha, não foi o arrependimento pelo noivo que lhe passou pela cabeça, mas apenas uma pergunta louca: quem era Fernando e, mais ainda, quem ela, Bianca, era? Não se reconheceu na intensidade de seu prazer, sensações e vontades. Não sabia que poderia ser tão destemida, sentir tantas coisas maravilhosas e se permitir conhecer outra pessoa tão rapidamente dessa forma.

Com a lembrança do olhar de Nando ainda na memória, Bia só saiu daquela espécie de transe quando ouviu seu pai sair do quarto para tomar o café.

Ao deitar-se em sua cama, poucas horas antes de ter de se levantar, seus lábios esboçaram um sorriso, como que encontrando um sentido não revelado, não posto em palavras naquilo tudo. Nando talvez tivesse completado nela algo que ela sempre buscou em si… “Não”, pensou, “eu sempre soube e senti tudo isso, mas ele foi um gatilho para que eu soubesse onde isso estava em mim, como um espelho que nos ajuda mostrando um reflexo de nós que já existe. Eu sou dona da minha própria vida e história e, por mais assustador e difícil que possa parecer pela responsabilidade, é delicioso”. Adormeceu agradecida por aquela quarta-feira qualquer que existiu em sua vida.

Voltando para seu apartamento vazio onde morava sozinho, Fernando sorria pela noite maravilhosa e se encantava pelo jeito de Bianca e em poder ter visto o quanto ela era incrível quando permitia a si ser ela mesma…

 

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Uma quarta qualquer – Parte III

Posted by RDS em setembro 13, 2016

O novo encontro

watch_wallpaper_1024x768_wallpaperhereQuando se encontraram no consultório, o cumprimento entre eles foi feito com respirações entrecortadas, se queriam. Mas havia o óbvio problema:

– Você é noiva, está para casar e isso é errado… Eu sei que não deveria dizer isso, mas eu te quero! – ela silenciou, sabia que também o que queria, mas o que ele apontava era evidente demais.

– É errado, sim, e eu deveria ter parado logo no início.

– E por que não parou? Há algo errado no seu relacionamento?

– Não há nada de errado, ele ainda é a melhor pessoa que conheço e quem quero para mim, mas algo pulsa em mim quando te vejo, te escuto… Sua voz faz meu corpo vibrar, querer.

– E o que vamos fazer a respeito? – perguntou ele sem saber se para ela ou para si mesmo. Acho que a coisa toda é difícil para você do que para mim, que estou livre.

– Qualquer coisa que eu fizer, não poderei culpar ninguém a não ser eu mesma e à minha vontade.

– Então você também quer?

– Muito! – e ele viu novamente aquelas faíscas nos olhos dela.

Encararam-se por alguns segundos, decidindo internamente o que já estava óbvio para seus corações que batiam apressados.

– Quarta-feira – disse ele.

– Como assim?

– Meu professor faltará nesse dia e terei a noite livre… – arriscou ele, achando que Bia negaria, ele mesmo não acreditava no que dizia.

Ela o olhou intensamente, pensou em seu noivo, no seu desejo, em como as coisas estavam resolvidas em seu coração. Um salto, juízo contra coragem, prazer ou sensatez. O que seria?

– A que horas? – respondeu Bia, e os dois não conseguiram pensar em mais nada naquela segunda-feira.

A terça passou lenta e com os pensamentos agitados, não se falaram naquele dia e ambos pensaram em desistir, mas a quarta-feira chegou e nenhum dos dois cancelou o encontro.

Imagem daqui

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