Mas…

Um pouco de tudo – muito de nada

Arquivo da categoria ‘Saudade e lembrança’

Extrato

Publicado por RDS em maio 25, 2012

Quadra de um antigo poema encontrado…

 

O que eu faço pra te ter?

O que eu fiz pra te perder?

Acho que foi o que não fiz…

De muito te querer, era tanto que não quis!

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Noite na estação

Publicado por RDS em janeiro 11, 2012

 

estacao-de-tremEra noite, tarde.

Ele atravessou calmamente o pátio entre as estações e ficou de pé olhando-a entre as grades. Ela estava sentada, com seu jeito de menina, delicado – pensou em como era curioso como às vezes ela parecia uma mulher cheia de atitude e, de repente, uma menina a ser cuidada.

Ela acenou de maneira suave e ele demonstrou um olhar mais demorado, profundo, apertando os lábios em sinal de resposta, num meio-sorriso. Ela pareceu satisfeita, plena.

Ali, contemplando sua garota ao longe, pareceu-lhe ser uma cena eterna, o resumo da vida talvez.

Ele aguardou até que o trem dela chegasse, não podia fazer muito, as coisas eram assim, mas cuidava dela com seu olhar, acariciava-a ao longe pelo brilho de suas íris.

Quando ela partiu, ele tentou pegar um ônibus de volta para casa, mas já era tarde, mais, demais.

Qualquer outro ficaria desapontado, mas ele decidiu caminhar. A noite trazia uma brisa boa o suficiente para andar e ele seguiu o suspiro do céu enegrecido.

A cidade batia junto com suas passadas no asfalto, suavemente. Por mais que alguns veículos lhe passassem perto apressados, nada o atingia. As luzes amareladas da cidade traziam boas sensações ao peito e sua respiração transformava tudo em magia.

Hoje os amantes já não estão mais juntos, os trens mudaram os horários, e a vida tem alguns aspectos que a gente nunca entende completamente.

Podem não mais se amar, mas na lembrança, quando vem à tona, ela ainda é uma menina que só precisa de carinho e ele um garoto apaixonado que voltou a pé para casa… pensando em sua amada durante todo o caminho.

 

A figura chegou de viagem daqui

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Caronas e complicações

Publicado por RDS em novembro 22, 2011

caronaEnvelhecer é meio complicado, não tanto pelas possíveis dores nas costas (que atribuímos sempre a um colchão), nem pelo fato de alguns desenhos perderem a graça (tanto porque outros ficam ainda melhores), mas sim porque a gente vê que as coisas podem ser um pouco estranhas entre as pessoas de repente.

Pode ser uma questão pura de classes sociais ou coisas do tipo, mas quando envelhecemos fica mais difícil de fazer as pazes em certas situações.

Que não tentem me enganar, sejam crianças ou adultos, todas as pessoas entram em atrito, especialmente com amigos e pessoas queridas, isso é normal.

O que não é normal é permanecer num estágio de “estou de mal” por tanto tempo que, quando se dá conta, o motivo da discórdia já foi esquecido, mas as pessoas mal se veem ou falam.

É por isso que eu digo que envelhecer é complicado e que, sim, poderia ser um problema quase financeiro.

Nessa sociedade sintomática em que vivemos (e todas, em todos os tempos, são), o carro é um ótimo exemplo de afastamento entre pessoas. Cada um compra o seu útero com rodas, fecha os vidros, ajeita o ar na temperatura que melhor lhe cabe e fica ali, alienando-se de tudo.

O carro, por si só não é o problema, e nem a briga entre amigos, por assim dizer, quando ocorrem. A questão é que, no desejo de cada um conquistar seu poluidor pessoal, e com um aumento na oferta de crédito – que visa endividar pessoas em longo prazo e fazer com que tudo na vida delas seja, na verdade, alugado e não verdadeiramente pertencente – as pessoas se distanciam.

Adolescentes, por exemplo, são conhecidos pelos amores repentinos, paixões intensas e brigas diárias com amigos e amigas. Que seja um fator da idade eu não discuto (e não é que estamos carregando isso para o resto da vida?), mas eles logo fazem as pazes, e mais rapidamente que os adultos tão “maduros”.

