Mas…

Um pouco de tudo – muito de nada

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Hora H – Parte II

Publicado por RDS em maio 14, 2012

sunset O rapaz era cativante. Jeito risonho, sempre bem humorado, não perdia uma oportunidade para uma de suas sacadas ligeiras. Renato era um cara simples, fácil de se gostar. Costumava andar acompanhado de seu violão. "Uma voz que fala sem palavras e diz muito mais do que longos discursos", como gostava de dizer, mas ele mesmo era adepto de horas de conversas, em especial com Agatha, por quem se apaixonara perdidamente.

Agatha e Renato formavam uma dupla única, mistura quente de paixão e sentimentos intensos. Tornaram-se amigos, além de amantes.

Agatha costumava admirar a forma como Renato sentava de noite na varanda do pequeno apartamento do centro da cidade que eles alugaram depois de um ano juntos. Ele se sentava em um pequeno banco, admirava os sons e luzes da cidade, suspirava várias vezes e dedilhava seu violão, compunha. Sempre fora um artista, uma alma insaciável pela poesia, dócil no agir, mas violenta nos dizeres. Renato encantava e mexia em recônditos profundos de todos que ouviam sua canção.

Se a garota se encantava com o rapaz o mesmo deve ser dito no caso oposto. Agatha era musa de Renato, fazia-o sorrir, inspirava-o a derramar lágrimas enquanto criava. Às vezes era dura com ele, os poetas carregam em si o mal de viverem por tempo demais em mundos inalcançáveis e alguém os têm de pegar pelos pés antes que se percam flutuando. Estranhamente, ela lhe funcionava de âncora e motivo de devaneio.

E depois de três anos juntos, no aniversário de 21 anos de Agatha, as coisas saíram um pouco do controle. Já há alguns meses um rapaz da empresa dela estava dando em cima da garota. Por ser uma menina simpática e evitar desconfortos, Agatha tinha usado de meios suaves para se desvencilhar das insistências do rapaz, mas não foi suficiente, ele continuava a persegui-la.

No dia do aniversário, Renato resolveu fazer uma surpresa, chamou todos os amigos dela em um bar para comemorarem juntos, mas ele mesmo não apareceu. Agatha estranhou e ficou mesmo chateada por ver as horas passando sem que Renato chegasse. Ele havia dito que tivera problemas com a família e que talvez chegasse para o final da festa.

Mesmo rodeada de pessoas, Agatha se sentiu sozinha e exagerou em um drinque ou outro e dessa brecha foi que o rapaz do trabalho se aproveitou.

Sentada numa mesa reservada próxima do palco onde estava para começar um show, ela foi abordada pelo garoto. Depois de algumas palavras ele forçou o beijo. Distante de sua sã consciência, Agatha começou a escutar a inebriante balada de um violão que iniciava seu passeio pelas notas no palco. A voz doce do cantor a contagiou e ela tentou repelir aquela boca estranha que a invadia. Tarde demais!

No palco, Renato, que fazia um show especial para sua amante e aniversariante silenciou. Todos no bar ficaram perplexos e viram Agatha com o outro rapaz enquanto o homem de sua vida jazia sob a luz de um holofote no palco. Como uma tragédia teatral Renato permanecia no escuro, em silêncio, iluminado apenas por um facho de luz.

Quando a garota tentou se levantar, um pouco cambaleante, o artista já abandonara o tablado. Uma amiga levou Agatha para sua casa onde passou a noite e tentou se recuperar. Só conseguiu voltar para seu apartamento e de Renato no final do outro dia, mas já era tarde.

Ao entrar naquele que fora o seu ninho de amor não encontrou nada além de suas coisas cuidadosamente separadas e um bilhete pedindo que entregasse as chaves ao dono do imóvel. As coisas de Renato não estavam mais lá, ele havia sumido.

A garota procurou por Renato por diversas noites e só o encontrou três dias depois, bêbado, agarrado com duas garotas depois de um mini show que fizera num bar de ambiente duvidoso. Ele não atendia suas ligações, não respondia suas mensagens, parecia nunca tê-la conhecido.

Apesar da atitude de Renato, Agatha entendeu que ele agia desta forma porque estava despedaçado por dentro. Para um poeta, ver a queda de sua musa é o mesmo que perder o motivo de viver.

Tentou conversar com ele, mas não conseguiu. A garota se irritava quando tentava tocar no assunto e não sabia se explicar. Ademais, ela também se sentia traída, expulsa de sua casa sem ao menos ser consultada. A vida virou de pernas pro ar.

Renato dedicava-se cada vez mais aos shows noturnos e seus horários não batiam com os de Agatha. A garota deixou de ver o brilho especial nos olhos do rapaz e tudo desmoronou. Separaram-se assim: ele machucado pela sua musa, ela desencantada com seu poeta que não conseguia mais inspirar…

Um ano se passara desde então e eles nunca mais haviam se visto.

Seria tolice dizer que não pensaram um no outro, mas a distância física consegue enxaguar antigas mágoas e realçar bons momentos. Tanto Agatha quanto Renato pareciam ter se perdoado pelos erros e seguido em frente, mas ela ainda estremecia quando pensava naquele olhar castanho cantando para ela.

E de repente, enquanto terminava de escutar a música, a garota se deu conta de que queria vê-lo. Não sabia por que, mas precisava ver Renato. Quem sabe lhe explicar de maneira calma tudo o que aconteceu ou ouvir dele a versão da história.

Agatha saiu correndo da livraria, o que fez com que o vendedor e Pedro lhe olhassem de modo estranho. Correu algumas quadras pensando onde deveria ir para encontrar Renato, precisava lhe falar naquele instante.

Tentou seu celular, mas não obteve resposta. Ligou na casa de seus pais, mas soube que ele não morava mais lá. Perguntou onde então, mas eles não lhe deram o endereço, apenas um número de telefone que chamou em vão.

Desolada, naquele final de tarde de outono, quando o dia nada mais é que alguns borrões escarlates no céu Agatha caminhou lentamente para uma praça ali perto e se sentou em um banco onde ficou a fitar o chão, numa espécie de catatonismo pós-euforia.

Não muito longe dali escutou algumas notas musicais passeando pelo ar. A alguns metros de onde estava, num banco de costas para ela, escutou um rapaz cantarolando a música que ouvira há pouco na livraria.

