E nessa sociedade que passa muito tempo em frente a tela, meus dedos começam a ser mais expressivos que minha própria face… e meus textos, por vezes, mais curtos
(e sem pontuação final – uma eterna lacuna aberta nas ideias que não se fecham)
Publicado por RDS em abril 27, 2011
E nessa sociedade que passa muito tempo em frente a tela, meus dedos começam a ser mais expressivos que minha própria face… e meus textos, por vezes, mais curtos
(e sem pontuação final – uma eterna lacuna aberta nas ideias que não se fecham)
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Publicado por RDS em abril 26, 2011
Texto escrito em 20/10/2010
E como fica a ficção virtual? É… você! Você mesmo que ia passar distraído, mas resolveu parar para ler este texto, me diga: e como fica a ficção virtual? Aposto que não fui o único a perceber.
Chamem-me do que quiserem, velho, careta, reacionário, pré-conceituoso, romântico ou prosaico, até de louco, mas as pessoas não se podem doar dessa forma para este estilo de vida que surgiu há alguns anos e só cresce. Na verdade mesmo tem vários aspectos, mas trabalho aqui com dois principais.
Bate-papo instantâneo
Quem é que não gosta de conversar em “tempo real”, mandar carinhas (carinhosamente chamadas de emoticons), fazer piadas, falar com 15 usuários ao mesmo tempo, colar coisas de uma caixa para a outra, salvar conversas que nunca voltam a abrir para ler, ficar mudando as frases de apresentação a cada 10 minutos e escolher fonte e cor de letra que combinem com você? Isso sem contar aquelas GIFs irritantes que aparecem quando você quer escrever uma palavra, mas existem três letras no meio dela que formam outra palavra e o programa automaticamente altera aquilo para alguma coisa piscante e nervosa.
Pois bem, não minto, fui fanático, utilizei por muito tempo e rasguei madrugadas adentro “teclando” nesse tipo de programa. Atualmente reduzi o uso porque outras tecnologias o estão consumindo, sem contar algumas buscas pessoais que os seres humanos estúpidos acham importante iniciar após algum período de existência. Enfim, digo tudo isso porque falo com razão, e mais, falo não apenas por conceitos imaginados, ideias refletidas, mas com o bom e velho conhecimento empírico (se bem que nem todos os sentidos são usados nesse meio, mas…).
Conheci muitas pessoas na internet, e isso é estranho de dizer.
Conheci os que antes eram desconhecidos, conheci melhor alguns colegas e conheci alguns conhecidos, que assumem posturas diferentes dentro e fora da rede.
Pois que a coisa é o seguinte. Raramente relacionamentos virtuais dão certo ou são verdadeiros, pelo menos se as duas pessoas da ponta não forem doentes. Se forem sãs, ou se uma for, então o quadro está completo. Como confiar num palco virtual que necessita de emoticons para tentar expressar sentimentos humanos? Se nem uma união de palavras, olhares e expressões corpóreas complexas conseguem uma comunicação adequada num relacionamento profundo (amor ou amizade), como esperar mergulhar no outro virtualmente?
Já conheci pessoas na vida real, por assim dizer, que se aconselhavam e tomavam atitudes que mudavam o rumo de suas vidas apenas com base nos dizeres de alguém que nunca viram antes, quer dizer, nunca se viram frente a frente, porque fotinhos e câmeras estão aí para isso (para que pessoas desconhecidas, e que você nunca vai conhecer, te deem uma sensação de proximidade).
Entendam que sou completamente a favor da tecnologia, utilizo Twitter, Facebook, Gtalk, Orkut. Não tenho problemas quanto a isso. Estas ferramentas são mais que úteis e servem para que as pessoas mantenham contato ou mesmo se aproximem, compartilhem pequenos ou grandes momentos e etc. Mas devem ser um reforço e não uma finalidade.