O raciocínio é simples. Você já é mais velho e sai com um grupo de amigos e tem uma discórdia com alguém. Irritado, pega seu carro e vai embora. Situação que tende a influenciar na permanência do status quo da intriga.

Isso porque quando estamos fechados, sozinhos em nosso carro, em nosso útero de rodas, tendemos a ter mais razão do que nunca. É naquele lugar “seguro” que nada nos atinge… nem reflexões posteriores de nossos possíveis deslizes.

Quando mais novo e, portanto, ainda sem o veículo ou a possibilidade de tê-lo, seja financeiramente ou por questão etária, sai com os amigos e uma intriga surge, você não vai embora logo de cara. Isso porque terá de caminhar por todo o caminho de volta, ou então pegar ônibus e metrô sozinho ou, ainda, ir de carona com o possível irmão mais velho ou pai da pessoa com quem se desentendeu.

É nesse forçar permanecer que as reflexões surgem. Você repensa o que fez, olha de novo para a pessoa, vê que não foi lá realmente grande coisa e, no caminho de volta, troca mais umas duas palavras que amenizam o clima, aí rola aquele tchau tímido, mas reconfortante.

Caso a pessoa deseje caminhar até em casa sozinha ou usar o transporte público mesmo, a coisa é ainda melhor. Caminhar nos faz pensar e, provavelmente, a pessoa com quem discutiu sentirá uma pontada de culpa pensando na sua volta sozinho para o lar, o que acarreta em um pensar no outro e iniciar o processo de desconforto para resolver a questão.

Todas essas constatações só podem ser verdadeiras… ou então são apenas reflexões dirigidas de alguém que acredita que o mundo já foi mais simples.

Bem, envelhecer é meio complicado de qualquer forma e, mesmo trocando o colchão, ainda estou com dores nas costas…

 

A imagem pegou carona daqui

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Todos viajam – da escolha por experiências e não por coisas

Publicado por RDS em julho 18, 2011

aeroporto de Bangkok - Tailândia - 2008 Há pouco tempo, no dia das mães, saí para dar uma volta com a família. Só o meu pequeno núcleo: mãe, pai, irmão e eu (vulgo outro irmão, ou irmão do meu irmão ou, simplesmente, filho sem exclusividade).

O dia tinha sido bom!

Esquecendo um pouco dos impulsos que tenho de falar mal das coisas e toda essa questão de crítica ao hipercapitalismo, o dia foi muito bom.

Logo depois de darmos alguns presentes para minha mãe e tratá-la de maneira um pouco mais especial, almoçamos e saímos para dar uma volta sem destino certo.

Durante o caminho, ou melhor, no caminho (porque não havia um alvo a ser alcançado, bastava-nos o caminho), resolvi perguntar o que cada um dali faria se tivesse muito dinheiro. Ou melhor. Se dinheiro não fosse problema e tudo estivesse bem com as pessoas que ama, o que você escolheria fazer da vida?

A resposta foi praticamente unânime, apesar de pequenas variações: viajaria!

Todos eles disseram que viveriam viajando, conhecendo lugares, aprendendo coisas novas… adorei aquilo porque eu não faria diferente.

Perguntei, alguns dias depois, a mesma coisa para minha namorada e a resposta foi a mesma.

Só depois reconheci o porquê da minha felicidade com as respostas que obtive. Em meio a esse mundo instantâneo, onde as pessoas querem coisas intensas, rápidas e descartáveis, nenhum deles falou a respeito de comprar a maior mansão, o melhor iate ou algo assim. Falaram em viagens, estudos, visitas a museus, e outras coisas. Tudo no âmbito da experiência.

Não sei se todos são assim, mas eles pensam dessa forma e isso me deixou feliz. Afinal, se as pessoas tiverem “liberdade” real de escolha, o que importa para cada um? (comente aí!).

Não sei a resposta de vocês, mas ouvi coisas ótimas relacionadas a colecionar experiências e não produtos.

Apenas por curiosidade, meu irmão acrescentou que gostaria de montar um centro de reabilitação de pessoas e animais. Não que ele coloque todos no mesmo cesto, mas, pelo contrário, visou uma forma de empregar e capacitar pessoas, dando oportunidades através da abertura de um centro de reabilitação para animais.

