Mas…

Um pouco de tudo – muito de nada

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Amor sem Escalas – Não-vida, não-lugares, decisões no ar

Publicado por RDS em abril 9, 2012

amor-sem-escalasNão assisti novamente ao filme, o que me deixa muito sujeito a erros de minha memória e, mais ainda, a acréscimos que minha mente pode fazer sem que eu perceba. E, depois desta longa e desnecessária introdução, chegamos ao que interessa. O filme vem de um livro de 2001, não li a obra.

Amor sem Escalas fala de uma não-vida! O filme é um drama-comédia, desses que te fazem rir e pensar numa existência meio desgraçada, mesmo que não te deixe às lágrimas.

Curioso que a primeira sensação que tive com a película, foi a de liberdade. Clooney interpreta um cara que é contratado para despedir pessoas. A empresa tem um profissional, ou vários, que precisa mandar embora e, para não sujar as mãos, contrata alguém de fora para fazer o serviço e paga bastante para isso.

Clooney viaja muito, muito mesmo, de avião, indo de um local a outro para despedir pessoas e tentar aconselhá-las a mudar de vida e de emprego. Na maioria dos casos ele arruína vidas, mesmo que as pessoas não se deem conta disso logo de cara.

Como uma pessoa que precisa carregar sua existência numa pequena mala e estar sempre ponto para partir, a casa do personagem aparece muito pouco no longa e, quando é mostrada, nada mais é que um local frio e sem a alma de um vivente, apesar de organizada (mania que parece ser recorrente ao personagem).

Não pretendo aqui contar o filme, mas o resumo é que ele é solteiro, sai com várias mulheres em locais diferentes e encarna um pouco o espírito do marinheiro, mas sem acumular “uma mulher em cada porto”. Na maioria das vezes, ele acumula apenas pontos… sim, pontos, ou milhas, se preferir. Acumula as distâncias rodadas como se isso fosse lhe garantir algo, um preenchimento do vácuo no estômago que, de início, parece nem existir.

Ele é acompanhado por uma garota que está treinando para exercer o mesmo trabalho que ele e conhece outra mulher em situação semelhante (que viaja bastante a trabalho, apesar de ter outra função) de estar sempre longe de casa.

A menina teve uma recente decepção amorosa e ele se mostra como uma rocha para afetos, até aconselhando-a contra o apego. Até que ele é pego. Clooney se apega a esta outra mulher viajante e, apesar do sexo, não chega a nada mais com a dita. Na tentativa de um “algo a mais”, ele descobre que ela é casada e tem uma família e que as mini-aventuras que tiveram não significou nada, apenas diversão. Ele passa de caçador à caça.

Sem um lar fixo (já que nunca volta e fica em sua casa), sem pessoas a quem se apegar (já que só tem relacionamentos passageiros), sobra ao personagem apenas a sua profissão, que também não gera laços, uma vez que o joga de um lugar a outro com uma pequena mala às costas, vendo pessoas que tem de dispensar e nunca mais encontrar.

O personagem de Clooney vive basicamente dentro de aviões e aeroportos, locais de passagem. É uma vida supermoderna. E quando digo supermoderna não estou apenas colocando que ele é “pra frentex” (me senti mal de usar este termo) e não se importa com os modelos antigos, mas me respaldo no conceito do antropólogo francês, Marc Augé.

No livro Não-lugares – introdução a uma antropologia da supermodernidade, Augé estabelece uma diferença entre o que são lugares e não-lugares. Antes de tudo, ele discute a questão dessa Supermodernidade.

Coloca que vivemos numa era de aceleração temporal na qual a história tem pressa, ou seja, se antes a delimitávamos em alguns fatos específicos e determinávamos os momentos de acordo com eles, a partir de agora, não funciona mais assim. A maioria dos acontecimentos são levados a cabo como importantes, mas isso nivela todos eles, se tudo é fator essencial, nada o é realmente.

O segundo ponto levantado é o da contração dos espaços e do tempo. Com melhor mobilidade e acesso a informações, imagens e etc., o mundo ficou pequeno, nos sentimos conectados e parte de tudo, mas isso destitui-nos um pouco de nossa identidade local.

O terceiro ponto, e consequência de todos os outros, é o individualismo. Capazes de se conectar a tudo, com todos os acontecimentos elevados à categoria de fato histórico, logo, estamos desligados do local, das comunidades e grupos e o individualismo organiza cada vez mais nossa vida.

Dentro dessa supermodernidade conceituada por Augé é que o consultor especialista em despedir pessoas se encaixa, e vive.

Seguindo ainda pelo caminho do antropólogo francês, se um lugar é caracterizado como um espaço identitário, relacional, histórico; um não-lugar seria exatamente o oposto: local sem identidade, não-relacional e que não cria momento histórico.

Como grande exemplo destes não-lugares, o autor coloca os locais puros de passagem: rodoviárias, trens, aviões, aeroportos e qualquer outro onde o individualismo é praticado em grupo, uma contradição supermoderna, mas totalmente compreensível quando se olha um voo no qual passageiros dividem um espaço sem compartilhá-lo de fato. Milhares de histórias passam por ali sem se misturarem, não criam espaço antropológico.

“O não-lugar é o contrário da utopia: ele existe e não abriga nenhuma sociedade orgânica” (AUGÉ, 2007, p. 102).

