Mas…

Um pouco de tudo – muito de nada

Arquivo da categoria ‘Crônica’

Paris Hilton World

Publicado por RDS em Novembro 27, 2009

É engraçado como certas coisas tendem a tomar proporções desnecessárias. Uma aluna vai de vestido curto pra faculdade, o pessoal exagera e a brincadeira foge ao controle (para aqueles que conhecem, podem colocar a teoria do comportamento em massa aqui), vira agressão.

Tudo poderia acabar ali mesmo apenas com uma repreensão a alguns alunos e uma calça na gordinha, mas não. A Uniban fez questão de ser trouxa o suficiente pra expulsar a menina, aí tudo mudou. Os alunos se tornaram agressores juvenis, reacionários com ares da ditadura.

A menina vira um ícone da liberdade feminina (se bem que se ela queimar o sutiã, vai precisar recolher as tetas do chão) e, ao invés de ser uma menina metida a sexy e meio vadia (convenhamos) que qualquer cinco minutos de conversa prova que não tem muito a contribuir intelectualmente, torna-se uma nova BBB que nem dentro da casa esteve.

A Uniban foi burra! Primeiro por tomar atitudes precipitadas, se expor demais e dar um passo para trás. A multidão estava errada? Sim, não estamos mais na época da barbárie, se ela quer mostrar celulite “deixa a mina, meu”! Agora, por favor, mídia dos infernos, não façamos duma pessoa vazia um ícone. Se quiser assumir um discurso proteccionista, tudo bem, os fracos, oprimidos e obesos exibicionistas devem ser protegidos, mas não escutados como se fossem Sócrates.

Agora, cá entre nós, em quanto tempo vocês acham que ela estará posando nua (blargh!!!), ou fazendo propaganda de roupas de vadia digo, de verão?

This is the Paris Hilton World!

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Medo!

Publicado por RDS em Novembro 26, 2009

Filme: Quarto 1408, baseado num conto de Stephen King.

Frase: O que eu fui você é, o que eu sou você será – dita pela figura paterna decadente de John Cusack enquanto ele tem alucinações provocadas dentro de um quarto amaldiçoado, lugar que se resume num parque de diversões dentro de três cômodos.

A frase, se formos analisar, é muito bonita e filosófica. Chega a ser até inspiradora se formos pensar num pai ou num avô muito íntegro nos dizendo-a.

Agora, imaginem ouvir isso de um travesti profeta! Medo.

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O Machista!

Publicado por RDS em Outubro 8, 2009

O Ricardão é o cara mais conhecido, principalmente entre a mulherada e os homens com um peso sobre a cabeça. Ricardão é doutor na vida.

O Ricardo, símbolo masculino maior, o cara que tem a “pegada” (e não falo aqui do tamanho do pé dele… se bem que, pelo sucesso, deve ser grande) é também um machista incorrigível.

Todas as suas atitudes se baseiam em ser macho, em ser O Macho, mas também machista. Não liga para relacionamentos sérios, destrói famílias, tudo o que é sensível e bonito é um pé no saco.

Foi num dia de reflexão que o Ricardão provou que as mulheres são contraditórias demais. Ele escutou uma de suas “amigas” (leia-se sexo rápido e garantido sem envolvimento) dizer que os homens só pensavam em mulheres.

Aquilo incomodou mas ele não conseguiu definir logo de cara. Certo dia, sentado num bar tomando cerveja, arrotando e olhando as mulheres desfilarem (porque elas não andam, se exibem, segundo ele), teve sua epifania: elas deviam ficar felizes pelo fato dos homens só pensarem nelas.

“Primeiro porque vivem pedindo atenção e quando têm reclamam”, pensava ele, “segundo que os homens são mais inteligentes, mais fortes, mais capazes, fizeram a história como um todo e etc. Se seres tão superiores pensam nelas… deviam se sentir felizes e agradecidas. Como são complicadas! Ah, se não fosse aquele corpo… estariam perdidas!”. E tomou mais um gole de cerveja para comemorar a nova filosofia. Ricardão é cada vez mais doutor!