Teve um sobressalto, estremeceu e nem acreditando no destino e nem em seus olhos, viu Renato de costas, cantarolando a canção que parecia ter feito para ela.

Agatha caminhou em direção ao rapaz e quando estava próxima o suficiente escutou claramente as palavras.

 

Caminhando de volta para casa sozinho

Num cinza de mundo, sem cor na verdade

Voltando para paredes que não fazem mais um ninho

Os olhos se enegrecem em interna tempestade

 

E na hora H está que nos separamos

Sem o toque sem a pele agora

Na hora H ta que não mais estamos

Não H ta mais, ela foi embora…

 

A menina disse:

- Gostei da sacada. A hora H… Senti uma homenagem.

Renato estancou na hora e se virou para confirmar com o olhar o que os ouvidos duvidaram, era sua musa que estava defronte a ele. Ele sorri. De um jeito leve, suave, mas não consegue esboçar qualquer outra reação, seus olhos têm um brilho intenso.

- Continue, por favor – diz Agatha, mas o rapaz não se move – , continue… adorei esta canção. Achei a história linda, mas particularmente daria um final mais feliz a ela.

- E como seria esse final? – finalmente fala Renato depois de uma pausa.

- Acho que o rapaz deveria voltar para casa, mas ter a certeza de que é amado e que encontrará o que procura.

- A vida nem sempre parece tão simples. A caminhada às vezes cansa.

- Mas não deveria, todo mundo que volta para casa caminhando merece uma recompensa. Ele tem de saber disso.

- Ele costumava acreditar nisso, mas algo se destelhou, perdeu a cobertura.

- Eu disse que ela precisava ser dupla.

- A crença?

- Não, a cobertura.

- E agora?

- Você já sabe qual é o prêmio de consolação, um nome, mas dessa vez já tem uma história ao lado dele, o que falta, afinal?

- Todo o resto da caminhada, juntos, de preferência!

- E o que estamos fazendo aqui parados com tanta sola para gastar?

- Você já me conhece, sabe que sou impulsivo, mas você está disposta a andar?

- Sempre estive, bobinho. E, além do mais, como teríamos passado tanto tempo nos conhecendo se eu não bebesse o seu almoço e seu ônibus de canudinho?

- Dessa vez acho que vou pedir de caramelo.

- Com cobertura dupla!

- E sem "repelimento"!

Eles aproximam suas faces devagar, fitando os olhos um do outro. Os dois sentem o peito disparar e o primeiro beijo ocorre. Primeiro, sim, porque quando o amor realmente agarra o mundo sempre começa a girar a partir daquele instante, e nada antes faz sentido.

 

E na hora H está que nos reencontramos

Com o toque, com a pele agora

Na hora H ta que de novo estamos

Eu e Agatha juntos, sem demora…

 

E o mundo é sempre uma balada de amor para os corações enamorados!

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Hora H – Parte I

Publicado por RDS em maio 14, 2012

parque Era sábado. Um dia de outono, com folhas secas rolando pelo chão ao sabor do vento. Ela caminhava lentamente por uma avenida cheia de árvores, queria ir até aquela livraria próxima da esquina.

Não era o melhor programa para uma tarde num final de semana, mas não queria ver ninguém naquele dia, ou pelo menos não estava disposta a ver todas as pessoas que estavam disponíveis a ela. Por um momento olhou aquele céu azul, com pouca luminosidade, e percebeu que dali a poucas horas o sol se poria.

Uma leve sombra perpassou seu semblante e seus lábios tremeram de leve. Colocou os braços ao redor do corpo como se sentisse desprotegida, apesar de não estar com frio.

Balançou a cabeça como se sacudisse de leve para afastar um pensamento e seguiu ao seu destino. Ainda doía.

Adentrou a livraria e um vendedor veio lhe fazer perguntas típicas. Dispensou-o com um sorriso agradecido que morreu rapidamente na boca. Foi se distrair nas prateleiras de livros e não encontrou nada que a atraísse, mas abriu um volume qualquer mesmo assim.

- Gosto da reflexão dos patos – uma voz simpática vindo de sua esquerda a despertou.

- Desculpe, respondeu. Não entendi!

- A reflexão dos patos, este livro que você está vendo – apontou para as mãos da jovem – adoro quando o autor divaga sobre a construção da família humana baseada na estrutura dos patos. Seguindo uma mãe maior e onipotente que pode nem mesmo ser a que colocou os ovos… – ele continuou falando algo que ela não deu atenção, ela apenas sorriu. Ele era simpático.

- A propósito, meu nome é Pedro – disse o rapaz estendendo a mão para cumprimentá-la.

- Agatha, respondeu estendendo a dela após uma pequena pausa. Ainda não se sentia desperta, como se a livraria e as pessoas estivessem passando por ela e, por mais que andasse, sentia que não havia se movido e permanecia dentro de seu mundo, introspectiva.

O rapaz fez algumas perguntas que respondeu de maneira vaga, ele estava se esforçando, parecia bom… não como ela estava acostumada, não como era antes.

Depois de algum tempo ela pediu licença dizendo que precisava procurar uns CDs e se dirigiu à outra prateleira. Como se utilizando de uma desculpa para se afastar da conversa daquele rapaz que não sabia o nome, apesar de ter certeza que ele o dissera, Agatha retirou um fone de ouvido e deu o play no CD que estava de amostra sem nem mesmo ver qual era.

Não passou muito tempo até que seu olhar se fixasse em um ponto qualquer, não importava o que penetrava pela sua retina, seus olhos estavam virados para seu mundo interior, para lembranças que penetravam pelos seus ouvidos. Era a voz dele, inconfundível!