Minha namorada gostaria de ter uma fundação de ajuda a crianças e adolescentes. Meus pais falaram de coisas semelhantes também…

No meu caso? Bem, não acredito que tenha o dom para algo tão solidário, por assim dizer. Talvez me prestasse a coisas mais voltadas às artes: música, teatro, literatura e cinema, decididamente minhas paixões. Ah, e claro! Viajaria sempre que pudesse.

Conte o que você faria!

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Carta

Publicado por RDS em março 31, 2011

carta - outono Leia primeiro está folha para depois ver o resto! Leia tudo antes de rasgar, por favor!

Você deve saber quem te enviou isso, se não souber, tudo bem. Vai descobrir em breve.

Não me utilizarei de nomes nesta folha e você deve jogá-la fora assim que terminar de ler. Não estamos num de espiões, mas é para evitarmos problemas, afinal, sem esta carta, o envelope seguinte não passa de literatura barata e objetos sem nexo.

Não me pergunte o porquê e também não espero resposta para esta carta, só achei que você deveria conhecer esse sentimento mais a fundo. Achei que você tinha o direito de conhecê-los todos, mesmo que sejam ruins.

Eles não influenciam nada na sua vida atual ou futura. Quero que você os leia e veja por dois motivos: o primeiro é porque tenho certo orgulho deles, apesar de não terem muita qualidade, eu me esforcei.

O segundo motivo é o fato de você ter dado força para a construção deles em dois sentidos. Primeiramente você não deixou que eu desistisse, me incentivou, já faz tempo, mas você me falou que eu não deveria parar por ali, eu segui seu conselho, continuei. Em segundo, e não menos importante: você foi a inspiração base de tudo que está dentro do envelope. Você sempre é a inspiração maior do que me acontece.

Se Gwen Stacy foi algo triste para o Parker, foi também a que mais o ensinou a amar, com todo o seu ser, com toda a sua força, mesmo deixando-o no desespero da perda, como uma nova Julieta… Você me ensinou tais coisas, me fez sentir dessa forma, e duvido que eu queira outra tutora.

Venho aqui apenas como um amigo.

Te desejo sorte e tudo de bom que você merece. Acredite, estou dizendo, ou escrevendo isso, com um sorriso no rosto. Sei que não é muito normal esse tipo de coisa, mas eu nunca fui muito normal mesmo.

Eu só queria me despedir de maneira diferente e não sabia como. Não sei o que vai acontecer a partir de agora, mas tenho medo do meu futuro. Tudo ao que me acostumei nesses anos acaba agora e não sei como reagir, mas as surpresas não podem ser de todo mal. Como eu não consigo mais te contatar, vim dar tchau e boa sorte desse meu modo.

Quero te pedir que não conte a ninguém quem lhe enviou isto. Quero te dizer para não ter nenhuma reação fora do normal e, se isso for um incômodo pra você, livre-se destas folhas de maneira discreta. Tenho tantos pedidos…

Peço que, se não for atrapalhar, tente ler e ignorar os erros de grafia, pontuação…, minhas vírgulas mal colocadas são apenas lágrimas caídas de um olhar trêmulo que fitava o nada enquanto se despedia de ti por meio de letras. Tente entender tudo como uma viagem a outro lugar desconhecido, apesar da semelhança com a realidade.

Não quero que se ofenda por causa disso que estou lhe enviando, se ficar brava ou te prejudicar de qualquer forma, peço perdão, só queria me despedir de maneira inovadora.

As bases de tudo foram fortes e reais, mas tudo aqui não passa de ficção e ilusão trabalhadas, afinal, nossa vida é sempre um pouco disso. Os sentimentos reais se formaram em letras; dizem que não podemos desperdiçar nada.

Agradeço pela atenção e você já deve saber quem lhe enviou isto, é óbvio demais. NÃO venha até mim para dizer que sabe que fui eu. Sei que você é inteligente e já descobriu.

Volto a dizer que desejo muita sorte e felicidade. Tente encarar como diversão. Na verdade, eu queria que alguém com quem eu me importasse tivesse visto algumas coisas minhas e essa foi mais uma razão. Essa coisa de nunca se alcançar o que um dia se pretendeu dá uma sensação de perseverança e inspira as pessoas a continuarem, mesmo sem o que elas já quiseram um dia!

É difícil entender o sentido do nunca, mas a gente acaba se acostumando.