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Melancia

Publicado por RDS em Setembro 24, 2009

“Hoje encontrei um garoto de maneira curiosa, estava comprando um sanduíche e ele trombou em mim. Apesar de ter me sujado toda e derrubado meu suco de melancia, meu preferido, ele me pagou outro lanche completo e me acompanhou na breve refeição. Conversamos pouco, mas trocamos telefones e não parei de pensar nele durante todo o dia, ele é engraçado, talvez me chame para sair”.

Marcos sorriu admirado enquanto lia as páginas escritas a lápis. Sabia que não era certo ler o diário de sua namorada, Patrícia, mas não se conteve quando o encontrara ali, aberto sobre a cama. Ele comprimia o canto da boca lendo as páginas surradas daquele livreto que acompanhava Patrícia há anos. Apesar de chamá-lo de diário, as páginas não eram marcadas todos os dias, algumas até, notara ele, nem data tinham.

O mix de canetas coloridas com trechos a lápis dava um ar de autoridade infantil à obra, como a sabedoria de uma adolescente evoluindo das canetas de tinta rosa com cheiro de morango para uma bic azul e apressada dos tempos modernos.

Fez silêncio por um instante e segurou a própria respiração a fim de conferir o barulho no cômodo ao lado do quarto onde estava. As gotas continuavam a bater contra o corpo da garota e o piso do banheiro. Patrícia se banhava.

Marcos aproveitou e pulou algumas folhas.

“Faz dois meses que ele me pediu em namoro e de lá pra cá nos vimos todos os finais de semana, saímos para passear no parque, andar de bicicleta, tomar suco. Falei pra ele como gosto de suco de melancia e ele sempre compra pra mim, tão fofo…”.

Marcos olhou para o lado, a porta do banheiro continuava imóvel e o barulho se repetia ali dentro. Prosseguiu.

“Hoje é nosso aniversário de oito meses de namoro, estou feliz que esteja tudo tão bem. Vamos sair esta noite. Só espero que ele não venha vestido com aquelas cores gritantes. Aquela camisa xadrez, azul e branca e aquela bermuda laranja me irritam. Pensei que era falta de opção mas quando vi o guarda roupa dele percebi que ele gosta daquilo. Mas eu gosto dele demais, isso é só um detalhe, a noite vai ser perfeita”.

Marcos se mexeu desconfortável na cama. Por coincidência, vestia um paletó preto e uma camisa azul royal com gravata amarela. Naquela noite seu irmão se casaria. Chacoalhou a cabeça para afastar algumas ideias e continuou a leitura na mesma página, o texto prosseguia após óbvia interrupção.

“A noite foi ótima, fomos ao cinema, jantamos juntos e ele me comprou bastante suco de melancia, como quando nos encontramos. O suco não estava lá dos melhores dessa vez, mas valeu a intenção. Fiquei constrangida dele ter usado sapato social com meia grossa e branca, apesar de ser de noite. Acho que, tirando a recepcionista do teatro que me levantou uma sobrancelha de maneira estranha, ninguém notou”.

O garoto levantou a barra da calça e percebeu a meia branca e grossa, mesmo estando de terno e sapato para o casamento, mas qual era o problema? Sentia-se confortável assim. Decidiu largar o diário e fazer uma surpresa para ela. Desceu rapidamente na cozinha e preparou um suco de melancia como ela gostava. Subiu e continuou sua leitura sabendo que Patrícia agora se maquiava no banheiro. Pulou mais algumas páginas enquanto pousava o copo de suco fresco sobre a cômoda.

“Já fizemos um ano e meio juntos, ele tinha esquecido a data, como fez em todos os aniversários desde que completamos o primeiro ano, mas, assim que lhe disse que dia era a gente saiu e ele me levou num bar gostoso, tinha música ao vivo e… suco de melancia. O local era bom mas a música era insuportável, principalmente porque o cantor só cantava olhando pra nossa cara a noite toda, sempre pra nossa mesa. Talvez fosse o amarelo forte que Marcos estava usando que tenha atraído a atenção do artista”.

Marcos corrias as páginas que não se referiam a ele e só parava nas de interesse.