A balada que tocava era mansa, mas profunda, ele cantava com dor, com sentimento:

 

Eu nunca conheci a perfeição até vê-la pela manhã

Nunca reparei na beleza das pequenas coisas até então

Não via o real vermelho de uma maçã

Não sabia o quanto valia o som de uma respiração

 

Os suspiros que apenas ela era capaz

O toque da mão, o detalhe do contorno de sua pele

O abraço apaixonado, o beijo sagaz

As lembranças em mim que nada apaga ou repele

 

A maneira como os dias cinzentos se abriam

Apenas por eu ver aquele olhar

Porque os desejos dos corpos não se continham

Eram ardor intenso, sol a brilhar

 

E na hora H está que nos separamos

Sem o toque sem a pele agora

Na hora H ta que não mais estamos

Não H ta mais, ela foi embora

 

Nos ofendemos por uma dessas coisas da vida

Um beijo roubado, uma fala apressada

Abandono, viagem só de ida

Um garoto partido e uma alma cansada

 

Não sei o que ela diria, mas aqui ainda há

Há um homem que estremece ao toque de sua mão

Aqui ainda está

Um prisioneiro da alma, um refém de seu coração

 

Caminhando de volta para casa sozinho

Num cinza de mundo, sem cor na verdade

Voltando para paredes que não fazem mais um ninho

Os olhos se enegrecem em interna tempestade

 

E na hora H está que nos separamos

Sem o toque sem a pele agora

Na hora H ta que não mais estamos

Não H ta mais, ela foi embora…

 

A música continuava em seu ouvido, mas o que aparecia agora em sua mente era a cena da primeira conversa. Anos antes lá estava ela, sentada sozinha numa praça, não muito distante de onde era a livraria, quando ele se aproximou. Ela não estava pensando em garotos, mas ele a surpreendeu:

- Olá, eu sou o Renato… Claro que isso não deve significar grande coisa pra você, acredito que não me conheça, então é apenas um nome. Mas a conversa tinha de começar de alguma maneira, melhor um nome sem uma história agora do que uma conversa que pode não chegar a lugar algum, e você não ficar sabendo nem mesmo meu nome…

- E se eu não quiser saber de história, nem seu nome e nem conversar com você? – Agatha retrucou em tom bem humorado.

- Aí pelo menos você já descobriu que eu tenho uma personalidade impulsiva e tem um nome pra colocar nessa história quando for falar para alguma amiga sua sobre um cara esquisito que você conheceu.

- Bem, o fato pode ser tão pequeno que eu nem tenha vontade de contar e, depois, talvez você não seja como está se mostrando agora. Quem sabe não é apenas um tímido que se encheu de coragem para vir falar comigo só agora? E se já estivesse me observando?

- Nesse caso acho que eu mereceria uma recompensa pelo meu esforço. Qual o seu nome?

- A sua recompensa seria saber apenas o meu nome?

- Na verdade este seria o prêmio de consolação, a recompensa seria eu poder gastar o dinheiro do meu almoço e da minha condução te pagando um milkshake pra ver até quando você consegue me repelir.

- Olhe que sou boa nisso! – respondera Agatha sorrindo.

- Tomar milkshake?

- Repelir pessoas…

- Aposto que já vi melhores "repelidoras". Aceita o desafio?

- Se eu aceitar você não vai levar vantagem alguma. Vai voltar andando para casa por ter pago a conta.

- Tanto quanto melhor! Depois de um milkshake faz bem andar. Quem sabe eu não descubro que nós vamos embora pelo mesmo caminho? – Renato parecia ter sempre uma resposta para tudo e isso encantou Agatha.

- Não vai funcionar porque, de qualquer forma, eu irei de ônibus.

- Tudo bem! Então você paga a minha passagem e eu te faço companhia.

- Eu não vou pagar sua passagem, você nem sabe se pega o mesmo ônibus que eu.

- Então nós cancelamos o encontro e você só me dá o prêmio de consolação. Qual o seu nome?

- Agatha!

- Belo nome, e também um dos mais difíceis de se conseguir. Quase perdi meu almoço e a volta pra casa por conta dele.

- Você já tem meu nome, e agora?

- Quero descobrir se você é boa ou má!

- Como?

- Aceita beber meu almoço e ônibus de canudinho?

- Olha que eu faço você andar…

- Se você vier junto para me repelir, tudo bem!

- Então quero com cobertura dupla!

- De "repelimento"?

- Não, bobo, de chocolate!

- Com gosto de caminhada, então!

E caminharam juntos. Agatha não se controlara e rira, ele se mostrara cativante e surpreendente desde o primeiro encontro, ou "aparição", como ela gostava de chamar . A cena se passara quatro anos atrás, ela tinha 18 anos então e, apesar de já não estar mais na escola, iniciou um namoro colegial com Renato…

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Quando o sol bater na janela do seu quarto (SL)

Publicado por RDS em março 13, 2012

SL – Série Legião: textos para acalmar o coração

Toquem a música e lembrem que sempre podemos mudar o mundo, o nosso e o dos outros

sol na janela- Quando o sol bater na janela do teu quarto, lembra e vê que o caminho é um só – o monge pronunciou essas palavras num tom de oração, enquanto olhava o amanhecer de sua janela de madeira rústica. Eram palavras de agradecimento. Não morava muito longe da cidade, mas a pequena vila onde residia lhe trazia paz.

Morava sozinho, mas não era solitário, e muitos o procuravam em busca de ensinamentos. Naquela manhã um homem veio vê-lo.

Padecia dos problemas da cidade grande. Trabalhava demais, recebia de menos, tinha um vazio no coração que não sabia preencher e se sentia distante de todos. Dos pais, dos amigos, da namorada, sentia-se distante até mesmo daqueles que não conhecia, vizinhos e passantes do bairro.

Procurava o monge para pedir conselhos, queria mudar de vida, mas isso sempre parece tão difícil. O sossegado senhor respondeu:

- Por que esperar, se podemos começar tudo de novo agora mesmo?

“A humanidade é desumana”, respondeu-lhe o rapaz. Tinha medo de não conseguir manter um padrão de vida ao qual se acostumara. Tinha medo de perder justamente a maioria das coisas que o deixavam naquela situação desconfortável e que, por algum motivo, ele acreditava que o definiam.

- Mas ainda temos chance – disse-lhe o monge – o sol nasce pra todos, só não sabe quem não quer.

O rapaz já ia começar a se justificar e buscar motivos para se prender a uma forma de existência que não queria quando o monge lhe convidou a entoar a mesma oração da manhã. Cantaram juntos.

- Quando o sol bater na janela do teu quarto, lembra e vê que o caminho é um só…

O homem conseguiu sorrir depois destas palavras, como se desafogasse algo do peito. Quis saber qual era esse caminho, mas o monge disse que a verdade se revela de forma diferente para cada um, apesar de ser uma apenas. Olhou profundamente nos olhos do rapaz e falou:

- Até bem pouco tempo atrás, poderíamos mudar o mundo. Quem roubou nossa coragem?

Como que por mágica, lágrimas vieram ao rosto do jovem, que contou que se sentia mais fraco ultimamente, distante do garoto destemido que já fora. “Tudo é dor e…”, balbuciou.