Os não-lugares são os espaços desses viajantes que, como Clooney interpreta no filme, estão vazios e apenas em trânsito. O problema é que a grande maioria se desloca por um não-lugar para alcançar um lugar, o que não é verdade no caso do nosso consultor.

Sem relacionamentos, com um emprego que é automaticamente uma dispensa, com um lar para o qual não volta e com sua vida resumida a uma pequena mala onde não cabem sonhos e lembranças, ele vive em aeroportos e aviões, em não-lugares, sem identidade. Portanto, o personagem se caracteriza com alguém com uma não-vida (não no sentido biológico, obviamente) e se torna uma não-pessoa… pelo menos até que tente tomar outro rumo.

O que marca bastante é o fato de que, quando ele tenta correr atrás de algo que daria a ele um laço (um encontro familiar ou a busca pela mulher viajante), não encontra e parece voltar a se sentir confortável em sua situação. Uma não-pessoa não carrega os sonhos em si, e provavelmente não carrega desilusões.

O nome do filme em inglês é Up in the air, que pode significar, simplesmente, “No ar”. A referência é dupla, não só à vida viajante do consultor, como também à ideia de indecisão, coisa inacabada que a expressão “no ar” tem (e que se mantém em inglês).

Amor sem Escalas, por fim, fala de uma não-pessoa que vive uma não-vida, que tenta resgatar algo, mas fracassa, e decide esperar mais um pouco, deixando a decisão pra depois, um pouco incerta, um pouco no ar!

 

 

A imagem aterrisou vinda daqui

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Amor sem Escalas – Prelúdio

Publicado por RDS em abril 9, 2012

Lembro de ter ido assistir ao filme Amor sem Escalas (2009) com alguns amigos, todos homens.

Aí você olha e acha estranho. “Pô, um bando de marmanjo vendo um filme do George Clooney e não é da franquia “Vários homens e uma porrada de segredos”, isso é esquisito”.

Hoje em dia já pulamos essas frescuras, mas se vale como explicação, tenho um grupo de amigos que gosta bastante de discutir qualquer coisa, logo, o material vale para reflexão e, acreditem, esse não foi o filme mais bizarro para assistir fora do “sistema de casais”. Atualmente, devo confessar que a pressa da cidade e a diversidade de interesses têm mantido o referido grupo um pouco distante, mas o que vale é a experiência do filme em questão.

Terminadas as explicações que farão os leitores duvidarem da minha segurança quanto à sexualidade, vamos à pequena reflexão: a não-vida! Que se encontra a seguir (o que, no mundo dos blogs, significa acima e não abaixo…).

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Uma leitura perigosa

Publicado por RDS em fevereiro 28, 2012

metodo perigosoAssisti um tanto apressado ao filme “Um método perigoso”. Há tempos que eu queria vê-lo e, mais uma vez, concretizou-se a profecia de que o trailer sempre serve para você imaginar um filme e encontrar outro. Talvez por ter me afundado nos últimos tempos em teorias mais Freudianas que Jungianas, esperava encontrar ali mais do charuteiro (sem referências a despachos).

Já fica de cara avisado que essa é uma leitura bem rápida e de superfície, mas talvez contenha partes importantes do filme, o que te impede, leitor(a), de brigar comigo caso perceba alguma prévia, um adiantamento da história, o malfadado spoiler.

Como já disse, esperava mais Freud, queria saber de forma mais intensa da relação dos dois, coisa que o filme dá uma pitada boa até, mas insuficiente para o meu querer infanto-egoísta-imaginário-criado-previamente, mais conhecido como expectativa.

O filme me pareceu trazer uma visão fortemente Jungiana, o diretor parece tomar parte na discussão, o que não é mau, toda obra carrega um olhar afinal.

Não posso negar que, mesmo sem conhecer a fundo, tenho uma forte atração pela teoria de Carl Jung. Não é o foco, mas ela carrega algo de muito místico que ainda me cativa. O Jung do filme é apresentado como um personagem que acredita de forma otimista nas coisas e que, mesmo sob as advertências de Freud, tenta curar, ou elaborar uma teoria de cura para as pessoas, para que encontrem o verdadeiro eu e se tornem aquilo que deveriam ser, que desejariam se tornar.

Parte do filme mostra como Jung parecia estar certo, seja pelos seus repetidos sonhos de devastação europeia pouco antes da guerra ou mesmo pelos estalos nas estantes, ao dizer que há forte ligação das pessoas com o meio e energias desconhecidas vagando por aí e não só a da sexualidade, força motriz para Freud.

O texto final do filme, que propõe dar um desfecho a uma história que nem sempre se fecha – uma vez que a vida em si não parece esperar um ápice de seus protagonistas para se encerrar –, traz mais forte a ideia de que Jung era o preferido da obra, não só pelo fato de dizer que ele foi um dos maiores psicanalistas de todos os tempos, mas também por relegar a Freud apenas duas linhas, falando de seu falecimento.

O filme é Jungiano, eu disse quando terminei de assisti-lo, mas outro pensamento rapidamente me invadiu. Todas as vezes que o personagem principal tentava ir contra as teorias de Freud, demonstrava cada vez mais em sua conduta que essas mesmas teorias eram bem sóbrias.