“Suco de melancia! Maldita hora que eu disse que gostava disso”. lia ele agora. “Não que eu não saiba que ele quer me agradar, mas todo dia especial entre a gente termina em suco de melancia. Podia variar, me dar um chocolate de vez em quando, pelo menos naquelas férias em que estivemos na praia”.

O rapaz agora não entendia direito o que se passava, ela sempre se mostrava tão feliz com o suco. Quem sabe tivesse sido apenas um péssimo dia registrado no diário. Ela sempre dizia que o amava e ressaltava o quanto era atencioso com os detalhes do que ela gostava e etc. Um mau dia, só isso, e decidiu ignorar essa última parte. O barulho vindo do banheiro indicava que Patrícia sairia em breve, ele tinha pouco tempo, virou mais um bloco de páginas e achou o dia de ontem anotado. Leu agitado.

“Amanhã é uma data especial, o casamento do irmão de Marcos. Espero que seja legal, pelo menos a data festiva não é do meu relacionamento, acho que finalmente não terei melancia numa noite de festa com Marcos, da última vez eu até vomitei de tão enjoada que estou, mas disse que foi o peixe”.

Patrícia abriu a porta e viu Marcos sentado, absorto na cama, mas já com o diário fechado e afastado ao canto.

- Este suco é pra mim, amor? – perguntou ela.

- Ah… não, eu estava com sede, é meu – respondeu ele, e completou – amor, seu pai tem uma meia fina preta pra me emprestar?

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Outra vez…

Publicado por RDS em Setembro 23, 2009

Foto tirada de: http://katrina.com.sapo.pt/bracos.jpg

As sandálias que ela tanto queria tornaram-se uma lembrança distante. O cheiro daquele perfume concretizou a profecia antes do previsto. Antes mesmo de o frasco se abrir ela já tinha partido… talvez não.

Você estragou tudo, ela disse. Naquela noite, meu Deus, você não deveria! E se eu ainda te quisesse? E se eu estivesse apenas me testando? Talvez eu só quisesse saber o quanto eu te amava…

Acho que ela descobriu, afinal. Ela era forte o suficiente para continuar amando-o depois de todo aquele tempo. Era forte para aguentar seus momentos difíceis, mas não forte o suficiente para vê-lo com outra.

As pessoas não deveriam se testar se não têm certeza de que suportam tudo o que advém do afastamento.

Ela chorava a cada palavra, estava com raiva. Quis bater nele, mas sabia que era ela mesma aquela a quem ela mais gostaria de agredir. Tentando se apaixonar novamente pela mesma pessoa acabou por levantar um muro contra aquele que mais admirava.

A vida é simples e boa, ela vale à pena; um amigo lhe disse, anos depois, numa situação totalmente diferente. Sem querer, ela lembrou dele. Era ele quem mais dizia aquilo e antes dela ter escutado de qualquer outro. Quando estava para afastar as lembranças de sua cabeça, pois ela era uma mulher forte, que já tinha superado tudo, o rádio daquele pequeno pub começou a tocar Roberto Carlos. Outra vez, era a música.

Aquela música era tão antiga para sua geração que ela não daria a mínima atenção em outra ocasião mas… ele era antiquado, gostava dessas coisas velhas. Costumava dizer que as coisas antigas tinham um sentimento maior, vindas de um momento em que o mundo não tinha tanta pressa em viver. Ele não gostava dessa pressa.

Ela, menina, amava a correria da metrópole. Hoje, mesmo ainda jovem, já sente um cansaço estranho, e continua a correr. Mas não esta noite. Dessa vez ela vai se permitir parar para escutar o Roberto, sentar numa mesa sozinha, longe daquele tumulto de vozes dos colegas de trabalho e pedir para repetirem a música quase por toda a noite…

“Você foi o melhor dos meus planos e o maior dos enganos que eu pude fazer”. Agora entendia o porquê de amá-lo tanto. Não conseguiu fazer planos para ele, era fora do padrão, imprevisível. Tão agitado e tranquilo, mesclava dois mundos opostos em seus pensamentos e atitudes. Mas quando estava em seus braços, conhecia a felicidade. Por isso o ódio daquela noite, porque se distanciou do seu ninho mais confortável, aconchegante.

Esta noite ela só queria saber onde estão aqueles braços envolventes… melhor, os queria perto dela, “Outra vez”.