Depois de um querer singelo sobra um adeus não dito e um choro surdo e seco no peito, um resto de outono, uma noite sem sono. Espero que entenda. Foi legal e muito, quando precisar chame.

Destrua esta folha e, quiçá, em algum lugar minha memória permaneça em ti.

Um abraço de… você sabe

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Outra vez…

Publicado por RDS em setembro 23, 2009

Foto tirada de: http://katrina.com.sapo.pt/bracos.jpg

As sandálias que ela tanto queria tornaram-se uma lembrança distante. O cheiro daquele perfume concretizou a profecia antes do previsto. Antes mesmo de o frasco se abrir ela já tinha partido… talvez não.

Você estragou tudo, ela disse. Naquela noite, meu Deus, você não deveria! E se eu ainda te quisesse? E se eu estivesse apenas me testando? Talvez eu só quisesse saber o quanto eu te amava…

Acho que ela descobriu, afinal. Ela era forte o suficiente para continuar amando-o depois de todo aquele tempo. Era forte para aguentar seus momentos difíceis, mas não forte o suficiente para vê-lo com outra.

As pessoas não deveriam se testar se não têm certeza de que suportam tudo o que advém do afastamento.

Ela chorava a cada palavra, estava com raiva. Quis bater nele, mas sabia que era ela mesma aquela a quem ela mais gostaria de agredir. Tentando se apaixonar novamente pela mesma pessoa acabou por levantar um muro contra aquele que mais admirava.

A vida é simples e boa, ela vale à pena; um amigo lhe disse, anos depois, numa situação totalmente diferente. Sem querer, ela lembrou dele. Era ele quem mais dizia aquilo e antes dela ter escutado de qualquer outro. Quando estava para afastar as lembranças de sua cabeça, pois ela era uma mulher forte, que já tinha superado tudo, o rádio daquele pequeno pub começou a tocar Roberto Carlos. Outra vez, era a música.

Aquela música era tão antiga para sua geração que ela não daria a mínima atenção em outra ocasião mas… ele era antiquado, gostava dessas coisas velhas. Costumava dizer que as coisas antigas tinham um sentimento maior, vindas de um momento em que o mundo não tinha tanta pressa em viver. Ele não gostava dessa pressa.

Ela, menina, amava a correria da metrópole. Hoje, mesmo ainda jovem, já sente um cansaço estranho, e continua a correr. Mas não esta noite. Dessa vez ela vai se permitir parar para escutar o Roberto, sentar numa mesa sozinha, longe daquele tumulto de vozes dos colegas de trabalho e pedir para repetirem a música quase por toda a noite…

“Você foi o melhor dos meus planos e o maior dos enganos que eu pude fazer”. Agora entendia o porquê de amá-lo tanto. Não conseguiu fazer planos para ele, era fora do padrão, imprevisível. Tão agitado e tranquilo, mesclava dois mundos opostos em seus pensamentos e atitudes. Mas quando estava em seus braços, conhecia a felicidade. Por isso o ódio daquela noite, porque se distanciou do seu ninho mais confortável, aconchegante.

Esta noite ela só queria saber onde estão aqueles braços envolventes… melhor, os queria perto dela, “Outra vez”.

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Silêncios que falam

Publicado por RDS em julho 22, 2009

 

(Imagem tirada de: http://yogablog.zip.net/images/silencio.jpg)

Eu estava lendo um texto do Jabor (o Arnaldo) e me lembrei de algo do passado. Uma vez defini a intimidade com certas pessoas através do silêncio que podia estabelecer com elas: se você consegue ficar em silêncio ao lado de uma pessoa sem se sentir constrangido, então você alcançou uma intimidade com ela. Ou, ao menos, conseguiu se identificar com ela de alguma forma.

Claro que não falo aqui dos silêncios abstratos dos ônibus ou qualquer coisa desse tipo, São Paulo tem a mania de fazer barulho, é uma cidade que grita tanto a ponto de nos deixar em silêncio. Mas quando estamos com alguém novo em nossas vidas ou ampliando o relacionamento com pessoas conhecidas, mas não íntimas, qualquer tipo de silêncio é um pouco constrangedor. Quando você ultrapassa esse limite, sente-se a vontade, confortável.