- Toda dor vem do desejo de não sentimos dor. Traduziu o monge, indicando ao homem que ao tentar evitar nossas mazelas, entregamo-nos a um sofrimento desnecessário, psicológico, sentimental e profundo o qual não precisaríamos experimentar se o medo não existisse.

“A antecipação do sofrimento é a única dor verdadeira”, completou o monge com um olhar amistoso e paternal.

Como que entendendo tudo o que se passava, o rapaz levantou a cabeça ainda com lágrimas nos olhos, mas sorrindo dessa vez. Respirou fundo, ergueu a face para aquele céu azul que o cobria e como que espantando todos os seus problemas e barreiras entoou:

- Quando o sol bater na janela do teu quarto, lembra e vê que o caminho é um só!

Em algum lugar, Deus sorriu!

A imagem chegou com os raios de sol deste local aqui

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Desenvolvedores de Fuga

Publicado por RDS em fevereiro 14, 2012

♫Hit the road jack and don’t you come back no more…♪

 

fugaE no meio daquela tarde abafada eles se telefonam.

Eram amigos de longa data. Ela desiludida com os recentes amores falidos de homens que não sabem ser homens. Ele um pouco puto com a vida em geral e, mais especificamente, com a carreira.

A culpa podia ser dos dois, a culpa podia ser de fatores externos. Fato é que estavam sufocados.

Num bate-papo “reclamão”, veio à tona uma ideia: vamos fugir!

A partir daí os planos se desenvolveram. Fugiriam naquela tarde mesmo. Eu passo aí ou você aqui? Vamos de carro, ela perguntou. É melhor, disse ele, eles poderiam rastrear nossas passagens de ônibus.

No caso o “eles” não eram específicos, mas poderiam conotar o ex-amante perseguidor, os empregadores insuportáveis, as tarefas diárias fatigantes ou apenas uma vontade louca de apagar o passado. Não porque o passado fosse ruim, mas porque, com certeza, o presente estava uma droga.

Praia ou campo? Praia seria o refúgio.

Consideraram que deveriam ser econômicos, não poderiam gastar muito, mas encontrariam um meio de sobreviver sem um trabalho que lhes roubasse a alma. Uma vida mais simples.

“E quando você estiver transando com alguém no nosso apê de um quarto só?”, perguntara ela. “Coloco uma meia na porta e você que se contente com o sofá”, retrucou ele brincando, mas também imaginando que, dia ou outro, também teria de dormir fora do quarto.

Arranjaram mais algumas complicações que foram resolvidas por ideias etéreas, e quando ele disse: vamos, está pronta?!, ela hesitou. Retrucou: fugir nunca é a resposta! E naquele instante todos os planos desmoronaram

Ele via sentido, porém, no que ela dizia, mas sua mania de filosofar o levou a um território perigoso.

-Agora é tarde demais!

- Por quê?

- Porque agora que já temos tudo planejado, não há como escapar do fracasso. Se fugirmos, somos covardes pelo que deixamos. Se ficarmos, abandonamos nossos planos, vontades, quem sabe sonhos criados. Não há mais volta, somos fugitivos de qualquer forma, covardes cotidianos que só não desaparecem por medo, de ficar e de partir.

Ela considerou o que ele dizia e viu que era verdade, mas algo veio lhe consolar, ela compartilhou.

- Bem, pelo menos somos bons em criar fugas, poderíamos abrir um negócio.

A brincadeira virou realidade e criaram os “Desenvolvedores de Fuga”.

No portfólio da empresa pode-se ler: Desenvolvedores de Fuga – planejamos fugas executivas, familiares, amorosas, adúlteras, infantis, e muito mais, venha conhecer nossa área especializada em adolescentes revoltados!!!

O negócio fez sucesso, muita gente buscava os serviços, às vezes temporários, às vezes permanentes. Descobriram que mais pessoas do que esperavam gostariam de fugir. Nessa era de consultores de todos os tipos fizeram muito dinheiro e acabaram presos à empresa.

Hoje estão ricos, mas ainda arde no peito dos dois o desejo de uma fuga nunca realizada naquela tarde abafada.

 

A imagem fugiu desse site aqui

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Noite na estação

Publicado por RDS em janeiro 11, 2012

 

estacao-de-tremEra noite, tarde.

Ele atravessou calmamente o pátio entre as estações e ficou de pé olhando-a entre as grades. Ela estava sentada, com seu jeito de menina, delicado – pensou em como era curioso como às vezes ela parecia uma mulher cheia de atitude e, de repente, uma menina a ser cuidada.

Ela acenou de maneira suave e ele demonstrou um olhar mais demorado, profundo, apertando os lábios em sinal de resposta, num meio-sorriso. Ela pareceu satisfeita, plena.

Ali, contemplando sua garota ao longe, pareceu-lhe ser uma cena eterna, o resumo da vida talvez.

Ele aguardou até que o trem dela chegasse, não podia fazer muito, as coisas eram assim, mas cuidava dela com seu olhar, acariciava-a ao longe pelo brilho de suas íris.

Quando ela partiu, ele tentou pegar um ônibus de volta para casa, mas já era tarde, mais, demais.

Qualquer outro ficaria desapontado, mas ele decidiu caminhar. A noite trazia uma brisa boa o suficiente para andar e ele seguiu o suspiro do céu enegrecido.

A cidade batia junto com suas passadas no asfalto, suavemente. Por mais que alguns veículos lhe passassem perto apressados, nada o atingia. As luzes amareladas da cidade traziam boas sensações ao peito e sua respiração transformava tudo em magia.

Hoje os amantes já não estão mais juntos, os trens mudaram os horários, e a vida tem alguns aspectos que a gente nunca entende completamente.

Podem não mais se amar, mas na lembrança, quando vem à tona, ela ainda é uma menina que só precisa de carinho e ele um garoto apaixonado que voltou a pé para casa… pensando em sua amada durante todo o caminho.

 

A figura chegou de viagem daqui

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Nem tão simples… ainda bem!

Publicado por RDS em dezembro 21, 2011

Natal -E às vezes eu só queria ser um cara simples e desejar a todos um Feliz Natal e um próspero Ano Novo!