Complementariedade, essa é a ideia de tais mídias, ou deveria ser. Mas as pessoas abusam e caem numa irrealidade, numa espécie de limbo que não fica nem no real e nem no potencial do virtual. Os laços reais não são reforçados e os virtuais não são apenas meios de se atingir o físico, o concreto e então se perdem.
A origem da palavra virtual, segundo Pierre Lévy, remete exatamente a ideia de potencialidade, força, capacidade que algo tem de se concretizar. Se o virtual é apenas pelo virtual, ou seja, se é sempre uma possibilidade de realização que nunca se realiza, ele perde o sentido, se perde no tempo e fica impossível atribuir um “tempo real” a isso.
Quando pensamos nas pessoas que modificam suas vidas e as baseiam nas palavras de um estranho que nunca conheceram, e provavelmente nunca conhecerão verdadeiramente, fisicamente e não compartilhará com ele experiências reais, o que mais pensar que não uma ficção virtual?
Sim, porque se uma das pontas altera a vida da outra apenas por palavras… bem, isso me parece bastante com o ato de se escrever um livro de ficção.
As pessoas “ficcionam” suas vidas, virtualizam suas relações, transformam-nas em potências que não se realizam, alteram o real pelo irreal e tornam suas vidas apenas um livro que se escreve em caixas de bate-papo. Para quem lê é divertidíssimo, um livro no qual você pode dar “pitacos” na história e as coisas ainda te surpreendem. A ficção virtual, melhor que qualquer e-book.
A “segunda vida”
Quem não gosta de um jogo onde você pode conversar com as pessoas, passear por locais, assistir shows, namorar, fazer compras, mudar o cabelo e as roupas e, mais que isso, você pode usar até mesmo dinheiro real para comprar coisas do jogo, não genial? Querem uma dica? Vocês podem fazer tudo isso SEM ESTAREM NA DROGA DO JOGO! Parece difícil de entender?
Eu entendo jogo, eu adoro jogos, são divertidos, criam um mundo fictício com regras próprias, você pode assumir um papel diferente da sua vida real, une pessoas, elege adversários, faz o tempo passar, surgem micro jogos dentro dos jogos etc.
Quando falo de jogo aqui, vou desde um futebol até banco imobiliário, passando por Playstation 3, X-Box 360 e pôquer.
Eu entendo quem entra nesses jogos para criar uma vida diferenciada e “tocar o terror” ali dentro ou fazer algo muito diferente de suas próprias vidas. “Humankind cannot bear very much reality”, T. S. Eliot estava certo. Eu sei que os seres humanos não podem conviver, não podem lidar com muita realidade e precisam de suas fugas, mas qual é o sentido de recriar a sua vida, tal como é, dentro de uma plataforma virtual, e jogá-la?
E digo mais, se o jogo é uma fuga da realidade, e os virtuais têm um potencial enorme, exatamente pela interação, por que, então, deixar que aquilo ultrapasse barreiras e influencie sua vida?
Se a coisa é boa, eu compreendo, você traz a alegria e o descarrego do jogo (e quando falo em descarrego não me refiro à reunião dos 780 mil pastores que se reúnem para roubar para salvar pessoas que se amontoam dentro de galpões para dar dinheiro para uma pomba branca dentro de um coração) para seu cotidiano e vive mais relaxado. Mas criar paranóias e loucuras dentro disso é bizarro.
Há pouco tempo (coloque isso numa base de cerca de cinco anos) vi duas notícias estranhíssimas. Numa delas, um casal tirava o final de semana para se relacionarem… que bonito! O problema era que eles não ficavam juntos como nós estamos acostumados a imaginar. Eles se encontravam apenas no Second Life e se relacionavam ali. Sabe de onde eles acessavam? Cada um de um quarto, com seu computador, na mesma casa. NA MESMA CASA!!!
Eu que sou burro ou a coisa não está indo muito bem para esse casal?