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Apague a luz

Publicado por RDS em Agosto 5, 2009

Era um homem comum, estatura mediana, cabelos já quase grisalhos, um emprego que o deixava sobreviver bem e uma mania que nunca o abandonara: só fazia sexo no escuro.

Diga-se de passagem essa não é uma mania que atrapalhe muito sua vida e muitas pessoas a tem. Entretanto, para um quarentão que acabara de se divorciar, isso ficava um pouco estranho. Tinha terminado o casamento não sabia nem bem o porquê, mas queria aproveitar um pouco a vida.

Hoje em dia não é difícil encontrar mulheres bem mais novas que queiram arrumar alguém com uma vida praticamente pronta, onde elas precisem retocar pouco. Uma perda lamentável que demonstra a verdadeira transformação da alma feminina atual, elas pararam de cuidar e construir. Já querem tudo pronto.

Antes as mulheres queriam seus homens mais frescos (no sentido de não tão maduros e não no sentido gay), ainda em construção a fim de poder aplicar-lhes as características que achassem essenciais e ter com eles uma vida sóbria e digna, erigida sobre os padrões delas. Hoje, a mídia e essa incessante lapidação das pessoas fazem o trabalho por elas e as deixam preguiçosas: elas querem os homens prontos, com casa, carro e um belo armário de roupas. Se já tiverem filhos, tanto quanto melhor, assim não precisam cuidar de bebês e deformar seus belos corpos. Os relacionamentos se transformaram numa casa pré-moldada. Bonita, sim, mas também frágil.

Não é difícil achar este tipo de mulher pelos bares e baladas e ele as achava. Algumas se precipitavam e, talvez pelo álcool, talvez pela pressa em garantir seu espaço na vida dele, já queriam consumar o casamento inexistente no banheiro do local mesmo.

Neste momento, sua mania de só fazer sexo com a luz apagada atrapalhava-o. Não conseguia, não se concentrava. Estava excitado, iam para o banheiro e, assim que tiravam as roupas ou baixavam parte delas, a ênfase do momento passava, chegava a ser triste, deprimente para um homem, uma situação dura… digo,  mole.

A brochada do quarentão lembrava uma criança com medo de defecar fora de casa. O pirralho se aperta e se retorce, mas quando chega ao banheiro da escola ou de qualquer padaria da rua e abaixa suas calças… apenas dor e suor, pois nada sai dali. Basta abaixar as calças para que a vontade passe, assim como a excitação do grisalho.

Tudo isso tinha motivo, era culpa da sociedade, da nossa civilidade. Esteve por tanto tempo vivendo entre os homens e mulheres vestidos que não conseguia mais vê-los de outra forma, precisava das roupas para se manter excitado e, na falta dessas, necessitava da escuridão que deixava-o apenas com sua imaginação.

Entre uma e outra… brochada, o homem foi parando de querer encontrar novas parceiras e se lembrou de sua antiga esposa e percebeu o quanto ela era compreensíva. Agora, deitado no sofá, tentava imaginar o corpo belo da ex-mulher e lembrava apenas de suas roupas. Notara que nunca soube realmente como era seu corpo nu, não tinha lembranças cor de pele, apenas amarelas, azuis, vermelhas, das calças, vestidos e tudo o mais ou então da escuridão em que faziam amor.

Lembrou duma frase de Balzac que dizia: Quando se diz homem, na civilização, se diz homem vestido! Assim, riu de sua própria miséria.

Na solidão da noite não havia mais nada a fazer a não ser aquilo. Simplesmente apagou a luz e foi se masturbar.

 

Crônica inspirada pelo texto de Vivian Prestes Wolff, da revista conjecturas, numa homenagem aos chinelos, dedos tortos e a velha gorda de vermelho de seu restaurante. Acesse: http://www.conjecturas.com.br/mundar/quem%20sabe.htm

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Silêncios que falam

Publicado por RDS em Julho 22, 2009

 

(Imagem tirada de: http://yogablog.zip.net/images/silencio.jpg)

Eu estava lendo um texto do Jabor (o Arnaldo) e me lembrei de algo do passado. Uma vez defini a intimidade com certas pessoas através do silêncio que podia estabelecer com elas: se você consegue ficar em silêncio ao lado de uma pessoa sem se sentir constrangido, então você alcançou uma intimidade com ela. Ou, ao menos, conseguiu se identificar com ela de alguma forma.