Mas não dá, como vocês sabem…

A verdade é que eu adoro as coisas simples. Entretanto, incrivelmente, é nelas que se concentra a maior complexidade. Para ser simples é preciso ser muito complexo. Porque quem é simples é porque contempla em si mesmo uma capacidade de concisão enorme. Um dom de resumo. Ser simples é dizer muito com pouco.

Fato é que complicar, ou melhor, complexificar as coisas é próprio da vida. Se a gente simplifica demais, sem ter o complexo por trás, o mundo perde a graça.

Para quê levantar se depois me deito, para quê comer se depois tenho fome, para quê me lavar se depois me sujo?

Tais perguntas são sem fim e, geralmente, sem resposta, mas todas contêm apenas uma: para quê viver?

Se levarmos em consideração o que alguns antigos dizem, a coisa não melhora muito. O aclamado sábio rei Salomão descreveu em Eclesiastes (livro bíblico a ele atribuído) algo como “nada debaixo do sol faz sentido”, mostrando que a vida mesmo, seja você bom ou ruim, não tem uma lógica definida.

Simplificando as definições, complicamos, atrapalhamos o viver.

Por que viver, afinal?

A resposta não é fácil de se encontrar e, provavelmente, deve ser dessas simples, cheias de complexidade por trás. Fato é que muito mais gente escolhe viver a morrer e, que me desculpem os contrários, eu prefiro acreditar na intuição da maioria (se o povo fala, ou foi, ou é ou ainda vai ser).

A vida tem uma magia incrível que move o que deveria ficar parado e nos faz levantar contra a gravidade. Viver é perigoso, disse Guimarães Rosa, mas eu completaria que é por isso mesmo que vale a pena.

É pelos seus mistérios, segredos, surpresas e indefinições que a vida vale. É pelo olhar dos seus queridos, de seu cão feliz ao te ver em casa, dos amantes ao luar. É pelo pôr do sol laranja e inspirado no fim de uma tarde quente. Até mesmo pelos problemas, desejos insatisfeitos e buscas incessantes… é por tudo isso e muito mais.

Assim, temos de viver a vida com todas as suas complicações, porque ser feliz não é estar alegre o tempo todo, nem num estado de inércia sentimental onde se encontra um ápice e dali vive-se. Ser feliz é poder rir, sim, mas também chorar. É saber que ficar triste é normal e saudável, que uma tarde nublada pode desanimar ou te dar vontade de dançar na chuva.

Ser feliz é poder viver seus sentimentos com intensidade, e compartilhá-los com aqueles que amamos. Ser feliz é poder estar sozinho, desesperar-se, ficar no escuro, mas também encontrar, aliviar-se e acender uma vela, ou mesmo ser a “luz no fim do túnel” de alguém.

Alguns predizem que o mundo acaba em 21/12/2012. Talvez os povos antigos tenham visto a verdade, talvez tenham ficado apenas sem espaço nas pedras, para continuar o calendário. Seja o quer for, aproveitem o Natal, o momento de festa e de repensar ações. Não se chateie de ficar triste num dia e alegre no outro. Como você saberia a maravilha do doce se não experimentasse o amargo?

E que entre o ano de 2012 com uma certeza. Pois, já que estabelecemos estes ciclos anuais, vamos aproveitá-los para nos renovar, lembrar e pensar, refletir muito sobre as coisas, brincar com o cotidiano e ficar sério às vezes.

Eu não acredito que o mundo acabe no próximo ano, mas se 2012 for o último de nossas vidas, que seja grande, único e, se passarmos dessa “para melhor”, que o “outro lado” tenha de se esforçar muito, mas muito mesmo para ser realmente “melhor”.

Que sejamos importantes para as pessoas que nos rodeiam, que amemos com o coração, unhas e sangue, que o choro doído machuque e que o sorriso, quando estampado no rosto, seja verdadeiro e iluminado.

Bem, o resumo disso tudo é o começo do texto: Um Feliz Natal e um Ano Novo maravilhoso! Eu só queria acompanhar estes votos de um conselho: a vida, por mais problemas que se tenha, vale a pena!

No final é simples, mas é bom complicar para reconhecermos o valor que tem cada pequena coisa de nossos dias.

Renan De Simone

A imagem é do banco stock xchng, do artista Dimitri Castrique

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Antes das seis (SL)

Publicado por RDS em dezembro 9, 2011

SL – Série Legião: textos musicais

Toquem a música, leiam o texto, toquem o coração. Seja depois, ou mesmo antes das seis

sol-amareloPrólogo

Ela caminhou em minha direção, suave, linda, com o sol às suas costas, completando o amarelo de suas vestes. Nunca me esquecerei daquele fim de tarde. Daquele pôr do sol que se demorou só para assistir a minha amada vindo ao meu encontro. Pouco antes da noite. Pouco antes das seis…

Sereno

- Quem inventou o amor?

Ela veio até mim com aquele olhar baixo, suspirando enquanto sentava ao meu lado e deixava seus ombros caírem num ar de desalento.

- Me explica, por favor! – disse, fitando-me com aqueles lindos olhos de mel.

Tinha apenas 17 anos e eu 78.

“Quem inventou o amor?”, a pergunta era direta e deveria ser simples de responder, mas não era. Inicialmente fiquei calado, mas não consegui resistir quando ela me olhou daquela forma pedindo: me explica, por favor.

Clarissa estava de amarelo e me fez lembrar a primeira vez em que vi sua avó, minha esposa, hoje falecida.

- Vem e me diz o que aconteceu – retruquei com um sorriso simples e bondoso como só os avôs sabem sorrir (mesmo que os dentes não sejam os nossos). – Faz de conta que passou – completei, incentivando que ela se abrisse comigo.

- Quem inventou o amor, vovô? Me explica, por favor. Ele dói tanto, preenche tudo na gente.

- Não sei quem o inventou, Clarissa, mas posso dizer que era alguém muito sábio e que queria encontrar o mais forte dos motivos para vivermos. Ele dói, sim, mas você falou corretamente quando disse que ele nos preenche. Ele lota nosso ser e basta a fagulha certa para que essa dor se transforme em fogo, em força. Não sei o que se passa, minha querida, e acredito que talvez eu esteja velho demais para que você compartilhe suas histórias literalmente comigo, mas certas coisas não mudam, e o funcionamento do coração é uma delas.

- É tão difícil, vô! Às vezes parece que não vou aguentar…

- E não é para aguentar mesmo, o amor não foi feito para se guardar ou suportar, mas para ser vivido, foi feito para arriscar. Pequena Clarissa, pense dessa forma: você já sabe que tem algo aí no peito e que dói quando não sai. Já tentou expressar de alguma forma, então?