Outro casal chegou a se divorciar por conta de uma traição dentro do Second Life… Preciso comentar ou você já cansou das letras em caixa alta?
As pessoas estão se transformando em algo menos real, menos físico, menos concreto. O ser humano é irredutível e isso é bom e ruim. Se você pode ser o mais desgraçado do mundo e continuar sendo humano (independente dos adjetivos que te derem), também pode querer ser algo a mais e não conseguir sair desse estágio, mas você pode se encher de algo bom, evoluir positivamente… mas também pode esvaziar, tornar-se apenas casca. Uma propaganda, um anúncio, você pode se tornar apenas uma ideia de humano quando se potencializa sem voltar a se concretizar, quando se virtualiza demais: cuidado com a ficção virtual.
Só para esclarecer sua curiosidade bizarra (e eu sei que você a tem), o casal se separou depois que ela o “pegou” fazendo sexo com uma prostituta no jogo (vomito agora ou depois, na reputação desses dois?). Além do mais, eles tinham se conhecido no próprio Second Life e depois se casado, e casaram também no jogo (blargh! Agora sim regurgitei meu intestino pela boca).
Enfim, a ficção virtual passa de insulto à inteligência para ameaça de futuro. Eu gostei muito do filme Matrix, mas lembre-se que até mesmo ali o cara mudava de vida dentro e fora do “jogo” e, mesmo que muito daquilo fosse mentira, ele se relacionava de verdade com as pessoas fora dali, mesmo que fosse no “deserto do real”. Hoje, as pessoas se relacionam numa rede cheia, porém supérflua e vazia… é o deserto do virtual.
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Publicado por RDS em abril 25, 2011
A tristeza de alguém que se mete a escritor (no meio que for) é saber que ninguém nunca conhecerá sua obra por inteiro… apenas Deus, mas aí não vale, porque Ele é onisciente. E já sabia…
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Publicado por RDS em abril 25, 2011
No corredor do escritório, saindo do banheiro…
“Nossa, M, que sabonete líquido é esse que vocês estão colocando agora no banheiro? Tem uma cor forte, mas o cheiro de fruta é ótimo”.
“Hum… é um sabonete novo que o chefe mandou comprar… (resposta lacônica da faxineira que gosta de “papear” = perigo)”.
“Não gostei da sua cara, que sabonete é esse, M?”
“Não é sabonete não… é Ki-Suco”.
“Como assim, Ki-Suco?”
“É que o chefe escutava a mulherada comentando de como o sabonete era cheiroso e percebeu que ninguém liga se ele limpa mesmo, só se cheira bem… o ‘pózinho’ é mais barato e tem cheiro forte, o pessoal ta adorando!”.
Nem perguntei sobre o álcool em gel para não pegar conjuntivite psicossomática…
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Publicado por RDS em abril 20, 2011
*Pautas Improváveis – textos de uma ficção social
As pessoas sabem que algo define o humor que terão ao longo do dia, mas ninguém jamais precisou exatamente o quê, até agora. Freud já se arriscou pelos sonhos, os esotéricos pelo horóscopo, mas uma pesquisa recente relaciona tal fator com algo muito mais próximo do mundo e menos astral: o ato de escovar os dentes pela manhã.
Cientistas canadenses (sendo um lugar frio e onde a maioria das coisas funciona, o Canadá é o único laboratório onde se pesquisa por tédio e não por melhorias) comprovaram que a maneira como se escova os dentes pela manhã determina como será seu humor durante o todo dia.
De acordo com o estudo, não só a boa escovação, mas também a quantia certa e a posição do creme dental na escova fazem toda a diferença.
“Uma porção adequada e bem centralizada de creme dental, e com boa sequência de movimentos garantem um dia de alegria e sensação de limpeza”, afirmam os cientistas.
“Entretanto”, diz outro pesquisador do grupo, “se a pasta utilizada for pouca e só espumar um lado da boca ou exagerada a ponto de interromper a respiração do sujeito, o dia está estragado!”.