Seja pelo caso com a Sabina, ou com a outra amante que Jung veio a ter, ele demonstrou que Freud estava certo e, simbolicamente, todo impulso que ele precisava para seu trabalho e esforço vinha de momentos em que o seu objeto sexual preferido, Sabina, era negado. Depois, mais velho, a ausência da mulher fez com que tentasse buscá-la na amante seguinte, com vários atributos semelhantes. O filme é bem óbvio nesse ponto.

É a obsessão de Jung em ser “bom” e a contraposição do seu caráter com as suas atitudes que dá a ele força para produzir toda a sua obra “independente”, por assim dizer, mas muito ligada a Freud. Porque pretendente a diferenciação, Jung leva a cabo outra questão Freudiana, a proximidade dos opostos, ou melhor, como um marco (a figura paterna de Freud em relação a ele, por exemplo) que o amigo se torna na vida, Jung usa-o sempre de base, não importa para que lado corra.

Freud é constatado, assim, como o homem que desvendou o inconsciente e sua energia de forma mais clara, já que até ao fazer Jung escalar até o topo, a obra visual faz confirmar as ideias do psicanalista judeu.

Tal visão não desmerece nem um pouco a obra de Carl. Uma vez que Sigmund era um “doente” ele mesmo e elaborou toda a base da psicanálise, que ainda me permanece forte e constatada de diversas formas (o “me” se justifica como forma bem particular de enxergar as coisas)… o que, no meu imaginário infantil não exclui nenhuma energia e demais forças externas, sejam elas de cunho telecinético ou telepático (que Freud nem descartava, mas não dava bola para não ser rechaçado ainda mais do meio acadêmico), alienígenas ou divinas (algumas demoníacas também).

Assim, confesso ser difícil abandonar as teorias de Jung (e tantas outras), uma vez que, como ele, todos buscamos “cura”, ou seja, respostas e soluções para nossos problemas. Gostamos de um final feliz e adoramos crer num algo a mais. Seja esse algo fruto de uma conspiração que nos apavore ou de uma certeza que nos conforte. (Quanto à conspiração, fica aqui uma citação do livro “O Cemitério de Praga” de Umberto Eco, pág 89 – “Sempre conheci pessoas que temiam o complô de algum inimigo oculto – os judeus para o vovô, os maçons para os jesuítas, os jesuítas para o meu pai garibaldino, os carbonários para os reis de meia Europa, o rei fomentado pelos padres para meus colegas mazzinianos, os Iluminados da Baviera para as polícias de meio mundo – e, pronto, quem sabe quanta gente existe por aí que pensa estar ameaçada por uma conspiração… Aí está uma forma a preencher à vontade, a cada um o seu complô.”).

Não é que Freud não traga melhora, mas você se enlameia bastante antes de começar a ver resultado. Freud não é tão otimista e o é muito ao mesmo tempo: do ponto de vista da responsabilidade do sujeito. E é nessa afirmação, nesse compreender responsável de si mesmo, que fica um problema. Qual é afinal o esforço necessário que um sujeito deve empregar para “melhorar” ou se aceitar? E, se insatisfeito consigo, o que acontece se ele “descobre” que talvez não tenha forças suficientes para ser o que deseja, ou, quem sabe, descubra que não consegue deixar de ser aquele por quem não tem apreço?

Como um otimista que tento ser (e provavelmente tenho falhado bastante nessa missão ultimamente), vejo uma luz no fim do túnel pelo lado de Carl, o que não te tira (sujeito) totalmente a responsabilidade, mas quem sabe te amenize o peito doído.

Não pensemos, entretanto, que tudo são flores. Não adianta sentar e esperar que as coisas a sua volta se consertem ou que todas as soluções do mundo lhe apareçam num sonho. Como o próprio Jung disse “às vezes você tem de fazer algo imperdoável só para continuar vivendo (tradução bem livre da frase que – pelo que me lembro – era: sometimes you have to do something unforgivable just to be able to go on living). Essa afirmação tem tanta coisa implícita que me deixa até tonto. Para mim pode lembrar que deve-se arriscar sempre, mesmo que a desgraça pareça iminente.

Na película ela meio que indica que Carl teve que ser detestável em alguns momentos para poder sentir como é ser assim e ajudar aos outros, ou seja, “foi ao inferno e voltou para mostrar aos outros como é o caminho de volta”. Como aqui é do filme que falo, mantenho a rédea na minha cabeça.

A posição de Freud no filme como um pai que não quer perder a autoridade é também percebida, mas me ficou ainda mais a sensação de vingançazinha só porque ele era pobre e não foi na primeira classe junto com o Jung e aquela loira gata e rica (e corna) que era a mulher dele.

Quanto aos outros personagens, fica a atuação, que achei genial, da Keira Knightley como Sabina e do divertido Vincent Cassel como Otto Gross. Aliás, curioso esse personagem, que não conheço muito a história, mas que me pareceu apenas um boêmio sincero defendendo o direito universal ao prazer ou um perverso brincando com os muitos neuróticos do filme.

De qualquer forma, fica a dica de um ótimo filme, que pode não ter sido o que eu esperava pelo trailer, mas que com certeza mexe com nossa cabeça, nos faz refletir e entender o porquê do nome do longa, mesmo numa leitura rápida como a minha, leitura que, assim como a obra, tende a ser perigosa.

A psicanálise nunca é um método fácil, nem para o paciente, nem para o analista. Entretanto, quando se quebram barreiras, algo de muito interessante pode surgir.