- Dá medo!

Não pude evitar outro sorriso nesse ponto. A eterna disputa entre o medo que causa dor e o medo de que a dor da decepção seja maior que a que já existe…

- É justamente por isso que o amor está aí e precisa ser tão forte, seja como for, ele é sempre melhor e maior que o medo.

Interlúdio

Todo coração bate em um ritmo, o meu batia no mesmo de minha amada.

As perguntas de Clarissa trouxeram a paixão que eu sentia por sua avó novamente à tona. Daqui vejo seu descanso, perto do seu travesseiro. Quase como se eu pudesse vê-la novamente ali, deitada ao meu lado propondo jogos, “vamos passar a noite toda acordados, depois quero ver se acerto, dos dois, quem acorda primeiro”…

Quem inventou o amor?

- Me explica, por favor, vovô, eu quero saber mais!

- Quem inventou o amor? – a pergunta saiu da minha boca enquanto eu fitava um ponto qualquer na sala.

- Isso! Me explica, por favor.

- Quem inventou o amor, Clarissa?

E ela repetiu sorrindo, entendendo que a conversa tomara um tom mais leve, menos dramático. – Me explica, por favor!

- Quem inventou o amor? Me explica, por favor… isso me lembra uma música, minha pequena.

- Qual, vô, eu não conheço!

- Versos de um poeta que se perderam no tempo, minha neta. Mas que continuam sempre a fazer sentido.

- E então?

- Não sei quem o inventou, Clarissa, mas o amor é uma jornada, um desafio, o mais belo deles. O que você precisa saber é que enquanto a vida vai e vem, você, todo mundo, procura achar alguém que um dia possa lhe dizer “quero ficar só com você”! E quando escutamos e dizemos isso verdadeiramente, vemos que toda a dor de antes ou mesmo depois – que falta que a sua avó me faz – valem a pena e não são nada comparados àqueles momentos de paixão intensa.

Clarissa se espantou um pouco com minhas palavras fortes, percebi seu sobressalto, mas logo seu rosto se iluminou, como se mil ideias e sentimentos fervilhantes surgissem naquele coração. Teve um leve tremor, como minha amada tinha sempre que se empolgava com algo, e me abraçou. – Obrigada, vô! Você é demais. E saiu correndo para a vida, para o amor.

Epílogo

- Quem inventou o amor? – minha amada me fizera a pergunta com os olhos brilhantes, deitada de lado na cama durante uma tarde de domingo em que decidíramos não sair dos lençóis. Pela janela entrava um sol gostoso que dava um tom de sonho à cena.

- Não sei, mas por que quer saber?

- Porque eu queria agradecer por ter colocado no meu peito algo que queima tão forte por ti…

Eu a beijei e fizemos amor por todo o dia, só parando ao pôr do sol, pouco antes da noite, pouco antes das seis…

 

A imagem saiu debaixo dos lençóis daqui

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A montanha mágica (SL)

Publicado por RDS em novembro 1, 2011

SL – Série Legião: textos musicais

Rodem a música e leiam

cidade noiteEu quero uma bebida. Hoje em dia é só um copo de algo muito forte que me sustenta. Não vejo mais a luz do sol, agora eu não preciso vê-la mais já que sou meu próprio líder. Decido por mim mesmo e isso é maravilhoso… e horrível.

Quando ainda adolescente eu achava que estava indo para algum lugar. Tinha a vida inteira pela frente, todas as possibilidades do mundo em aberto. Bastava acreditar nos meus ideais, manter meus princípios, continuar imaculado, e nada poderia dar errado. O sol em todas as manhãs era uma promessa de vida e se a escuridão era convidativa, era apenas pelos mistérios que trazia em si.

Hoje eu ando em círculos, me equilibro entre dias e noites.

Minha vida toda espera algo de mim, a criança no meu peito me olha com decepção. O sol é uma afronta que revela meus defeitos, expõe sob uma lente nítida demais aquilo que não sou, o que deveria ou poderia ser. A escuridão não é mais convidativa, mas é minha casa: um casulo escuro e de breu que deixa minhas imperfeições de lado e onde posso me considerar uma sombra de mim mesmo.

É mais fácil encarar a sombra de hoje como algo distante do menino imaculado, assim posso dizer que, por mais suja que minha existência seja, ela não fere a memória do rapaz que tinha a vida toda pela frente. Não foi aquele garoto que tomou as decisões erradas e chegou até aqui, foi essa escória que hoje ocupa o seu lugar no mundo que tomou posse de algo que não lhe era de direito.

Vivo sempre num meio-sorriso, como se minha face se engessasse numa expressão que não desperta nem causa nada em ninguém; as noites de meia-lua me atraem pela falsa luz; e toda tarde é um sono de domingo, um entorpecente que me deixa jogado nesse quarto alugado, bagunçado e quente de um prédio caindo aos pedaços no centro dessa metrópole que me engoliu.

Minha papoula da Índia, minha flor da Tailândia, meu ópio diário, minha droga mental, és o que tenho de suave… e me fazes tão mal. Me rouba a realidade, mas insistentemente me devolve a ela sem uma overdose que possa encerrar a desgraça.

Ficou em mim logo aquilo o que tinha ido embora. Toda a culpa de ter uma vida regrada na adolescência é o que permanece em mim como boa lembrança agora que sou livre. Estou só um pouco cansado, eu acho, não sei se de uma situação específica ou da vida em si.

Não sei se isto termina logo.

Meu joelho dói, acho que estou ficando velho, e não há nada a fazer agora, na verdade nunca houve, nós sempre envelhecemos, sempre passamos das boas fases e aí morremos. O problema é o intervalo entre tudo isso.

“Para que servem os anjos?”, eu costumava me perguntar. Uma vez que eu mesmo me via como um anjo, por que precisaríamos de outros seres desse tipo para nos ajudar? Mas isso foi no tempo em que eu dizia “a felicidade mora aqui comigo até segunda ordem”. E alguém deu esta segunda ordem sem eu saber. O destino, a vida, Deus, qualquer um menos eu… eu me isento.

Um outro agora vive minha vida, sei o que ele sonha, pensa e sente. Onde estou, afinal? Estou como debaixo d’água, assistindo a tudo que se passa de um lugar turvo, sem som claro, como se eu não controlasse as coisas. Na verdade, quando é que nós controlamos algo mesmo?