A pior situação, porém, é detectada quando parecemos ter acertado perfeitamente na quantia do creme e ele, por algum motivo, cai na pia no trajeto até a boca.
A conclusão do estudo é interessante: as pessoas que chegam ao trabalho de mais bom humor, no entanto, são aquelas que não escovam os dentes pela manhã (curiosamente as que parecem mais gostar de falar perto dos outros).
“A técnica não é aconselhável”, constatam os pesquisadores, “já que, na maioria dos casos, tais pessoas encerram o expediente num péssimo humor e irritadiços; o que indica críticas dos colegas pelo consequente mau hálito ou a sensação de sujeita na boca” (aquela sensação de que seus dentes parecem aveludados).
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Publicado por RDS em abril 19, 2011
Texto de maio de 2010 que estava guardado…
Dizem que a inveja mata, mas não sei quão abrangente esse efeito de maldição pode ser. Se você inveja teu amigo, parente, vizinho ou sei lá o quê, por alguma coisa material, por exemplo, isso deve te trazer algum mal, especialmente se você não busca alcançar uma situação semelhante para si, mas deseja exatamente aquilo que é da outra pessoa. Uma espécie de cobiça infundada.
No entanto, já ouvi falar da inveja boa. Quem não ouviu?
A princípio sempre me pareceu que a inveja boa era uma forma de um invejoso se justificar perante a sociedade, para minimizar os danos de sua inveja. Ora, se uma pessoa é realmente invejosa, isso deve afastar os outros dela, não é necessário aumentar esse problema divulgando sua inveja. Mas, se o sentimento é tão forte que não te permite calar, diga que é, pelo menos, inveja boa.
Este tipo de cobiça se caracteriza pelo desejo de ter o que a outra pessoa possui. No entanto, o desejo é por algo similar, ou seja, não é necessário que o outro perca algo para que você ganhe, essa é a ideia da inveja original e, diga-se de passagem, muito mais divertida e mote de novelas mexicanas e diversas histórias hollywoodianas.
Mesmo não sabendo até que ponto esse sentimento pode ser bom nem a sua abrangência em causar danos, prefiro dizer que outro dia senti inveja. Sim, confesso, e foi forte.
Senti inveja de um lado animal, da beleza pura de ser liderado pelos seus instintos e sentimentos. Quem tem fome come, quem tem sede bebe e quem quer sexo, faz. Nada além disso (quem sabe um bate-papo livre de compromissos, talvez, como o vagar ocioso de uma matilha de cães, por exemplo).
Nossa sociedade costuma inverter as coisas e adentramos numa era diferenciada. Hoje em dia, quem tem fome come, quem tem sede bebe e quem quer fazer sexo é um sociopata pervertido e, provavelmente, pedófilo.
Não estou defendendo a pedofilia, muito pelo contrário. Mas minha inveja se deveu à nossa pré-história. Que delícia deveria ser aquela época.
É uma afirmação esquisita, eu concordo, mas dar vazão a esse lado animal devia ser ótimo. Tudo bem, preciso confessar que a divagação me ocorreu por conta das responsabilidades que a sociedade nos impõe. Estudar, trabalhar, fazer cursos e atualizações, cuidar do corpo, pensar nas vitaminas e valores calóricos de cada refeição… esquece tudo isso! O problema todo, na verdade, começou porque tocaram no assunto casamento comigo.
Que tipo de homem não pensa nisso de milhares de formas diferentes antes de aceitar o normal, a prática imposta, ou comumente aceita pela sociedade como um todo.
Você precisa achar um lar, abastecê-lo, cuidar de sua esposa, seu cão (tem que ser um cão, pois você o acaricia e, se ele estiver de saco cheio vai deitar em outro canto ou dorme – já os gatos se irritam facilmente, adoram um afago e de repente te arranham a cara sem motivo), futuros filhos, pagar as contas, brigar, fazer as pazes, dormir juntos, segurar peido, tentar não arrotar depois da janta, não cortar as unhas na cama, jogar fora seu material pornô acumulado por anos a fio, almoçar na mãe dela de domingo, reparar se ela engordou ou não, mesmo que isso seja totalmente dispensável para você e etc.