Claro que não falo aqui dos silêncios abstratos dos ônibus ou qualquer coisa desse tipo, São Paulo tem a mania de fazer barulho, é uma cidade que grita tanto a ponto de nos deixar em silêncio. Mas quando estamos com alguém novo em nossas vidas ou ampliando o relacionamento com pessoas conhecidas, mas não íntimas, qualquer tipo de silêncio é um pouco constrangedor. Quando você ultrapassa esse limite, sente-se a vontade, confortável.

Ser íntimo de alguém é deixar que o silêncio fale um pouco por você e isso é algo necessário a se fazer, pois nem mesmo esse grito da cidade apressada pode abafar o silêncio da comunicação. Ficar sem dizer nada diz muito.

Jabor falou que não teve mais silêncios tristes com seu pai e isso mexeu comigo. Pensei o que poderia ser este silêncio triste, cheguei a conclusão que é um silêncio muito mais duro do que aquele que se tem entre pessoas que estão juntas num velório, por exemplo. Aquele silêncio é triste, mas, ao mesmo tempo, de cumplicidade, um silêncio amigo.

O silêncio triste é aquele no qual duas pessoas íntimas já não têm mais nada a dizer uma para a outra, não por alcançarem uma sintonia perfeita, muito menos por se entenderem pelo silêncio, mas sim porque algo morreu na voz e o constrangimento existe de qualquer forma, seja na voz muda ou na fala. Perde-se o silêncio do segredo e só resta o silêncio constrangido quando duas pessoas tornam-se novamente estranhas uma para outra.

Pior do que não conhecer alguém é não reconhecer mais aquela pessoa que esteve com você por tantos anos. Neste momento, até o próprio silêncio se cala e deixa de contar seus segredos.

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Enquanto isso

Publicado por RDS em Junho 30, 2009

Ele a viu de longe, sentada numa daquelas cadeiras brancas e impessoais duma sala um tanto fria. Quis se aproximar mas teve receio. Depois de tudo, não saberia como ela reagiria. Mesmo assim caminhou até ela.

Parou e se encostou na mesa ficando de frente para ela. Disse oi e ela respondeu, também num tom tímido, os dois estavam constrangidos.
A sensação era mais pela amizade, praticamente arruinada por uma besteira, que pela noite terrível em si.

Não sabiam o que dizer um para o outro, os olhares estavam fugidios. A sensação de frieza da sala parecia tomá-los pela mão. Entretanto, só aquela tentativa de conversa já indicava que um pouco daquele carinho sobrevivera.

Aguardam ainda hoje que o tempo apague certas cicatrizes tão profundas…
Enquanto isso, ficam nostalgicos lembrando da voz, olhar, cuidado e todos momentos juntos.

A vida é uma saudade constante…

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Ordem

Publicado por RDS em Junho 26, 2009

Estou na minha semana do azar e o Michael Jackson morreu. Isso me faz contestar muitas coisas. Pra aumentar a bizarrice do momento, passou the happening hoje (O fim dos tempos, em português, se não me engano).

Sou um cara profundo, e não me refiro aqui à profundidade do meu umbigo, mas sim ao fato de eu ser uma pessoa que gosta de refletir. Estava eu analisando a efemeridade da vida e de como as coisas vão realmente estranhas no mundo quando recebi uma ligação de um amigo meu dizendo: “cadê o menino Jesus?”

Depois ele desligou o telefone e eu fiquei preocupado, pois a frase veio de um de meus amigos menos devotos do mundo (na verdade, quase nenhum deles é, mas enfim).

Estava prestes a ligar novamente e verificar o que havia acontecido quando recebi uma mensagem de texto que me fez entender tudo. A mensagem chegara atrasada, e por isso tive problemas. Nela dizia:

“Sabe o que o Michael Jackson disse quando chegou no céu?”

E aí toca meu telefone e alguém diz: “cadê o menino Jesus?”.