Ser íntimo de alguém é deixar que o silêncio fale um pouco por você e isso é algo necessário a se fazer, pois nem mesmo esse grito da cidade apressada pode abafar o silêncio da comunicação. Ficar sem dizer nada diz muito.

Jabor falou que não teve mais silêncios tristes com seu pai e isso mexeu comigo. Pensei o que poderia ser este silêncio triste, cheguei a conclusão que é um silêncio muito mais duro do que aquele que se tem entre pessoas que estão juntas num velório, por exemplo. Aquele silêncio é triste, mas, ao mesmo tempo, de cumplicidade, um silêncio amigo.

O silêncio triste é aquele no qual duas pessoas íntimas já não têm mais nada a dizer uma para a outra, não por alcançarem uma sintonia perfeita, muito menos por se entenderem pelo silêncio, mas sim porque algo morreu na voz e o constrangimento existe de qualquer forma, seja na voz muda ou na fala. Perde-se o silêncio do segredo e só resta o silêncio constrangido quando duas pessoas tornam-se novamente estranhas uma para outra.

Pior do que não conhecer alguém é não reconhecer mais aquela pessoa que esteve com você por tantos anos. Neste momento, até o próprio silêncio se cala e deixa de contar seus segredos.

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Enquanto isso

Publicado por RDS em junho 30, 2009

Ele a viu de longe, sentada numa daquelas cadeiras brancas e impessoais duma sala um tanto fria. Quis se aproximar mas teve receio. Depois de tudo, não saberia como ela reagiria. Mesmo assim caminhou até ela.

Parou e se encostou na mesa ficando de frente para ela. Disse oi e ela respondeu, também num tom tímido, os dois estavam constrangidos.
A sensação era mais pela amizade, praticamente arruinada por uma besteira, que pela noite terrível em si.

Não sabiam o que dizer um para o outro, os olhares estavam fugidios. A sensação de frieza da sala parecia tomá-los pela mão. Entretanto, só aquela tentativa de conversa já indicava que um pouco daquele carinho sobrevivera.

Aguardam ainda hoje que o tempo apague certas cicatrizes tão profundas…
Enquanto isso, ficam nostalgicos lembrando da voz, olhar, cuidado e todos momentos juntos.

A vida é uma saudade constante…

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Não estava mais ali

Publicado por RDS em junho 23, 2009

Ela estava com os olhos doloridos quando acordou. Havia sido uma noite exaustiva. Seus sonhos agitados denunciavam um coração cansado e a dor nos olhos fê-la lembrar das lágrimas da madrugada anterior. Ainda não acreditava que terminara com ele. Mais que em qualquer outro momento em sua vida, sentiu-se sozinha.

E não se sentia só apenas porque estava sem ele, mas porque sua essência parecia tê-la abandonado. Como ela pôde ser tão patética? Como pôde seguir um impulso tão infantil e querer terminar por um motivo que nem existia fora de sua cabeça? Nunca se perdoaria pelos testes que seu coração a obrigava fazer consigo mesma e com os outros. Não era necessário descobrir se ele a amava, estava estampado em seus olhos, em seus gestos, em seu toque. Ela nunca estava contente.

O que mais lhe doeu foi uma de suas últimas frases. Não sei se posso amar de novo da mesma forma, sinto que algo morreu dentro de mim – ele disse. Ela desabou a chorar e, apesar de se arrepender naquele momento por ter maculado um ser tão puro, seguiu em frente com aquela tolice.

Ela acorda, toma um banho e pinta seus cabelos de vermelho. Sempre quis fazer isso, na verdade, embora nunca tivesse tido coragem.

Coloca uma roupa bonita e se perfuma, como poucas vezes fazia, pelo menos quando ia pegar o trem.

Antes de deixar o apartamento, ela olha tudo em volta e, apesar da garganta apertar, não se permite chorar. Quer estar linda, o máximo que puder.

Ela coloca um papel no bolso e sai de casa. Algum tempo depois está na plataforma. Quando o trem passa, leva pelos trilho o corpo inerte de uma mulher com os cabelos vermelhos.