Não é coincidência a minha indiferença, preciso não me importar para seguir em frente. Qualquer coisa diferente disso dói demais. Sou uma cópia do que faço e, cá entre nós, não ando fazendo grandes coisas ultimamente.

Alguns tragos, uns cigarros a mais, algumas caminhadas noturnas. É o que me mantém vivo. Talvez os olhos de uma vadia barata que um dia já amei contribuam para minha permanência esquisita por aqui.

O que temos é o que nos resta. Sempre foi assim, não? Nunca tivemos nada mais do que aquilo que nos restou.

Eu saio de noite e as luzes amareladas da cidade me aquecem o peito. Micro-sóis tentando me recuperar. Preciso de uma estrela só minha, intensa… estamos querendo demais.

É essa metrópole que se agarra com força nas minhas entranhas, é o perfume daquela que me seduziu e deixou, é tudo, é por elas, por ela, minha papoula da Índia, minha flor da Tailândia, meu ópio diário, minha droga mental, és o que tenho de suave… e me fazes tão mal. Rouba-me a realidade, mas insistentemente me devolve a ela sem uma overdose que possa encerrar essa desgraça.

Existe um descontrole, que corrompe e cresce no meu peito. Algo ainda quer se libertar. Às vezes parece que fui surrado até o limite de minhas forças. Pode até ser, mas estou pronto pra mais uma, eu sempre levanto. Sujo ou limpo, fétido ou perfumado. Apodrecido por dentro ou com esperanças, na noite mais clara ou na mais sombria, eu me levanto. O que é que desvirtua e ensina? O que tudo isso quer dizer?

O que fizemos de nossas próprias vidas, minha querida?

Basta um encontro sorrateiro em qualquer bar mais escuro e nossos olhares começam todo o jogo: o mecanismo da amizade, a matemática dos amantes. Agora, no fim da noite, só artesanato, minhas mãos deslizando pelo seu corpo como que moldando a forma perfeita daquilo que desejo.

Nós dançamos apenas um para o outro. Lá fora o mundo pode acabar, tudo aquilo que não for você, o resto são escombros…

E então tudo é modificado. A cidade insiste em disputar com você um espaço no meu coração. Vem como um convite malicioso que diz: “mas, é claro que não vamos lhe fazer mal, nem é por isso que estamos aqui!”. Eu sigo o chamado.

Quando saio em suas ruas, porém, cada criança com seu próprio canivete, cada líder com seu próprio 38, vejo que fui um tolo novamente ao cair nos doces lábios dessa montanha mágica de concreto, e te abandonei por promessas que eu sabia que ela não iria realizar.

E me pego novamente balbuciando as palavras “minha papoula da Índia, minha flor da Tailândia…” Chega!

Vou mudar a minha vida.

Chega dessa escuridão. “Garçom!”, chamo, “deixa o copo encher até a borda”. Ele me olha desconfiado e eu completo, “que eu quero um dia de sol”.

Ele entende cada vez menos e eu cada vez mais, me sustentando num copo…

Num copo d’água a partir de agora!

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Romance urbano

Publicado por RDS em outubro 4, 2011

Texto de maio de 2006, mas que encontrei num voo entre arquivos

asas de anjoSer livre é coisa muito séria. A liberdade está em acreditar em nosso pensar independente, nada disso é fácil. E quem disse que é certo?

Ser pessoa boa talvez seja ser pessoa presa. Encontrei meu meio-termo: fugi! Fiquei livre. Estou longe do que eu era. Agora, mais do que nunca.

Meu equilíbrio foi me agarrar a uma mulher. Já que eu decidia por mim mesmo, decidi que eu precisava de uma companhia. Desgarrei-me de tudo para me prender a ela. Aí ela me deixou, não aguentou o moquifo em que eu moro, minha tendência alcoólica, meu subemprego.

Agora sou livre de verdade! Estou sem meu passado e as conquistas do presente também se foram, quer saber? Ser livre é um saco, é triste.

É também tranquilo, isso é verdade, mas de uma tranquilidade débil, sem revoluções. Liberdade é um banho morno, às vezes delicioso – quando se está sujo e cansado – mas perturba e enruga a pele se for constante.

Liberdade, livre: é para se estar e não para se ser.

Uma vez ouvi uma música que dizia que pecado é provocar desejo e depois renunciar, ela fez isso comigo. Não me refiro à garota que me deixou, e sim à liberdade. Causou-me a melhor das impressões e partiu, ou melhor, deixou que eu partisse. Foi esse o problema, fiquei muito livre, livre a ponto de me libertar da liberdade. Agora estou preso a essa vida suja.

Fico me embebedando enquanto olho o ponto de ônibus. O frio é tão sério e formal, seu ventou nunca parou para me dar um oi nessas noites.

As luzes amareladas da cidade sempre ficam desfocadas, não sei se pela bebida ou pelo cansaço do dia. As coisas são sempre assim.

De frente ao bar há dois orelhões, um de costas para o outro. Nessa noite algo estava diferente: o bônus do mês foi todo em pinga. As luzes se desfocaram mais rapidamente…

E, quando eu já estava tonto o suficiente para me roubarem, vomitar ou perder os sentidos, ela entrou. Com os orelhões às costas, como um anjo urbano da comunicação.

Caí ao chão, não me restavam nem lembranças, os olhos dela é que me contariam histórias a partir de agora, um presente eterno. Os orelhões já tinham sumido, mas as asas não. O anjo que me salva dos bares, a prova de que Deus existe, pelo menos para mim.

Meu anjo projetado contra a lua de um poste. Enquanto chovia, ela me carregava pelas ruas desta noite infame, eu estava tonto, menos pela bebida que por sua presença. Perdi os sentidos por alguns instantes e de repente estou deitado num colo enquanto vejo imagens passando na noite, estou voando? Não sei, apenas fecho os olhos novamente.

Quando os abro estou num apartamento, pelo menos é o que acho, pela altura da vista na janela. Estou de roupas secas, ainda cansado. Ainda mais cansado de meu orgulho, egoísmo e vaidade. A madrugada já vai alta, vou mudar minha vida, as coisas vão melhorar.

