Mas…

Um pouco de tudo – muito de nada

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Outra vez…

Publicado por RDS em Setembro 23, 2009

Foto tirada de: http://katrina.com.sapo.pt/bracos.jpg

As sandálias que ela tanto queria tornaram-se uma lembrança distante. O cheiro daquele perfume concretizou a profecia antes do previsto. Antes mesmo de o frasco se abrir ela já tinha partido… talvez não.

Você estragou tudo, ela disse. Naquela noite, meu Deus, você não deveria! E se eu ainda te quisesse? E se eu estivesse apenas me testando? Talvez eu só quisesse saber o quanto eu te amava…

Acho que ela descobriu, afinal. Ela era forte o suficiente para continuar amando-o depois de todo aquele tempo. Era forte para aguentar seus momentos difíceis, mas não forte o suficiente para vê-lo com outra.

As pessoas não deveriam se testar se não têm certeza de que suportam tudo o que advém do afastamento.

Ela chorava a cada palavra, estava com raiva. Quis bater nele, mas sabia que era ela mesma aquela a quem ela mais gostaria de agredir. Tentando se apaixonar novamente pela mesma pessoa acabou por levantar um muro contra aquele que mais admirava.

A vida é simples e boa, ela vale à pena; um amigo lhe disse, anos depois, numa situação totalmente diferente. Sem querer, ela lembrou dele. Era ele quem mais dizia aquilo e antes dela ter escutado de qualquer outro. Quando estava para afastar as lembranças de sua cabeça, pois ela era uma mulher forte, que já tinha superado tudo, o rádio daquele pequeno pub começou a tocar Roberto Carlos. Outra vez, era a música.

Aquela música era tão antiga para sua geração que ela não daria a mínima atenção em outra ocasião mas… ele era antiquado, gostava dessas coisas velhas. Costumava dizer que as coisas antigas tinham um sentimento maior, vindas de um momento em que o mundo não tinha tanta pressa em viver. Ele não gostava dessa pressa.

Ela, menina, amava a correria da metrópole. Hoje, mesmo ainda jovem, já sente um cansaço estranho, e continua a correr. Mas não esta noite. Dessa vez ela vai se permitir parar para escutar o Roberto, sentar numa mesa sozinha, longe daquele tumulto de vozes dos colegas de trabalho e pedir para repetirem a música quase por toda a noite…

“Você foi o melhor dos meus planos e o maior dos enganos que eu pude fazer”. Agora entendia o porquê de amá-lo tanto. Não conseguiu fazer planos para ele, era fora do padrão, imprevisível. Tão agitado e tranquilo, mesclava dois mundos opostos em seus pensamentos e atitudes. Mas quando estava em seus braços, conhecia a felicidade. Por isso o ódio daquela noite, porque se distanciou do seu ninho mais confortável, aconchegante.

Esta noite ela só queria saber onde estão aqueles braços envolventes… melhor, os queria perto dela, “Outra vez”.

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Silêncios que falam

Publicado por RDS em Julho 22, 2009

 

(Imagem tirada de: http://yogablog.zip.net/images/silencio.jpg)

Eu estava lendo um texto do Jabor (o Arnaldo) e me lembrei de algo do passado. Uma vez defini a intimidade com certas pessoas através do silêncio que podia estabelecer com elas: se você consegue ficar em silêncio ao lado de uma pessoa sem se sentir constrangido, então você alcançou uma intimidade com ela. Ou, ao menos, conseguiu se identificar com ela de alguma forma.

Claro que não falo aqui dos silêncios abstratos dos ônibus ou qualquer coisa desse tipo, São Paulo tem a mania de fazer barulho, é uma cidade que grita tanto a ponto de nos deixar em silêncio. Mas quando estamos com alguém novo em nossas vidas ou ampliando o relacionamento com pessoas conhecidas, mas não íntimas, qualquer tipo de silêncio é um pouco constrangedor. Quando você ultrapassa esse limite, sente-se a vontade, confortável.

Ser íntimo de alguém é deixar que o silêncio fale um pouco por você e isso é algo necessário a se fazer, pois nem mesmo esse grito da cidade apressada pode abafar o silêncio da comunicação. Ficar sem dizer nada diz muito.

Jabor falou que não teve mais silêncios tristes com seu pai e isso mexeu comigo. Pensei o que poderia ser este silêncio triste, cheguei a conclusão que é um silêncio muito mais duro do que aquele que se tem entre pessoas que estão juntas num velório, por exemplo. Aquele silêncio é triste, mas, ao mesmo tempo, de cumplicidade, um silêncio amigo.

O silêncio triste é aquele no qual duas pessoas íntimas já não têm mais nada a dizer uma para a outra, não por alcançarem uma sintonia perfeita, muito menos por se entenderem pelo silêncio, mas sim porque algo morreu na voz e o constrangimento existe de qualquer forma, seja na voz muda ou na fala. Perde-se o silêncio do segredo e só resta o silêncio constrangido quando duas pessoas tornam-se novamente estranhas uma para outra.