Afinal, vale a frase de Freud chegando à América, com Jung, para apresentar seu método. “Acha que eles sabem que estamos a caminho levando a praga para eles?”.

Para quem curte o tema, vale conhecer o blog http://formasdexpressao.blogspot.com/ onde meu amigo Paulo Yaekashi escreve a respeito por um olhar Freud-Lacanianano.

A imagem é daqui – http://www.cinepop.com.br/filmes/metodo-perigoso.php

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O que se defende

Publicado por RDS em outubro 25, 2011

cotidianoNo do dia 18 de outubro publiquei um texto um tanto crítico (Morre um ideal – “Remember, remember…”) aqui no blog, mas caí na besteira de utilizar uma frase que não era bem o que eu queria, ou era… explico.

Meu amigo Paulo do blog Formas de (ex)pressão fez um texto que curti muito (se quiserem conhecer, recomendo – ta aqui) e que, um dia antes, eu tinha lido e comentado.

Dentre outras coisas que o texto trazia, foi citada essa questão da “crise de sentido” que tratei no texto do dia 18, mas tomei um caminho perigoso quando usei a frase dele em outro contexto, mesmo que tenha ressaltado o uso desta forma.

Paulo falava de um sentimento inominável, visceral, que era despertado, naquele contexto, pelas músicas do Nirvana, que fazia um sentido sem fazer, ou que esse era o próprio sentido, enfim, as leituras são muitas (e todas interessantes).

Ocorre que peguei uma frase desse texto, que me fez pensar nessa “crise de sentido”, e a utilizei de uma outra forma. Fato é que a expressão usada por ele me despertou algo e daí eu a signifiquei quase que pelo seu oposto em meu texto. Segue trecho do meu texto posterior ao uso da frase:

“O contexto do texto era outro, portanto, minha crítica não é à sensação que ele descreve dentro daquele sentido, mas acredito que essas palavras se encaixam bem nesse outro contexto. Estamos constantemente sentindo algo, forte, visceral, que não sabemos o que é, mas que, de alguma forma, o sentido nos escapa, e nos condicionamos ao escape deste uma vez que é mais fácil não nomear do que se propor a defender algo que talvez seja derrubado.”

Como o meu texto tratava da falta de “disponibilidade” que temos hoje em dia em defender ideias pelo simples fato de que elas caem, modificam-se, essa “não-nomeação” do sentimento foi traduzida quase que como uma inércia, um não enfrentamento. Algo do tipo “todos sentem, mas ninguém dá nome porque não há mais o que defender atualmente”.

Daí alguns comentários, conversas e textos (alguns do próprio autor do texto do Nirvana) me fizeram repensar as coisas e esclarecer algo.

O que defendo naquele texto – e vou tentar manter essa posição apesar de, como citei nele mesmo, minha mente ficar me lembrando de todos os opostos disso – é que nossos conceitos estão sendo pulverizados não por uma vontade ou decisão do indivíduo, sujeito, etc., mas sim por uma possível imposição. Levantei a bola de uma forma de dominação por meio do capital (que, convenhamos, não é nada nova). A ideia é: talvez possa ser diferente, menos díspar, menos canibal.

Entretanto, não dá pra negar que a busca de sentido, por mais que uma ideologia, conceito ou ideia predomine em determinado tempo, é muito particular, inconscientemente determinada e tem sentidos tão diversos quanto o número de pessoas que de determinada cultura fizerem parte.

Não quero que alguém crie um ideal único e nos lidere. Quero que as ideias possam voltar a ser fortes o suficientes para mover o sujeito (falo puramente de mim, não?) e que ele tenha o direito de acreditar nelas sem medo de ser pulverizado junto com possíveis mudanças.

Um comentário do próprio Paulo me deixou pensativo e concordo com ele, afinal. Ao “nomear” (ou apontar, no caso), tal sentimento visceral causado por músicas que tinham uma força enorme, derrubamos aquilo que trazia tal força… a sensação, o sentimento primevo que tais obras causam. Nomear é simbolizar, significar e, por si só, é o movimento que nos afasta do Real, da causa, e coloca algo no lugar daquilo que estava em nós se manifestando.

Qual é a ligação, afinal?

Simples. Quando defendo o direito do sujeito se apegar a valores, não convoco uma liderança, mas peço empatia (muito em falta atualmente e sentimento que, por si só, é impossível e imaginário, já que nunca podemos estar realmente no lugar de outro), mesmo com todas as suas contradições.

Peço o direito de acreditar num ideal, seja religioso, filosófico, artístico… Não luto pelo engessamento de conceitos, a mudança é o que causa o interesse da vida, todos podem mudar sua opinião. O que peço, afinal é o direito de acreditar, sentir, defender e lutar por aquilo que nos faz sermos nós mesmos e cada um individualmente.

Não me importa se é o cotidiano que te motiva (afinal, só existe a “vida comum”, de acordo com Freud), se é Deus, Sócrates (filósofo ou jogador), seus pais, ou sua banda… que continue, que acrescente! O que levanto aqui é o questionamento de não deixar o Mercado se estabelecer como único ditador de conceitos e regras, mesmo quando defende uma suposta liberdade de ação. Que ele seja um dos motivos, tudo bem, mas é inaceitável que seja o único, não para mim.