Depois de o resgate chegar, alguém acha o bilhete no bolso e lê algumas palavras que não fazem sentido:

“é uma nova saída

é uma noiva suicida

é uma noiva de saída

é uma saída suicida”

Foi a única maneira que ela encontrou de castigar aquela que matara a essência boa no peito daquele que a amava. Os passageiros das outras estações apenas reclamavam do atraso…

Esse post me apareceu na cabeça depois de ler um antigo texto meu postado em outro site (www.conjecturas.com.br), especialmente o trecho a seguir:

“E acabo de errar novamente, as pessoas não têm valor, elas têm importância, essência. O valor é para coisas, e estas nunca substituirão o carinho de alguém”

Para ler o texto completo é só acessar (http://www.conjecturas.com.br/edicao06/mundar/estava.htm)

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Balas e escadas

Publicado por RDS em junho 15, 2009

 Avenida Paulista, ao pôr do sol.

Era junho, mas não se fala aqui das festas de São João.

Um dia antes do dia dos namorados resolveram se encontrar. Era uma data duplamente marcante.

Isso porque já há algum tempo estavam juntos e o fato de ser um dia exato antes das comemorações dos atingidos pelo cupido, fez com que eles arriscassem um passeio de mãos dadas.

Sem idéia de onde ir, decidiram se encontrar numa avenida movimentada, num escadão à entrada duma faculdade. Naqueles arredores teriam mais opções.

Ele fez questão de chegar quarenta minutos antes e sentar quase escondido atrás de uma pilastra. Antes de saber se continuava com aquela garota ou não era preciso conhecê-la, e não havia melhor maneira do que observá-la sem que ela soubesse que ele já ali estava.

Ela chegou quase 20 minutos antes do combinado. Talvez porque viesse de outra cidade e ficasse difícil calcular o tempo exatamente. Ele encarou como ansiedade, e gostou.

Ela ficou calma até chegar perto do horário exato que haviam marcado e então passou a se mexer mais, consultava o horário, olhava para o embrulho que trouxera… Certamente um presente. Não de namorados, pois é óbvio que não eram, mas… do que poderia ser chamada a relação deles?

“Pare de ser tola, não existe relação nenhuma, só estamos saindo”, pensou ela, tentando afastar um sentimento terno por ele. Principalmente porque percebera que ele estava atrasado para vê-la.

Ele percebeu sua inquietude e sorriu levemente. Agora ela passava a olhar os lados, tentar enxergar os degraus acima e ver se ele não errara. Ele se esgueirava pelas colunas evitando ser localizado.

Depois de alguns minutos pensou que já estava na hora de aparecer. Provocar é uma coisa, mas má impressão é totalmente diferente. Entretanto, não podia aparecer por detrás, ela certamente desconfiaria.

Não muito se passou até que a sorte o ajudasse, ela desceu e foi comprar balas. Tempo suficiente para ele se sentar mais alguns degraus à vista e fingir que chegara naquele exato momento.

Depois que ele se desculpou passearam, assistiram a um filme. Um pouco denso para ocasião, é verdade, mas mesmo assim bom. Quando estavam em frente a um vendedor de barraquinha armada na avenida, ela parou para ver óculos. Gostou de um e ele se ofereceu para comprar-lhe.

Como toda mulher, fez charme, mas pulou de alegria por dentro ao perceber o agrado que ele tentava lhe fazer. O vendedor olhou aquele suposto casal de namorados e disse para a moça… “Não largue esse menino, ele vai te fazer muito feliz”.

A cena foi poética e bela, principalmente com o sol se pondo entre os muros de vidro, aço e concreto daquele lugar, o que dava um tom alaranjado a tudo.

Ela se agarrou ao braço do garoto e ele se sentiu feliz. É sempre bom quando alguém de fora aprova um relacionamento, ainda mais com uma previsão positiva.

Alguns anos depois, estava tudo acabado entre eles. Ela nem se lembra mais dos óculos e ele costuma se atrasar de verdade agora para os encontros.

O vendedor previu o quanto ele a faria feliz, e estava certo, mas esqueceu de dizer o quanto ele a irritava nas pequenas coisas. Mas uma coisa não se pode negar: ao contrário de muitos homens, ele sempre deu muita atenção ao que ela dizia…

Mesmo que fosse no dia dez de junho quando ela disse, antes de se despedirem: “não se atrase amanhã… eu não suporto atrasos”.

Anos depois ele se lembra da cena e sorri enquanto chupa uma bala de hortelã ao pôr do sol.

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