Pior do que não conhecer alguém é não reconhecer mais aquela pessoa que esteve com você por tantos anos. Neste momento, até o próprio silêncio se cala e deixa de contar seus segredos.

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Enquanto isso

Publicado por RDS em Junho 30, 2009

Ele a viu de longe, sentada numa daquelas cadeiras brancas e impessoais duma sala um tanto fria. Quis se aproximar mas teve receio. Depois de tudo, não saberia como ela reagiria. Mesmo assim caminhou até ela.

Parou e se encostou na mesa ficando de frente para ela. Disse oi e ela respondeu, também num tom tímido, os dois estavam constrangidos.
A sensação era mais pela amizade, praticamente arruinada por uma besteira, que pela noite terrível em si.

Não sabiam o que dizer um para o outro, os olhares estavam fugidios. A sensação de frieza da sala parecia tomá-los pela mão. Entretanto, só aquela tentativa de conversa já indicava que um pouco daquele carinho sobrevivera.

Aguardam ainda hoje que o tempo apague certas cicatrizes tão profundas…
Enquanto isso, ficam nostalgicos lembrando da voz, olhar, cuidado e todos momentos juntos.

A vida é uma saudade constante…

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Não estava mais ali

Publicado por RDS em Junho 23, 2009

Ela estava com os olhos doloridos quando acordou. Havia sido uma noite exaustiva. Seus sonhos agitados denunciavam um coração cansado e a dor nos olhos fê-la lembrar das lágrimas da madrugada anterior. Ainda não acreditava que terminara com ele. Mais que em qualquer outro momento em sua vida, sentiu-se sozinha.

E não se sentia só apenas porque estava sem ele, mas porque sua essência parecia tê-la abandonado. Como ela pôde ser tão patética? Como pôde seguir um impulso tão infantil e querer terminar por um motivo que nem existia fora de sua cabeça? Nunca se perdoaria pelos testes que seu coração a obrigava fazer consigo mesma e com os outros. Não era necessário descobrir se ele a amava, estava estampado em seus olhos, em seus gestos, em seu toque. Ela nunca estava contente.

O que mais lhe doeu foi uma de suas últimas frases. Não sei se posso amar de novo da mesma forma, sinto que algo morreu dentro de mim – ele disse. Ela desabou a chorar e, apesar de se arrepender naquele momento por ter maculado um ser tão puro, seguiu em frente com aquela tolice.

Ela acorda, toma um banho e pinta seus cabelos de vermelho. Sempre quis fazer isso, na verdade, embora nunca tivesse tido coragem.

Coloca uma roupa bonita e se perfuma, como poucas vezes fazia, pelo menos quando ia pegar o trem.

Antes de deixar o apartamento, ela olha tudo em volta e, apesar da garganta apertar, não se permite chorar. Quer estar linda, o máximo que puder.

Ela coloca um papel no bolso e sai de casa. Algum tempo depois está na plataforma. Quando o trem passa, leva pelos trilho o corpo inerte de uma mulher com os cabelos vermelhos.

Depois de o resgate chegar, alguém acha o bilhete no bolso e lê algumas palavras que não fazem sentido:

“é uma nova saída

é uma noiva suicida

é uma noiva de saída

é uma saída suicida”

Foi a única maneira que ela encontrou de castigar aquela que matara a essência boa no peito daquele que a amava. Os passageiros das outras estações apenas reclamavam do atraso…

Esse post me apareceu na cabeça depois de ler um antigo texto meu postado em outro site (www.conjecturas.com.br), especialmente o trecho a seguir:

“E acabo de errar novamente, as pessoas não têm valor, elas têm importância, essência. O valor é para coisas, e estas nunca substituirão o carinho de alguém”

Para ler o texto completo é só acessar (http://www.conjecturas.com.br/edicao06/mundar/estava.htm)

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Balas e escadas

Publicado por RDS em Junho 15, 2009

 Avenida Paulista, ao pôr do sol.

Era junho, mas não se fala aqui das festas de São João.

Um dia antes do dia dos namorados resolveram se encontrar. Era uma data duplamente marcante.

Isso porque já há algum tempo estavam juntos e o fato de ser um dia exato antes das comemorações dos atingidos pelo cupido, fez com que eles arriscassem um passeio de mãos dadas.

Sem idéia de onde ir, decidiram se encontrar numa avenida movimentada, num escadão à entrada duma faculdade. Naqueles arredores teriam mais opções.

Ele fez questão de chegar quarenta minutos antes e sentar quase escondido atrás de uma pilastra. Antes de saber se continuava com aquela garota ou não era preciso conhecê-la, e não havia melhor maneira do que observá-la sem que ela soubesse que ele já ali estava.

Ela chegou quase 20 minutos antes do combinado. Talvez porque viesse de outra cidade e ficasse difícil calcular o tempo exatamente. Ele encarou como ansiedade, e gostou.