“Algumas coisas devem ser sentidas e só sentidas, sem a necessidade de se dar um nome para isso. Outras já deveriam assumir formas mais estabelecidas, assim podem ganhar não só em quantidade, mas também em força e ideais. O problema é que está tudo misturado…”*

*A frase final é do comentário do Paulo, do Formas de (ex)pressão, no meu texto do dia 18 de outubro.

A imagem é daqui

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Dos direitos irrevogáveis de um homem–Manual do Macho

Publicado por RDS em outubro 17, 2011

MACHO-QUE-E-MACHO

Tenho escutado muitas discussões a respeito do feminismo, machismo e essas frescuras todas que aparecem por aí com cara de movimento legalizado e com grande representatividade só porque foi “retuitado”.

Para acabar com essas drogas de discussões que rodam por aí, elaborei um manual/declaração (não definitivo e que aceita contribuições) dos direitos e deveres de um homem que quer ser macho de verdade!

Um homem de verdade, um macho, deve dominar sua mulher, ou sua fêmea (para aqueles radicais). Deve dominá-la por meio de carícias, cortesia, presentes (não precisam ser materiais), educação e respeito.

Impressionar uma mulher é essencial para aquele que quer ser um homem sério. Impressione-a sendo quem você realmente é e não fingindo ser qualquer outra coisa. Impressione-a mostrando o quanto se importa, o quanto ama cuidar dela.

Um homem de verdade deve proteger sua fêmea. Deve protegê-la das baboseiras do mundo que fica repetindo que garotas só se importam com carro, dinheiro ou compras de novos sapatos. Sim, elas amam sapatos novos, assim como você curte seu celular novo ou aquele filme de ação, mas nem por isso esses passam a ser seus únicos assuntos ou motivo de vida, o mesmo ocorre com elas.

O macho tem o sagrado dever de explicar o que aparece na mídia para sua garota. Deve explicar que todos aqueles sacramentos voltados para regimes, maneiras de se portar, o que comprar, aonde ir e o que fazer são estúpidos e sem sentido. Biquíni com salto alto pode até parecer interessante na TV (ou num aniversário de relacionamento), mas nada substitui a originalidade, simplicidade e desejo desperto por uma garota de camisetão, calcinha e pantufas, com cabelo preso num bagunçado e displicente rabo-de-cavalo.

O ser masculino ideal tem o irrevogável direito da ofensa, descaso e marginalização de semelhantes. Esse direito deve ser praticado com intensidade única em relação aos outros seres que se dizem “machos”, mas não fazem nada mais que ficarem em esquinas dizendo palavras esdrúxulas às fêmeas, estando ou não elas acompanhadas. Nesse caso, cabe exercitar os músculos da língua e dos punhos à vontade contra tais facínoras.

Homem que é homem não pode abaixar a cabeça para o que algumas mulheres vivem repetindo. Ao invés de serem condizentes com “essaszinhas” de pensamento pequeno e atrasado que defendem a submissão feminina, o homem deve se impor e valer sua palavra de ordem quando assaltado por tamanha ofensa contra sua esposa, mãe, irmã, tia, avó e ele mesmo, que faz parte da categoria de ser humano.

Um macho que se preze precisa defender seus direitos. Defender seu direito de ter uma mulher inteligente ao seu lado, alguém em quem possa confiar e se sentir seguro com. Precisa, acima de tudo, amar e respeitar sua companheira e ver nela uma igual.

(parágrafo único) Um homem de verdade não pode aceitar, em hipótese alguma, uma mulher que se sinta inferior a ele.

Lugar de mulher é na cozinha. Sim, na cozinha, ao lado de seu homem, de noite, conversando e tomando um vinho enquanto contam o dia e preparam o jantar juntos… e que se dane a louça, ela que fique na pia para quem acordar primeiro ou sair de casa por último (aconselha-se revezamento nesse item).

É direito masculino a contemplação. O homem pode e deve observar sua amada em várias ocasiões, inclusive velar seu sono e acariciar seus cabelos nesse período.

Mulheres são manhosas, aceite isso (e satisfaça as demandas). Você também curte ser mimado, não há nada de errado nisso. Homens e mulheres são diferentes em muitos pontos por natureza, o que não significa melhor ou pior, apenas diferentes.

A proeza de um macho é poder ser violento! Violentamente romântico ao abrir a carteira e pagar um jantar, visceralmente abusado ao convidá-la para um cinema e agressivamente encantador ao conquistá-la, seja pegando em sua mão ou escrevendo belas palavras.

Um macho tem o direito sagrado de ser (ou tentar ser) superior a sua dama. Deve, de todas as formas, banhar-se adequadamente e perfumar-se a ponto de superá-la… e saiba que tende a fracassar ferozmente todas as vezes.

Homem que é homem cala a boca de uma mulher só com um olhar. Um sorriso bem colocado no canto da boca, um leve menear de sobrancelhas acompanhado de um brilho apaixonado nos olhos tem de ser o suficiente para silenciá-la e fazê-la desejar seu beijo.

Macho de verdade deve lutar. Lutar para que sua garota nunca seja ofendida, em hipótese alguma, pelo fato de ser uma mulher. Lutar para destruir preceitos estúpidos construídos por antepassados temerosos que sonhavam com algum tipo de dominação.

Ser homem, por fim, é ser o defensor do maior ideal. Defender que um homem nunca foi e nunca será superior a uma mulher, bem como demonstrar que o contrário também é verdadeiro.