Sei que tudo tem sua parte boa, mas não era mais legal quando você batia nela com um tacape, arrastava pelos cabelos até uma caverna e trazia um bicho morto pra ela assar enquanto você tirava um cochilo? O que aconteceu com todo o nosso machismo, grosseria e instinto? A evolução é um saco.
Acho que a inveja não mata, afinal de contas.
Eu invejo os homens das cavernas em relação ao casamento. Ao invés de aliança, festa e pompa, bastava uma madeira e a virilidade.
Mas sei também que as mulheres não eram tão cuidadosas, por assim dizer, (sem banhos quentes e regulares, cremes, perfumes, ótima lingerie) por isso é uma inveja boa, que quer a situação e não a mulher dele em si. Pensando bem, ainda prefiro me afogar na pele macia e nos cabelos cheirosos de minha garota, mesmo sem poder arrotar depois da janta.
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Publicado por RDS em abril 13, 2011
Texto de 14 de janeiro de 2011
Sabe do quê eu gosto? Da sensação, do som… das folhas de um livro bem grande passando por entre os dedos. Não quero lê-lo, quero apenas folhear. Às vezes rapidamente. Quem sabe de maneira irritantemente lenta para quem me visse. Olhar tudo e não atentar a nada. Não absorver uma palavra sequer. Pelo simples motivo de estar absorvendo o mundo através do toque das páginas, do barulho da folha sendo virada e do som, do cheiro, do exalar quase divino que é, simplesmente, minha pele deslizando sobre o papel. Um fascínio sem explicação, um sorver da poesia não escrita. Não ler, apenas sentir. Beber em goles pela mão e não pelos olhos, e deixar a boca entreaberta apenas para captar o pouco de ar necessário para encher os pulmões e mantê-lo vivo quando, na verdade, o que te sustenta é a sublimação mágica de se evaporar e se condensar novamente a cada instante sentido. Como gotículas formadas em uma tampa de panela, meus pensamentos se multiplicam, minhas explicações se esvaem e quase congelo o momento… quebrado apenas pelo tiquetaquear de um relógio estaca que bate insistentemente contra meu tempo, meu momento.
Alguns livros eu não quero ler.
Não quero porque eles são profundos e perfeitos em minha mente apenas por ter visto a primeira letra na capa, de relance. O dourado em alto relevo me é suficiente. Ler seria uma invasão, uma heresia. Profanar o solo sagrado de meu cérebro e coração com os pés, por vezes imundos, de meus olhos. Sim, ler seria destruir o sentimento perfeito criado pela imaginação de meu conglomerado de neurônios regidos pelos batimentos de um coração mais sábio que a cabeça e de uma mente regida pela emoção. Eu sou o que sinto e, se meus olhos se deterem onde não devem, podem romper este lago de fino gelo de perfeição que existe entre aquilo que está em minhas mãos, pronto, e a ideia daquilo que está em minhas mãos, sempre em construção, pois cada segundo traz uma nova exasperação, um arroubo sem sentido que explica minha vida e dá forma à minha existência, em movimento. Existir por não saber explicar e explicar a existência apenas pelas coisas indizíveis.
Toda obra acabada traz em si uma ideia que já foi perfeita, se não na mente do autor, pelo menos na mente de um leitor que não leu e, ao ler, rompe barreiras, destrói mundos. É necessário coragem para desfazer, na leitura, uma obra que era completa e bela quando se tomou conhecimento dela.
É o mesmo processo de criação. Escrever é simplesmente estragar aquilo que é maravilhoso quando está dentro de nós, sem forma, vagando.