Ela ficou calma até chegar perto do horário exato que haviam marcado e então passou a se mexer mais, consultava o horário, olhava para o embrulho que trouxera… Certamente um presente. Não de namorados, pois é óbvio que não eram, mas… do que poderia ser chamada a relação deles?

“Pare de ser tola, não existe relação nenhuma, só estamos saindo”, pensou ela, tentando afastar um sentimento terno por ele. Principalmente porque percebera que ele estava atrasado para vê-la.

Ele percebeu sua inquietude e sorriu levemente. Agora ela passava a olhar os lados, tentar enxergar os degraus acima e ver se ele não errara. Ele se esgueirava pelas colunas evitando ser localizado.

Depois de alguns minutos pensou que já estava na hora de aparecer. Provocar é uma coisa, mas má impressão é totalmente diferente. Entretanto, não podia aparecer por detrás, ela certamente desconfiaria.

Não muito se passou até que a sorte o ajudasse, ela desceu e foi comprar balas. Tempo suficiente para ele se sentar mais alguns degraus à vista e fingir que chegara naquele exato momento.

Depois que ele se desculpou passearam, assistiram a um filme. Um pouco denso para ocasião, é verdade, mas mesmo assim bom. Quando estavam em frente a um vendedor de barraquinha armada na avenida, ela parou para ver óculos. Gostou de um e ele se ofereceu para comprar-lhe.

Como toda mulher, fez charme, mas pulou de alegria por dentro ao perceber o agrado que ele tentava lhe fazer. O vendedor olhou aquele suposto casal de namorados e disse para a moça… “Não largue esse menino, ele vai te fazer muito feliz”.

A cena foi poética e bela, principalmente com o sol se pondo entre os muros de vidro, aço e concreto daquele lugar, o que dava um tom alaranjado a tudo.

Ela se agarrou ao braço do garoto e ele se sentiu feliz. É sempre bom quando alguém de fora aprova um relacionamento, ainda mais com uma previsão positiva.

Alguns anos depois, estava tudo acabado entre eles. Ela nem se lembra mais dos óculos e ele costuma se atrasar de verdade agora para os encontros.

O vendedor previu o quanto ele a faria feliz, e estava certo, mas esqueceu de dizer o quanto ele a irritava nas pequenas coisas. Mas uma coisa não se pode negar: ao contrário de muitos homens, ele sempre deu muita atenção ao que ela dizia…

Mesmo que fosse no dia dez de junho quando ela disse, antes de se despedirem: “não se atrase amanhã… eu não suporto atrasos”.

Anos depois ele se lembra da cena e sorri enquanto chupa uma bala de hortelã ao pôr do sol.

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Anjo, literalmente

Publicado por RDS em Junho 4, 2009

Saudades...

Saudades...

Dia ensolarado, entramos num carro e dirigimos pela rodovia em direção ao interior. O destino era um conhecido restaurante um tanto rústico que remetia à infância. Não só pelos brinquedos no grande jardim, mas porque eu havia brincado naquele local desde pequeno.

Era quase como uma tradição. Chegar lá, pedir lingüiça, polenta, salada e uma coca pros netos. Não tinha nada que o fazia mais feliz que tomar uma cerveja enquanto pagava uma coca pros netos. Não aceitava que ninguém pagasse. Ficava nervoso. Era um “direito” dele.

Depois fomos pescar, sentar na beira do lago com a vara e ficar jogando conversa fora enquanto ele nos ensinava os macetes de como colocar a isca, lançar a linha, amarrar o chumbo e cansar o peixe. Mesmo que não pegássemos grande coisa, a lição de vida que tínhamos a cada história valia cada segundo.

Voltamos pra casa cansados porém felizes com o dia, com a roupa suja, cheirando a peixe e água do lago, mas nunca com a alma tão lavada e leve.

Ele nos mantinha pequenos não importando a idade, os eternos netos. O orgulho daquele sorriso simpático que conversava com todo mundo e fazia churrasco nas festas juninas da escola. Daquele que chorava de emoção quando via a família reunida e sorria mesmo quando não faziam piadas.

Ele que contava da sua vida pra todos, que queria saber se todos estavam gostando da festa ou da viagem. Um homem justo, um homem bom, digno. Aquele que ensinava a todos ao seu redor, não só pelas palavras, mas também por suas ações.

Um romântico com sua companheira, o pilar de suas filhas, o ícone da família. O eletricista de domingo, às vezes o encanador de sábado. Mas o homem mais querido todos os dias de sua vida.

Seu cabelo branco remetia aos anjos, seu bigode aos homens e fora um pouco dos dois. Viveu, foi adorado e amado entre os homens, e agora acolhido dentre seus outros semelhantes, os anjos.

Muitas vezes não suportamos a perda de alguém tão bom, e entender o sentido do “nunca mais” é muito difícil. Pelo menos para nós, homens, que ainda não compreendemos, como os anjos, que não existe “nunca mais”, apenas há um “daqui a pouco”.

Obrigado pelos ensinamentos, pelo cuidado, bondade, amor e sabedoria.

De um neto que ainda queria lições de como pescar.

Saudades…

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