O dever máximo do macho é preservar o direito de amar, de ser amado e de poder apaixonar-se perdidamente quando o coração bate mais forte e o estômago faz cócegas nas entranhas.

Homem que é homem, por fim, tem a chance e direito de admitir que machos também são sensíveis, que as fêmeas também são fortes e os dois podem se amar apesar e exatamente por conta de suas diferenças e semelhanças.

E tenho dito!

 

A imagem já tem créditos em si mesma, mas eu peguei aqui

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Footloose – gritos de uma memória dançante

Publicado por RDS em setembro 15, 2011

footlooseNos últimos dias tenho acordado constantemente com a música Footloose na cabeça. Apenas para situar, ela foi escrita por Kenny Loggins para o filme de mesmo nome (de 1984) e que aqui no Brasil chegou com o nome de Ritmo Louco.

Para ser sincero, não lembrava o nome em Português, e nem deveria já que nasci uns três anos depois do lançamento da película. Como um bom menino, porém, assisti em algum momento da minha vida ao filme e gostei, o tipo de produção que te empolga.

Aí os anos passam, a música fica na cabeça, de vez em quando você a escuta sem querer em algum lugar e pronto, ela está lá, gravada. Não inteira e nem com a letra bem definida, mas fica ali.

Procurei no nosso querido Tube a cena final do filme, o que só serviu para eu querer assisti-lo inteiro novamente (alguém aí tem?). É muito gostoso de ver, especialmente porque é despretensioso e rítmico (quem não quer sair dançando depois de assistir?).

Dois pensamentos me pegaram no meio do caminho enquanto eu tomava café e cantarolava a canção. O primeiro é que deu vontade de montar um vídeo de uma cena musical naquele estilo (alguém aí se habilita?), e o segundo é que Footloose é o único motivo pelo qual eu entendo que o Kevin Bacon se tornou ator e não marceneiro ou encanador.

O resto da vida dele eu não comento, mas ele, provavelmente, nasceu só pra fazer aquele papel. Não desejo-lhe o mal, mas depois de 1984, ele já poderia morrer.

Para quem, assim como eu, ficou com vontade, segue a cena final de Footloose. Boa dança pra vocês e não se esqueçam de reparar na meia amarela do rapaz (1:34), na empolgação da garota de vestido azulado (2:24), e na dança épica do rapaz robô-boneco-de-pano-moonwalker (a partir dos 2:37).

Everybody cut footloose!!!

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O Brasil está no centro das atenções. E qual deve ser o foco das empresas?

Publicado por RDS em agosto 15, 2011

Artigo originalmente publicado no portal do Sincodiv-SP 

arte editada para artigo - mão de obra

Ainda que a crise financeira internacional esteja assumindo as manchetes de jornais do mundo inteiro, o Brasil – e seu desempenho – segue no foco das atenções. Uma economia emergente, estável nos últimos anos, um país com geografia favorável, ambiente vasto e com diversas possibilidades de crescimento e desenvolvimento, mesmo considerando a instabilidade externa.

A pesquisa recente, “Sonho Brasileiro”, realizada pela Box1824, empresa de pesquisa especializada em tendências, mostra que o jovem brasileiro acredita mais no seu país, comprovando uma propensão à melhora, mas que ainda não chegou.

O estudo mostra que 76% dos jovens acreditam que o país está mudando para melhor e 89% deles têm orgulho de ser brasileiros. O quadro que parece bonito à primeira vista, mas mostra outra realidade. Tal crescimento acelerado exige também mão de obra qualificada, mas a formação de profissionais leva mais tempo do que o mercado pode esperar. E uma das saídas para solucionar rapidamente este problema é “importar” tais profissionais.

Segundo dados obtidos pelo Valor Econômico, o número de estrangeiros que receberam visto de trabalho no Brasil aumentou 13% no primeiro trimestre de 2011 em relação ao mesmo período de 2010. Foram 13 mil estrangeiros autorizados pelo Cnig (Conselho Nacional de Imigração), vinculado ao Ministério do Trabalho, nos três primeiros meses do ano.

De uma forma geral, o desenvolvimento de nosso país pode ser visto de diversos ângulos. Um dos argumentos usados pode ser o de que a entrada de tais profissionais no país se rivaliza com a saída de brasileiros que vão para fora para trabalhar. O quadro não é bem esse.

Na maioria das vezes, não são trabalhadores brasileiros que vão para o exterior pela sua qualificação. Isso existe, sim, é verdade, mas não é o comum. Em grande parte, os brasileiros que estão “lá fora” são estudantes que, por facilidades, tiram este tipo de visto para entrar em outros países para trabalharem em busca de melhores condições.

Uma vez ali, e falo por ter diversos exemplos próximos, os brasileiros acabam entrando no mercado de trabalho como mão de obra barata (e mesmo “baratos” como profissionais, o salário vale a pena), mesmo que tenham qualificação para buscar algo melhor.

Déficit

O ponto importante de se observar é que do total de trabalhadores “importados” nesse primeiro trimestre, houve um crescimento de 7,8% daqueles que possuem doutorado, mestrado ou curso superior.

A situação parece ser clara: o Brasil exporta mão de obra “barata” ou sem qualificação, e importa gente qualificada.

Não se pode dizer que tal conclusão seja boa para o país, mas a verdade está um pouco “mais embaixo”, como dizem. Os dados mostram também que, o ritmo de trabalhadores qualificados que entram no país tem diminuído em relação aos de baixa qualificação.