Escrever é limitar, é colocar margens e pontos finais naquilo que deveria caminhar livremente. Mas não podemos ficar sem fazê-lo, pelo simples motivo de que precisamos dar vazão a isso. Dar a conhecer, aos outros, aquilo que nem nós mesmos digerimos. Um autor, um narrador, um contador de histórias simplesmente entrega nas mãos de outros aquilo que ele mesmo não decifrou.
A culpa é de Deus. Feitos à sua imagem e semelhança, não conseguimos guardar para nós as coisas que nos rodeiam, e toda folha em branca é uma pressão. Existe uma tensão insuportável no papel vazio, no lápis não utilizado e nas teclas não batidas. Todo terreno vazio é um convite, toda folha um desafio, uma sala sem nada é uma sala a ser mobiliada. Deus é criador e nós também queremos criar, compartilhar, mesmo que não saibamos dar a forma correta aos nossos impulsos. Aliás, é a forma que nos sufoca com um conteúdo que não é mais do que deveria, mas que é incabível em qualquer lugar.
Escritores não têm vida. Eles abandonam a própria vida, decidem viver sozinhos, dentro de si mesmos, procurando suas histórias e pensamentos que façam sentido. Perseguem, ficam paranóicos e, no fim… bem, nem sei se há um fim.
A miséria de não ter uma vida só é compensada, talvez, pela capacidade de viver diversas vidas em uma só, ou melhor, ao mesmo tempo. Alguns vivem uma vida após a outra, outros vivem diversas ao mesmo tempo – muitas pessoas confusas compartilhando um não-espaço de uma não-existência em um tempo que não passa, mas que também não volta. Um eterno passado de lembranças futuras que não ocorreram. As leis da física abrem exceção para um escritor que não tem vida, mas tem várias.
Mais ou menos como os atores… não, não os atores. Eles vivem diversas vidas mas, quando encerram um papel, uma vida, uma pessoa, têm a oportunidade de serem eles mesmos ou, ao menos, escolherem quem serão. Um ator termina a peça com a sensação de missão cumprida, de ponto final, quem sabe uma satisfação tênue que perdura por alguns minutos.
Não um escritor.
Este se vê preso a um ciclo constante de procurar e reprocurar a cada instante uma forma de fazer a obra completa… e as incompletas, deixadas nas prateleiras de uma livraria ou de um velho sebo, perduram machucando mentes e corações, fazendo rir ou chorar às custas de uma vida, de diversas vidas, dentro daquele que não contém nem ele mesmo.
Só perto da morte ele encontra sua conclusão, ou melhor, mantém aberta a frase que deveria ser a última, pois não teve tempo de colocar um ponto final. E aquela que deveria ser a palavra de extinção e fechamento, torna-se a abertura para um novo e qualquer coitado que não consegue fugir ao destino e inicia seu trabalho de onde outro não parou.
Aliás, escritores não têm trabalho, têm apenas uma ocupação que os distraia de si mesmos enquanto buscam um meio de se alimentar e sobreviver para perdurar numa amargura gostosa.
Escritores são faxineiros, lixeiros, limpam pratos em restaurantes apenas para aliviar a tensão existente entre o seu fazer cotidiano e as folhas encontradas em branco que fazem perguntas incômodas.
Eu fui um dos que decidi ser solitário e seguir esse caminho, perdido entre emoções e momentos insuficientes, pois nem mesmo do choro e da morte nós acreditamos ter tido o bastante.
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Publicado por RDS em abril 12, 2011
Outro dia li uma frase dessas de efeito que, traduzida educadamente, sugeria a seguinte questão: Sejamos como os cães, aquilo que não pudermos comer ou transar com, basta mijarmos em cima.
À primeira vista é uma piada, depois talvez se torne uma grosseria, mas, por fim, me pareceu um conselho, mas um desses inúteis. Não por falta de sentido, mas para que pedir para fazermos algo que já fazemos a todo o momento?