Muito bom… pelo visto a última criancinha estava estragada. Enfartou… tadinho, tinha o coração de criança… e a alma de várias.

Esse evento com a piada de meu amigo me mostrou como tudo tem uma ordem e como ela deve ser seguida para que as coisas deem certo. Por exemplo, se o Michael Jackson tivesse transado com crianças na época dos Jackson 5, ele não seria doente, apenas um garoto precoce.

Bem como, se nascesse branco e ficasse negro, seria apenas consequência do aquecimento global.

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Sorte II

Publicado por RDS em Junho 26, 2009

Direitos do consumidor

Direitos do consumidor

(Essa foto acima foi tirada num sítio, com minha família. Só pra provar minha sorte, olhem pro que está escrito na embalagem e no que mostra lá dentro. Isso é antes de abrir o pacote, juro!)

 

Essa coisa de semana do azar é sempre curiosa porque eu nunca sei o que vai rolar e a curiosidade é aguçada, bem como o medo.

No ano passado, na minha semana do azar, várias coisas aconteceram. Lá na Austrália tem um tipo de bilhete de ônibus que te dá direito a 10 viagens, cada passada na catraca é impressa no bilhete e quando acaba você compra outro. Não preciso ressaltar que comprar o bilhete sai muito mais em conta que pagar na hora em dinheiro.

Pois minha semana começou lá quando eu sai atrasado pro trabalho. Para quem não sabe, é bem desconfortável correr três quarteirões de bota de segurança com bico de ferro. Eu saí atrasado porque meu celular resolveu não tocar e eu fiquei cerca de cinco minutos tentanto abri-lo, pois ele era bem pequeno e eu dormi em cima dos braços. É tipo tentar colocar uma linha na agulha com luvas de boxe, isso, claro, logo depois de acordar, quando estamos em nossa melhor forma mental. Tipo um zumbi imitando uma lesma.

Entrei no ônibus (que peguei por sorte, pois, se você perde o ônibus lá, só tem outro, tipo, meia hora depois) e passei o bilhete. A catraca gritou e disse que o bilhete era falso ou coisa assim. Sem tempo pra trocar ou comprar outro o motorista me deixou ir sem pagar mesmo, como bom imigrante brasileiro que sou.

Depois do trabalho, voltei pra casa e fui reclamar com a loja que tinha me vendido o bilhete. Ele disse que não tinha como trocar pra mim e que eu tinha de ir na central de transportes. Como não havia tem hábil pra isso eu resolvi perder meus 20 dólares e comprar outro, mas ele não tinha. Resumo: rodei mais uma meia hora atrás do bilhete, sem contar a grana, vergonha, ainda tinha o cansaço.

Me aconteceram mais algumas coisas no apê onde eu morava, mas confesso que outras coisas apagaram essa parte da memória. Meu celular resolveu apagar uns 15 dólares de crédito que eu tinha, mesmo eu ligando a cobrar. Meu dinheiro na conta atrasou pra cair e o pior: os cookies.

Onde eu trampava tinha uma daquelas máquinas de refri e de bolachas e etc. Lá vendia um cookie bem caro, porém gigante. Quase cinco mangos, mas parecia valer a pena. Bem, o fato é que tentei comprar o mesmo cookie 3 vezes e a máquina travou em todas.

Vocês podem achar que eu sou um idiota completo por tentar comprar uma coisa na mesma máquina com problema. Entretanto, com as outras pessoas ela funcionava bem. Eu acabava de perder a grana e vinha um grego e comprava o que queria. Pra vocês terem noção, quando desisti de pegar o cookie pela segunda vez, uma japonesa comprou-o e cairam 2. Eu tentei, então, comprá-lo pela terceira vez… sem sucesso.

Quem se divertia era o iraniano que trabalhava comigo, o Farhad. Essas semanas são sempre assim, vêm de repente, me estragam a vida, fazem todos à minha volta rirem e vai embora como veio. Essa semana entrei de novo nesses períodos e já me aconteceu muita coisa (ver post abaixo). E quando eu acho que as coisas não podem ficar piores, o Michael Jackson morre!

Se bem… se bem que isso pode indicar que as coisas estão melhorando.

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