De acordo com dados do Ministério do Trabalho, cerca de 1.144 vistos este ano foram concedidos a pessoas que contavam com a classificação “outros” na escolaridade o que, segundo a assessoria do ministério, indica que o grupo é quase todo formado por profissionais de baixa qualificação.

Isso quer dizer que não estamos apenas atraindo mão de obra qualificada para a necessidade do mercado, mas também profissionais de baixa qualificação. Se estamos “importando” estes dois tipo de profissionais e nossas “exportações” nesse sentido estão desniveladas, devemos ter um “déficit comercial de trabalhadores”.

Para ser um país coeso e forte, o Brasil precisa se desenvolver em diversos níveis e de maneira integrada, investindo em pessoas, infraestrutura e demais áreas. Não existem dúvidas de que o Brasil está num momento único de sua história e com possibilidades enormes pela frente.

O grande desafio que se apresenta agora é um tanto básico, e que já deveríamos ter aprendido há anos: é necessário planejamento e estratégias não só de curto, mas também de médio e longo prazos, o que inclui o papel individual de cada empresa no investimento voltado à capacitação de seus profissionais para evitar que, concorrentes, atentos a este fato, não saiam na frente…

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Jessie, Maddi, a simplicidade e a beleza

Publicado por RDS em julho 19, 2011

Maddi Jane - tirada duma pesquisa no Google, claro! E assim, de repente, numa conversa informal surgiu o nome Jessie E. Cornish, ou melhor, Jessie J.

Não conheço a fundo o trabalho dessa britânica mais jovem que eu. Na verdade, como brinquei aqui alguns textos atrás, acho que não conhecemos a fundo o trabalho de ninguém, nem o nosso. Só Deus deve conhecer o trabalho completo das pessoas, mas aí não vale, porque ele já sabia…

Divagações de humor duvidoso à parte, falo aqui da música Price tag que, se não me engano, saiu no ano passado e fez sucesso de cara.

Como disse meu cunhado, “no quadro da música pop atual é até de se admirar uma letra assim, dessas que valem a pena parar para escutar”. A música é gostosa, tem ritmo, o vídeoclipe é interessante e brinca com umas “psicodelias” que se tornam suaves em fundos neutros, o que quebra um pouco a tendência Gaga e Tim Burton (e que o diretor me perdoe por colocá-lo ao lado da “Lady”).

Jessie J. me parece ter uma carreira interessante e ótimos planos para o futuro, pelo pouco que li a seu respeito, mas o que me impressionou não foi ela.

Procurando por Price tag no Youtube encontrei uma outra menina que fez um cover da canção e, aí sim, fiquei de queixo caído.

Vocês já devem conhecê-la, já que ela angariou milhões de acessos.

Pode ser clichê, atualmente, crianças que estouram no mundo musical, mas Maddi Jane pareceu ter um diferencial.

A menina fez uma escolha fortuita para gravar uma versão (não apenas dessa música, mas de várias outras). Price tag resgata um pouco da música gostosa de crítica suave: escute, perceba, veja o todo, mas curta o som. Uma oportunidade de sorrir enquanto “everybody look so serious”.

Quanto a Maddie Jane? Um encanto.

Rosto simples, vídeo feito com cuidado, porém sem efeitos ou estripulias, a menina segurou a música toda apenas com sua voz acompanhada de um violão. Charmosa, com um sorriso cativante, vale mais do que a pena os poucos minutos que dedicamos a vê-la na telinha virtual.

Simplicidade, carisma, vontade: arte! Resultado bonito, tanto o da Jessie J. quanto o da Maddi. Vale também acompanhar a letra.

Permitam-se uns minutos de beleza auditiva sem complexidade. A voz fala por si… e já não seria isso uma metalinguagem?

Seguem os links dos vídeos:

Jessie J. – http://www.youtube.com/watch?v=qMxX-QOV9tI

Maddi Jane – http://www.youtube.com/watch?v=7oBQnIumBRY

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Tudo o que é sólido… talvez nem sólido seja – ou da insustentabilidade da (pós)Modernidade

Publicado por RDS em abril 8, 2011

Rabisquei este texto na parte de trás da folha de um outro que estava lendo. Ele deve ser da última semana de março, mas acho que vale reproduzir.

Chamam nossa era de Pós-moderna, mas algo permanece em nós da era anterior (já que tanto gostam de classificar, o Modernismo), ou melhor, uma coisa levou à outra. Não foi (ou é) para “salvar” o planeta que nossas ideias (e, na verdade, poucas ações) se tornaram sustentáveis. Foi para salvar a nossa psique, o espírito de nosso tempo, se ele existir.

A constante destruição e construção, de espaços físicos e conceitos (como disse Marshall Berman, citando Marx, tudo o que é sólido desmancha no ar), nos levou a uma angústia da qual precisávamos achar uma saída.

Como é que tudo pode mudar, manter essa dinâmica louca – que parece não parar depois de iniciada – e, ao mesmo tempo, permanecer, manter algo do que já conhecemos para que haja uma chama, ínfima que seja, de reconhecimento entre o hoje e o amanhã? Como fazer do caos uma reconstrução mapeada, cognoscível frente nossa vida e entorno – físico e de valores – que se alteram a cada segundo?

A própria Revolução Francesa matou seus revolucionários em sua continuidade… eles ficaram ultrapassados rápido demais!