Não estou me referindo, por exemplo a pessoas com problemas de incontinência urinária e tal (nem mesmo aqueles com Alzheimer – que, aliás, tenho uma teoria a respeito que explica o porquê da doença, mas que fica para outro texto).
Um cão reage (simplificando bastante) dessas três formas descritas, normalmente, porque não entende algo, não sabe quem ou o quê é, e nem para que serve, se servir para algo.
Caso não seja para se procriar (termo que desconfio que os cães entendam) nem se alimentar, só resta uma alternativa: mijar em cima. E isso por um motivo muito simples, não dá para conviver com a dúvida, então eu atribuo um significado àquilo, encaixo num universo simbólico que entendo e onde a "coisa" possa fazer um sentido. Assim, mesmo equivocado ou simplista, pelo menos não fica a "ameaça" da dúvida.
Um cão entende muitas coisas, inclusive jogos, mas as coisas têm de ganhar um sentido na cabeça deles. Caso não exista nem um que eles encontrem… bem, o mijo deles atribui algum significado.
Nesse ponto eu pergunto: não é isso o que nós fazemos o tempo todo?
O que não entendemos, jogamos numa caixa simbólica mais generalizada e etiquetamos como parte do que, agora, conhecemos.
Pessoas, sentimentos, situações e mesmo os significados de significados. Na maioria do tempo estereotipamos, olhamos tudo de relance e aproveitamos essa pressa infundada de nossos dias para justificar nossa mediocridade em aprender significados (e uso medíocre aqui em seu sentido inicial, de médio, visto, porém, que a média humana atualmente está bem baixa)…
E então? Entendeu? Vai reler o texto e procurar mais a respeito? Ou simplesmente "mijar" em cima?
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Publicado por RDS em abril 8, 2011
Rabisquei este texto na parte de trás da folha de um outro que estava lendo. Ele deve ser da última semana de março, mas acho que vale reproduzir.
Chamam nossa era de Pós-moderna, mas algo permanece em nós da era anterior (já que tanto gostam de classificar, o Modernismo), ou melhor, uma coisa levou à outra. Não foi (ou é) para “salvar” o planeta que nossas ideias (e, na verdade, poucas ações) se tornaram sustentáveis. Foi para salvar a nossa psique, o espírito de nosso tempo, se ele existir.
A constante destruição e construção, de espaços físicos e conceitos (como disse Marshall Berman, citando Marx, tudo o que é sólido desmancha no ar), nos levou a uma angústia da qual precisávamos achar uma saída.
Como é que tudo pode mudar, manter essa dinâmica louca – que parece não parar depois de iniciada – e, ao mesmo tempo, permanecer, manter algo do que já conhecemos para que haja uma chama, ínfima que seja, de reconhecimento entre o hoje e o amanhã? Como fazer do caos uma reconstrução mapeada, cognoscível frente nossa vida e entorno – físico e de valores – que se alteram a cada segundo?
A própria Revolução Francesa matou seus revolucionários em sua continuidade… eles ficaram ultrapassados rápido demais!
É por isso que conceitos como reutilizar, reaproveitar e reciclar (os três “Rs”) passaram a fazer parte de nossa pauta e, mais que isso, passaram a ser ensinados quase como um mantra nas escolas. Há poucos anos não havia (e creio que a tendência para a criação dos micro-ecologistas tenha piorado) outro assunto tão discutido nas aulas escolares como meio-ambiente, água, sustentabilidade, etc.
Depois, tais conceitos, hoje “primitivos”, dos três Rs deram lugar a uma ideia dominante e que parece ter achado no som de uma palavra sua função de existir: sustentabilidade.
A ideia do sustentável e seu famoso tripé… e o sujeito, precisavam integrar isso nos conceitos. Como falar do mundo, das transformações que devem ocorrer nele sem falar do sujeito, dos que operam tudo isso? Ou melhor, como falar do mundo sem falar daqueles que se acham os principais (e às vezes os únicos) transformadores desse espaço? Se assim fosse feito, esse conceito se perderia, não teria motivos para ser aceito.