É isso! Vou me prender àquela que me salvou, vou me modificar por ela. Por ela deixarei minha liberdade, a sujeira livre. Ninguém diz que é fácil, nem certo, mas meu pensar é independente. A liberdade é só uma impressão e minhas impressões podem se alterar, mas não essa noite. Hoje só quero me acomodar e me aquecer em suas asas.

E se eu morrer, morrerei feliz, com meu anjo urbano anônimo.

 

*As asas vieram voando desse site aqui

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Serena, sereníssima (SL)

Publicado por RDS em outubro 3, 2011

SL – Série Legião: textos musicais

Rodem a canção antes de lerem

laranjeiraE de repente eu só conseguia pensar nela… imponente e forte, mas tranquila, calma, serena, sereníssima.

Meus olhos viam apenas a árvore, aquela laranjeira sob a qual passamos ótimos momentos de nossa amizade, juntos, desde a infância. Pelo menos até aquele dia no banco.

Anos antes

Era alta madrugada, a brisa que batia nas ruas anunciava um frescor bem-vindo depois de um dia abafadiço.

Olhei para o lado e vi que o Fantasma, meu amigo, seguia com o combinado. Ele me fitou por um momento e percebeu que algo não estava certo, como se já soubesse que eu faria algo estúpido, seu olhar dizendo, “Sombra, tire essa ideia da cabeça”. Eu não tirei.

Bastava invadirmos o local e arrombarmos o cofre 36. Dizia-se que era um livro, um manuscrito, mas não importava o conteúdo, não para nós. Aquele era o serviço pelo qual nos pagariam e pronto. Entretanto, quando vi aqueles diamantes reluzindo dentro do vidro, não resisti e toquei nas pedras…

Encontro

Caminhei em direção a porta um tanto vacilante. Depois de cinco anos era difícil prever a reação dele. No quintal da frente, a laranjeira. Ele manteve a árvore ali e isso era um bom presságio. Tempos antes ele disse que a arrancaria da frente da casa na primeira oportunidade, mas eu pedi que a deixasse ali.

Bati de leve na porta, ele abriu e me encarou um tanto confuso. Logo de cara não falamos nada, é difícil saber o que dizer depois de tanto tempo. Ele começou:

- Por quê? – ele não queria saber o porquê de eu estar ali, mas sim o motivo de eu ter, cinco anos antes, tocado onde não devia, estragado o trabalho e, mesmo livrando a cara do Fantasma, ter ficado engaiolado por todo esse tempo.

- Eu sou um animal sentimental, você sabe! Me apego facilmente ao que desperta o meu desejo, foi o impulso.

- Mas eu te avisei…

- Tente me obrigar a fazer o que não quero e você vai logo ver o que acontece: farei só de teimosia.

- Acho que entendo o que você quis me dizer – falou Fantasma com uma voz mais amena. Uma TV ligada ao fundo e uma voz de mulher rindo com a tela luminosa vinha das suas costas pela porta entreaberta – mas existem outras coisas.

- Você está bem? – perguntei.

- Tanto quanto se pode ficar quando seu melhor amigo vai preso e você não pode fazer nada. Consegui meu equilíbrio cortejando a insanidade. Ainda achei que algo podia ser feito, que tolo, tudo está perdido.

- Mas – retruquei – ainda existem possibilidades.

- Possibilidades, Sombra? Você ferrou com tudo. Tínhamos uma ideia, mas você mudou os planos. Melhor ainda, nós já tínhamos um plano, você mudou de ideia. E nem me disse nada.

- Já passou, Fantasma, isso já passou. Talvez a gente possa fazer algo, quem sabe outro dia…

- Chega, Sombra. Não viu onde estou? Tive de abandonar os trabalhos. Quando você tocou nas pedras, soou o alarme e fomos perseguidos, você selou nossa carreira, ninguém mais me contrataria… e eu não faria nada sem meu parceiro. Antes eu sonhava, tinha planos, agora, já não durmo. Mal chego do trabalho já preciso sair de novo. O mundo é uma corrida e tanto.

- E como é. Quando foi que competimos pela primeira vez?

- Esse é o problema, nós não competíamos. O que ninguém percebe é o que, de certa forma, todo mundo sabe. Não entendo o terrorismo que se faz, essa pressa que colocam no peito das pessoas, ganância. Nós só falávamos de amizade.

- Chega, não estou mais interessado no que sinto, no que passou. Agora que saí da prisão, tudo é vida nova – repliquei, tentando animá-lo.

- Eu não acredito em nada além do que duvido. Como você acha que as coisas vão ser a partir de agora? Acha que é só voltar aqui, bater na minha porta no meio da noite dizendo que está de volta e tudo vai dar certo?

- Você espera respostas que eu não tenho, mas não vou brigar por causa disso, Fantasma.

- Eu não uso mais esse nome… bem, de qualquer forma, você é meu amigo e saiu da prisão, isso me deixa feliz. Até penso duas vezes se você quiser ficar e dormir por aqui – disse ele, finalmente, sorrindo.

Eu meneio a cabeça e aceito o convite. Entramos na casa humilde e o que se segue é uma sessão de apresentações e conversas dos velhos tempos. Falamos da infância, do quanto a vida era boa e de como eu fui estúpido ao estragar um trabalho quase terminado no cofre 36, e sair de mãos abanando.

A verdade era que aquele era só mais um trabalho, eu queria uma solução mais permanente… talvez ela não exista.

Quando todos vão se deitar, resolvo ir até o jardim. O tempo está bom. Uma brisa fresca bate, afastando o abafadiço do dia, como naquela noite do assalto e, assim como naquele momento, meus olhos se iluminaram e eu pergunto:

“Minha laranjeira verde, por que está tão prateada? Foi da lua desta noite, do sereno da madrugada?”.

Ela não responde, mas eu desconfio que tenham sido as sementes.

Caminho até a árvore, escavo e encontro um pacote bem embrulhado, como eu o deixara horas antes de ser preso, há cinco anos.

De repente, tenho um sorriso bobo, parecido com um soluço. E fico me perguntando se devo contar ao Fantasma que os diamantes que valem milhões estiveram esse tempo todo enterrados debaixo da laranjeira que ele prometeu derrubar quando pudesse. Nós estamos ricos, meu amigo!

Olho ao redor e respiro o ar da noite sentindo a liberdade mais fresca que nunca em mim, enquanto o caos segue em frente, longe de mim, com toda a calma do mundo…

 

*A foto é da Margarida Neves

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