É por isso que conceitos como reutilizar, reaproveitar e reciclar (os três “Rs”) passaram a fazer parte de nossa pauta e, mais que isso, passaram a ser ensinados quase como um mantra nas escolas. Há poucos anos não havia (e creio que a tendência para a criação dos micro-ecologistas tenha piorado) outro assunto tão discutido nas aulas escolares como meio-ambiente, água, sustentabilidade, etc.

Depois, tais conceitos, hoje “primitivos”, dos três Rs deram lugar a uma ideia dominante e que parece ter achado no som de uma palavra sua função de existir: sustentabilidade.

A ideia do sustentável e seu famoso tripé… e o sujeito, precisavam integrar isso nos conceitos. Como falar do mundo, das transformações que devem ocorrer nele sem falar do sujeito, dos que operam tudo isso? Ou melhor, como falar do mundo sem falar daqueles que se acham os principais (e às vezes os únicos) transformadores desse espaço? Se assim fosse feito, esse conceito se perderia, não teria motivos para ser aceito.

Entretanto, mesmo com a bola da vez, o planeta, e com o sujeito, nada disso faria sentido sem o lucro. Se tudo seguir o padrão dos três Rs, a economia despenca. Não faz bem ser bom intelectual e péssimo administrador, várias figuras históricas já demonstraram isso.

O Pós-moderno me parece mais uma recuperação da Modernidade do que uma sucessão de épocas, mas com certeza não é uma superação.

A Era das Luzes foi forte demais e, ao invés de ajudar a enxergar, cegou. Os valores pessoais, nossa razão instrumental e voltada muito para a técnica, e pouco para a crítica, etc., mesmo nossas figuras de destaque. Tudo mostra o quanto somos contraditórios.

Não sou moralista, mas criamos serem andrógenos em pensamentos… e cada vez mais em corpo. Talvez nem andrógenos sejamos mais, pois ao invés de conter o masculino e o feminino, por assim dizer, nos esvaziamos de ambos e criamos uma terceira categoria: os apáticos.

Tentamos dar significado a símbolos que estavam, já, no lugar de outros e criamos um ciclo infindável de substituição no qual o significado primeiro (se é que há ou houve) se perdeu, como na Modernidade. Mas não mudamos o conceito em si, e sim sua representação, o que distorce a ideia sem dizer qual foi o ponto de partida e, se um símbolo ou signo leva a outro e não alcança o que se pretende no real, ou na realidade, mantemos, sempre, a definição medieval do signo – algo que está no lugar do que falta, do ausente.

Entretanto, se não se sabe a qual representação ou conceito o símbolo se refere, ele se esvazia (ou re-significa sem conexão direta ou correspondência) ou se encerra em si, se auto-representando enquanto nada aparece para suprir essa falta. Estando no lugar do ausente e representando a si mesmo o símbolo passa a representar o próprio vazio, a própria falta de sentido. E ele continua se copiando de maneira indefinida,

Parece-me, no entanto, que tudo tem um limite de cópias, pois o “clone” sempre sai gasto, com defeitos ou tem vida curta. Seja uma divisão celular (por qual motivo envelhecemos mesmo se as células continuam a se copiar e as trocamos por todo o corpo?) ou uma folha da qual se faz uma cópia da cópia da cópia… as características se perdem, se tornam manchas que se dissolvem aos poucos.

Tudo isso demonstra um desgaste nas bases sociais e dos indivíduos sem mostrar até onde deve-se ir. Qual é o limite de significados que as coisas podem adquirir? Ou melhor, o quanto um mesmo símbolo pode se auto-revalidar sem perder todo e qualquer sentido? Não sabemos, mas assim acontece. É o espírito de nosso tempo onde o sustentável dá mais a ideia de uma auto-afirmação que se sustente por si, se recicle e propague, do que a construção de uma sociedade melhor, que cuide de seu meio ambiente e pessoas, e cresça economicamente de maneira conjunta.

Hoje, o que é sólido não se desmancha no ar (talvez nem haja algo realmente sólido), mas qual é o mérito de um tempo onde, reciclando e se perdendo, as pedras de um castelo histórico, por exemplo, podem se dissolver nos significados e, modificados, virarem areia de uma caixa de gato?

Talvez nem tudo o que é sólido se desmanche no ar atualmente, mas quem dera assim fosse, dessa forma não precisaríamos tentar poupar uma atmosfera quase perdida como desculpa para a continuidade da vida, quando o que se quer é apenas dar uma boa espiada em até onde esse esvaziamento nos levará. Símbolo após símbolo, conceitos reciclados atrás de conceitos reciclados tentando ser, amanhã, o que nunca soubemos que fomos ontem, e não temos a menor noção do que somos no hoje!

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E o Verbo era…

Publicado por RDS em março 30, 2011

Resumo básico de um encerramento de módulo de Platão a Lacan
Somos “prisioneiros” da linguagem…
Somos autopoiéticos…
Comunicamos para os diversos outros dentro de nós mesmos e no externo a coisa se complica…

Se somos escravos da linguagem, porém autogeradores, em algum momento essa linguagem (seja qual for) foi introjetada, nem que seja por uma parte do eu (Real= e inacessível). Assim, a língua/linguagem, deve ser algo anterior a tudo, mesmo anós…

Tradução “no princípio era o Verbo…” – e não é que João (o apóstolo) estava certo rs

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