Entretanto, mesmo com a bola da vez, o planeta, e com o sujeito, nada disso faria sentido sem o lucro. Se tudo seguir o padrão dos três Rs, a economia despenca. Não faz bem ser bom intelectual e péssimo administrador, várias figuras históricas já demonstraram isso.
O Pós-moderno me parece mais uma recuperação da Modernidade do que uma sucessão de épocas, mas com certeza não é uma superação.
A Era das Luzes foi forte demais e, ao invés de ajudar a enxergar, cegou. Os valores pessoais, nossa razão instrumental e voltada muito para a técnica, e pouco para a crítica, etc., mesmo nossas figuras de destaque. Tudo mostra o quanto somos contraditórios.
Não sou moralista, mas criamos serem andrógenos em pensamentos… e cada vez mais em corpo. Talvez nem andrógenos sejamos mais, pois ao invés de conter o masculino e o feminino, por assim dizer, nos esvaziamos de ambos e criamos uma terceira categoria: os apáticos.
Tentamos dar significado a símbolos que estavam, já, no lugar de outros e criamos um ciclo infindável de substituição no qual o significado primeiro (se é que há ou houve) se perdeu, como na Modernidade. Mas não mudamos o conceito em si, e sim sua representação, o que distorce a ideia sem dizer qual foi o ponto de partida e, se um símbolo ou signo leva a outro e não alcança o que se pretende no real, ou na realidade, mantemos, sempre, a definição medieval do signo – algo que está no lugar do que falta, do ausente.
Entretanto, se não se sabe a qual representação ou conceito o símbolo se refere, ele se esvazia (ou re-significa sem conexão direta ou correspondência) ou se encerra em si, se auto-representando enquanto nada aparece para suprir essa falta. Estando no lugar do ausente e representando a si mesmo o símbolo passa a representar o próprio vazio, a própria falta de sentido. E ele continua se copiando de maneira indefinida,
Parece-me, no entanto, que tudo tem um limite de cópias, pois o “clone” sempre sai gasto, com defeitos ou tem vida curta. Seja uma divisão celular (por qual motivo envelhecemos mesmo se as células continuam a se copiar e as trocamos por todo o corpo?) ou uma folha da qual se faz uma cópia da cópia da cópia… as características se perdem, se tornam manchas que se dissolvem aos poucos.
Tudo isso demonstra um desgaste nas bases sociais e dos indivíduos sem mostrar até onde deve-se ir. Qual é o limite de significados que as coisas podem adquirir? Ou melhor, o quanto um mesmo símbolo pode se auto-revalidar sem perder todo e qualquer sentido? Não sabemos, mas assim acontece. É o espírito de nosso tempo onde o sustentável dá mais a ideia de uma auto-afirmação que se sustente por si, se recicle e propague, do que a construção de uma sociedade melhor, que cuide de seu meio ambiente e pessoas, e cresça economicamente de maneira conjunta.
Hoje, o que é sólido não se desmancha no ar (talvez nem haja algo realmente sólido), mas qual é o mérito de um tempo onde, reciclando e se perdendo, as pedras de um castelo histórico, por exemplo, podem se dissolver nos significados e, modificados, virarem areia de uma caixa de gato?
Talvez nem tudo o que é sólido se desmanche no ar atualmente, mas quem dera assim fosse, dessa forma não precisaríamos tentar poupar uma atmosfera quase perdida como desculpa para a continuidade da vida, quando o que se quer é apenas dar uma boa espiada em até onde esse esvaziamento nos levará. Símbolo após símbolo, conceitos reciclados atrás de conceitos reciclados tentando ser, amanhã, o que nunca soubemos que fomos ontem, e não temos a menor noção do que somos no hoje!
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